Por Thonny Hawany
Você sabe como pedir desculpas em língua iorubá?
Este blog tem por objetivo a publicação de artigos, ensaios e reflexões de natureza acadêmica e cultural. As letras, o direito, as multilinguagens, os códigos diversos, a cultura afrodescendente, gênero, identidade de gênero e outros relevantes temas sociais e humanísticos constituirão a base e o conceito geral das principais discussões nele implementadas.
Por Thonny Hawany
A palavra “obrigado” — no caso dos homens — e “obrigada” —
no caso das mulheres — está entre as expressões indispensáveis para o diálogo e
a boa convivência em sociedade.
Quando alguém lhe fizer um favor ou realizar alguma ação que
mereça seu agradecimento, diga: “Mo dúpẹ́!”. É assim que dizemos obrigado(a)
em língua yorubá.
Vamos ver como cada pessoa do discurso pode expressar
agradecimento em yorubá?
Como vimos, as expressões mo, o, ó, a, ẹ, wọ́n
correspondem aos pronomes pessoais da língua portuguesa: eu, você (ou tu),
ele/ela, nós, vocês (ou vós) e eles/elas. Já a palavra dúpẹ́ corresponde
ao verbo “agradecer”.
Referencial:
BENISTE, José. Dicionário português yorubá. Rio de Janeiro:
Bertrand Brasil, 2021.
BENISTE, José. Dicionário yorubá português. 2.ed., Rio de
Janeiro: Bertrand Brasil, 2014
Por Thonny Hawany
Sem revelar os segredos do
culto, tentarei falar sobre o assunto explicando apenas o que pode ser do
conhecimento de todos. O kàro é o ato pelo qual o bàbálórìṣà ou ìyálòrìṣá
leva o noviciado a fazer um juramento de fidelidade ao àṣẹ[3]
e a tudo que a ele está ligado direta e indiretamente.
Há muitas formas de fazer esse
ato, cada família tem a sua metodologia, mas quase sempre o ato gira em torno do
compromisso que o(a) futuro(a) filho(a) assume com o seu sacerdote, com a sua nova
família de àṣẹ e com o sagrado.
Tudo funciona assim: depois das
necessárias explicações sobre o ato, o sacerdote ou sacerdotisa faz uma série
de perguntas que devem ser respondidas pelo(a) noviciado, segundo o exemplo a
seguir:
Sacerdote(isa): Você promete
ser fiel ao seu òrìṣà[4]?
Noviciado(a): Sim, eu prometo!
Sacerdote(isa): Você promete
ser fiel à sua família de àṣẹ?
Noviciado(a): Sim, eu prometo!
Sacerdote(isa): Você promete
ser fiel ao(à) seu(sua) sacerdote(isa)?
Noviciado(a): Sim, eu prometo!
Sacerdote(isa): Você promete
aprender e ser fiel aos ensinamentos da família de àṣẹ?
Noviciado(a): Sim, eu prometo!
Sacerdote(isa): Você promete guardar
os segredos da religião, protegendo-os das pessoas leigas e de má-fé?
Noviciado(a): Sim, eu prometo!
Sacerdote(isa): Você promete zelar
pelo bem estar físico, moral, psicológico e espiritual da sua comunidade de àṣẹ?
Noviciado(a): Sim, eu prometo!
Nesses mais de trinta anos de sacerdócio,
eu nunca ouvi um único NÃO durante o ìbúra obì. Todos disseram SIM a
todas as perguntas que lhe foram feitas.
Esse juramento é para sempre,
não importa o que vem depois, o juramento precisa ser mais forte que qualquer
coisa que aconteça na sua trajetória como homem ou mulher de àṣẹ. O ìbúra
obì precisa ser mais forte que os vícios morais (a fofoca, a mentira, a
discórdia, a indisciplina, a inveja, o ciúme, o exagero, o descontrole, entre
outros).
Excetuando os casos extremosos
em que não é possível continuar num terreiro de Candomblé, tais como: a) a descontinuidade
do Ilé Àṣẹ[5] por motivo de
falecimento do(a) sacerdote(isa) ou em face da desistência do sacerdócio e b) a
prática de atos ilícitos por parte do(a) sacerdote(isa) ou de pessoa da alta hierarquia
com a conivência desse(a), a exemplo dos assédios, quer sejam morais, quer
sejam sexuais, não existem motivos que justifiquem a quebra do ìbúra obì.
Essa efemeridade da
permanência nas casas de Candomblé por parte dos filhos e filhas de santo tem
se tornando uma constante em quase todos os lugares. Para certificar-se do fenômeno,
basta um olhar nas redes sociais dos terreiros e das pessoas a eles ligadas.
Diversos são os motivos dos
desligamentos, quase sempre, precoces. A
falta de habilidade e competência administrativa por parte do(a) sacerdote(isa)
e a fragilidade das relações sociais, quase sempre baseadas em desonestidade,
desrespeito, irresponsabilidade, falta de tolerância e de humildade, têm sido
os principais vilões do ìbúra obì.
Nenhum juramento se mantém
inquebrável se os membros da comunidade não estiverem prontos para viver e aprender
a viver em uma sociedade baseada nos valores humanos da honestidade, do
respeito ao outro e ao que é do outro, da responsabilidade que tem sobre si e
sobre o outro, da tolerância ao novo e ao diferente e, acima de tudo, da
humildade para reconhecer os próprios erros e para entender que pode e deve ser
melhor a cada dia.
Em face de tudo, entendo que o
ìbúra obì deve ser seguido de importantes lições sobre respeitar as
pessoas, as regras, os direitos e as diferenças existentes no terreiro. É
preciso praticar a gentileza, saber ouvir o que é importante para a vida,
conversar com as outras pessoas de modo gentil e respeitoso, cuidar da sua própria
vida e deixar de lado a vido do outro, nunca usar palavras de agravo ou dizer
coisas que podem magoar pessoas, aceitar os próprios erros, as limitações
entendendo que pode corrigir tudo para ser melhor e, sobretudo, ser cooperativo
nas ações da ẹgbẹ́[6].
Por fim, deixo uma dica para
você que está procurando uma casa de Candomblé: visite o máximo possível de casas;
procure conhecer as pessoas que estão na administração das comunidades e as
demais pessoas que frequentam o lugar; conheça a índole, o trato ético e moral
de cada um(a); veja se tudo está de acordo com o que você espera da religião e
das pessoas e, quando escolher a sua nova família religiosa, faça de modo permanente
o seguinte exercício: compare o que você almeja com o que a família pode lhe
oferecer e de que maneira você pode contribuir para que tudo se consolide num
ato final de PAZ e de HARMONIA.
[1] . Ìbúra
= juramento, obì = noz de cola (fruto africano).
[2] .
Kàro é o mesmo que juramento perante o obì.
[3] .
Essência divina, força, poder, o elemento que estrutura uma sociedade, lei,
ordem; o mesmo que axé.
[4]
. O mesmo que orixá.
[5] .
Casa de Candomblé – Nação kétu – o mesmo que templo.
[6] . Sociedade,
associação, clube, partido.
Episódio 02: Sàsányìn:
ensinar para não perder
É perceptível no Candomblé moderno que as pessoas têm valorizado as práticas mais voláteis em detrimento dos velhos fundamentos perpassados de geração em geração pela memória dos mais velhos. Vê-se mais cuidado com o que vai vestir e usar no pescoço que com os ritos essenciais, a exemplo das folhas.
Em face das imagens nas redes sociais, vemos que boa parte da comunidade candomblecista tem investido mais na aparência e menos na essência. Exibem suas belas vestes bordadas a à guipure, a richelieu e a entremeios, acreditando que, com isso, está fazendo Candomblé raiz.
As vestimentas e as pedrarias são também importantes, mas não constituem a base das religiões de matrizes africanas. Òrìṣà é natureza e é dela que tiramos toda a essência para encantar, louvar e perpetuar o sagrado nas casas de Candomblé.
Com ao cards seguintes chamamos a atenção da comunidade para a Sàsányìn que constitui, a nosso ver, a principal para a religião dos Òrìṣà. Se não registrarmos (letra e voz) e não ensinarmos o valor ritualístico das folhas e também suas propriedades fitoterápicas, teremos num futuro próximo uma vertente goumetizada e artificial do que hoje conhecemos como Candomblé.
Episódio 01: Natureza & Ancestralidade
Este material foi organizado pelo bàbálórìṣà Thonny Hawany para ensinar sobre a importância das folhas como elemento ritualístico e fitoterápico dentro de sua comunidade tradicional afro-brasileira – Ilé Àṣẹ Ojú Oòrùn – localizada no município de Caetité – Estado da Bahia.
O primeiro episódio apresenta um resumo sobre a importância das folhas como elemento ritualístico e também fitoterápico.
Muitos ritos do Candomblé estão relacionados com as folhas e com os poderes ritualísticos que cada uma exerce sobre as entidades e também sobre as pessoas. Dai dizer que sem folha não há òrìsà: kò sí ewé, kò sí Òrìṣà!”
Os cards a seguir apresentados não têm como objetivo tratar das folhas de modo aprofundado, pretende-se com esse material chamar o leitor para uma importante reflexão: o poder das folhas dentro e fora das religiões de matriz africana. O que aprender? Como aprender? Por que aprender? Quando aprendee? Onde aprender? Essas são provocações apresentadas pela série Àwọn Ewé. Não perca os próximos episódios.
As imagens
pertencem ao acervo particular do Ilé Àṣẹ Ojú Oòrùn – Caetité –
Bahia.
Os cards
foram originalmente publicados no Instagram da Comunidade Ojú Oòrùn -
@ojuoorun. Siga, curta e compartilhe.
Por que és tão
indiferente?
que não me
enxergas,
que não me tocas,
que não me queres,
que só me
ilude...
Por que insiste
na indiferença,
se no perfume impregnado
nas flores
persiste a
lembrança do teu cheiro?
Por que teima
na indiferença,
se o vento que
toca a minha face
eterniza o teu
beijo suave e doce?
Por que reitera
a indiferença,
se até na luz das
estrelas, em mim
espelha o
brilho dos teus olhos?
Se sigo, sigo
assim: sentindo
o teu calor no
calor do sol,
o teu corpo
molhado no molhado da chuva,
o teu castigo
no castigo do açoite,
a tua indiferença
na LEMBRANÇA do silêncio.
Se sigo, sigo
assim: a reclamar
da saudade que maltrata,
da paixão que
assola,
da LEMBRANÇA
que dói
do esquecimento
que evoca.
Se sigo, sigo
assim: a eternizar
a dor que não dói...
a morte que não
mata...
o amor que não
ama...
a vida que não
vivo...
a LEMBRANÇA insistente
apesar da indiferença...
*Essa poesia foi originalmente escrita por mim na cidade de Caetité / Bahia, em 23 de junho de 1989.
Por Thonny Hawany
[...] Ainda chove lá fora!
E EU, dentro de mim, só saudades...
Quase sinto:
as lágrimas que plangem cadentes,
e que correm amarelas em leito,
amalgamadas ao rubro da INCERTEZA.
A DEPRESSÃO!...
[...] Ainda chove lá fora!
E EU, na janela, só expectativas...
Quase vejo:
um homem que passa solitário,
desviando-se do choro
e dos raios que riscam os ares,
na certeza de luzir a cegueira do TEMPO.
A ANSIEDADE!...
[...] Ainda chove lá fora!
E EU, quase fora de mim...
Quase ouço:
os bramidos não ecoados,
os gritos não gritados
e as notas atormentadas das VOZES.
O ATO!...
[...] Ainda chove lá fora!...
E eu, em frente de mim...
sem
as lágrimas plangentes,
sem
o homem esquivando-se do choro
sem
os bramidos e os gritos não gritados
O SILÊNCIO!...
No último dia 07 de agosto de 2023, deu-se início à primeira turma do curso Ẹ̀kọ́ Èdè Yorùbá, ministrado pelo olùkọ́ e bàbálórìṣà Thonny Hawany, como projeto de extensão vinculado ao Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Baiano (IFBAIANO), Campus Bom Jesus da Lapa.
A aula inaugural foi mediada pela servidora Valdineia Antunes Alves Ramos e contou com as presenças do diretor geral do Campus Bom Jesus da Lapa, professor Geângelo de Matos Rosa; do coordenador de extensão, Junio Batista Custódio; do pastor batista da cidade de Porto Velho (Rondônia), Moises Selva Santiago, o qual falou como ex-aluno do curso e entusiasta do projeto. Além da equipe formada pelas mediadoras Amanda Jardim, Mísia Nunes e pela estudante bolsista Carla Silva, o evento contou com a presença de diversos estudantes oriundos de diferentes regiões do Brasil.
Em sua breve fala, o professor Geângelo Rosa afirmou que o projeto representa um marco na relação entre o Campus Bom Jesus da Lapa e as comunidades tradicionais (Quilombolas e Povo de Terreiro) existentes no território. O coordenador de extensão Júnio Batista, por sua vez, deixou registrado seu entusiasmo com os objetivos e metas do projeto Ẹ̀kọ́ Èdè Yorùbá e também afirmou que a proposta abre portas para trabalhos mais profícuos envolvendo o setor de Extensão do IF Baiano e as comunidades tradicionais radicadas no Território Velho Chico.
O professor Thonny Hawany, coordenador do projeto, registrou que “o Ẹ̀kọ́ Èdè Yorùbá é um curso de língua iorubá básica, na modalidade EaD, que abrangerá conteúdos básicos de história do povo iorubá, sua geografia e estudos elementares de gramática compreendendo o alfabeto, a fonética, a morfologia, a sintaxe, a semântica, a estilística, frases do cotidiano e a produção de pequenos textos.
Depois das apresentações inicias, a aula inaugural avançou para a segunda fase, na qual foi feita a ambientação EaD dos estudantes e a ministração dos primeiros conteúdos sobre fonética e fonologia da língua iorubá, com ênfase para o alfabeto e os sons da língua. Na sequência, foram apresentadas algumas principais formas de cumprimentos e saudações e noções de tradução de textos do iorubá para o português.
Para saber mais e acompanhar um pouco da experiência que foi o evento, acesse o link: https://www.youtube.com/watch?v=sQJsMlquB2M&t=623s
Por Thonny Hawany
Em iorubá, os sinais diacríticos
ou notações lexicais são chamados de àmi. Os àmi são fundamentais para a
compreensão da língua haja vista que o iorubá é um idioma tonal e está na
entonação das sílabas a chave para a preensão dos vocábulos.
São os sinais diacríticos da língua iorubá:
|
1) àmi òkè
( ´ ) |
Indica a
entonação alta. |
Exemplos: Ìfẹ́: querido ọlá: honra ọ̀rẹ́: amigo |
|
2) àmi ìsàlẹ̀ |
Indica a
entonação mais baixa. |
Exemplos: àdúrà: reza, oração ọ̀gẹ̀dẹ̀: banana Òrìṣà: divindade |
|
3) àmi
óhún |
Indica a
entonação média. |
Exemplos: ata: pimenta ej̣a: peixe ohun: coisa |
|
4) àmi
fãgún ( ~ ou - ) (Sinal
raro) |
Indica
a combinação de duas vogais que devem ser pronunciadas com prolongamento na
voz. |
Exemplos: fãgún: nivelar /fáàgún/ |
|
5. àmi lábẹ́* ( ẹ, ọ, ṣ ) |
Modifica
a pronúncia da letra: ẹ como em café, ọ como em cipó e ṣ tem o som de x
como em lixo |
Exemplos: ẹ̀gbẹ́: sociedade ọ̀gá: mestre àṣẹ: força, poder |
̣
A troca de um àmi por outro ou
a falta dele ao escrever uma palavra pode causar erros irreparáveis em língua
iorubá. Exemplos:
Àṣẹ:
força, poder
Àṣẹ́:
menstruação
Ase:
um animal roedor da família do esquilo
Àsè:
refeição, entretenimento, festa
Asé:
coador
Havendo tomado os cuidados
necessários, não há erro, iorubá é prática, é preciso experimentar ainda que
falando consigo mesmo. O bom é ter uma pessoa com conhecimento igual para praticar
a interação comunicacional. Sucesso e bons estudos!
Referencial:
BENISTE, José. Dicionário yorubá
português. 2. ed., Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2014.
PORTUGUAL FILHO, Fernandes. Vamos
falar yorùbá: introdução ao idioma dos Orixás – gramática, exercícios, dialógicos
e minidicionário. São Paulo: Arole Cultural, 2020.
* Nome dado por mim ao ponto colocado debaixo das letras ẹ, ọ e ṣ para mudar o som do fonema.
Por Thonny Hawany
A folha-da-costa é de origem brasileira e pode ser encontrada de norte a sul e de leste a oeste do Brasil. A folha-da-costa é utilizada para os fundamentos de todos os orixás ligados ao processo de criação (àwọn òrìṣà funfun). Trata-se de uma folha utilizada nos ritos de iniciação, nos ebós, no bori[1] e na sacralização de alguns animais. Há outras folhas com aspectos semelhantes ao da folha-da-costa, fato que a faz ser confundida, principalmente, com a folha àbámodá (milagre-de-são-joaquim, folha da fortuna). Ọdúndún e àbámodá são da mesma família, mas de espécies diferentes. Embora sejam muito parecidas, os pequenos detalhes não escapam aos olhos de um especialista atento. A folha-da-costa tem as bordas quase lisas, enquanto a folha milagre-de-são-joaquim, que também é chamada de folha da fortuna, possui as bordas denteadas e roxeadas (SANTOS, p.101).
Nomes populares: folha-da-costa
Dados científicos: Divisão magnoliophyta, classe
magnoliopsida, odem saxifragales, família crassulaceae, gênero kalanchae,
espécie brasiliensis, nome científico: kalanchae brasiliensis.
Nome iorubá: ewé ọdúndún
Orixás associados: Òsàlà[2]
Elemento(s) associado(s): água
Gênero: folha feminina
Significado sagrado: Folha que glorifica, ilumina os
iniciados, purifica o corpo, a mente e o espírito, protegendo-os de todos os
males, inclusive de si mesmos. Segundo Mãe Stella (2014, p. 101), “a
folha-da-costa ensina comportamentos fundamentais para que o iniciado não
enlouqueça: silêncio, amadurecimento, obediência aos mais velhos e ao sagrado”.
Cantiga(s) / Encantamento(s):
Cantiga 1:
Solo:
Loju dé
Coro:
Àwa ṣe re re
Loju dé o
Àwa ṣe re re
Solo:
Àgbaó
Coro:
Ṣògo là ta bò bò wa
Ṣògo là ta
Solo:
Ewé Ọdúndún
Coro:
Ṣe ré kúbúsú bò bò wa
Ṣe ré kúbúsú
Tradução:
Solo: O senhor que tudo vê nos cobriu.
Coro: Nós agimos trocando o cabelo (renascemos com a
iniciação) e mudando a pele (renovando-nos). O Senhor que tudo vê nos cobriu.
Nós agimos trocando o cabelo e mudando a pele.
Solo: Imbaúba!
Coro: Glorificamo-nos, purificamos, iniciados e iluminados;
ricos de folhagens, cobertos e protegidos por Imbaúba.
Solo: Folha-da-costa
Coro: Fomos cobertos por um cobertor rico em folhas, somos
protegidos por folha-da-costa.
Observação: A cantiga acima foi retirada da obra “O que as
folhas cantam”, escrita por Santos e Peixoto (2014, p. 100). Conforme está
escrito na mesma obra, Ọdúndún é cantada juntamente com àgbaó (folha da
imbaúba).
Cantiga 2:
Solo:
Ọdúndún bàbá té ru lé
Ọdúndún bàbá té ru lé
Bàbá té ru lé
Male té ru lé
Bàbá té ru lé
Máa le té ru lé
Coro:
Ọdúndún bàbá té ru lé
Ọdúndún bàbá té ru lé
Bàbá té ru lé
Male té ru lé
Bàbá té ru lé
Máa le té ru lé
Tradução:
Folha-da-costa, pai que nos une e nos protege
Folha-da-costa, pai que nos une e nos protege
O pai que nos une e nos protege.
Certamente nos une e nos protege
Funções sagradas no Candomblé: Ọdúndún é uma folha de
muitas utilidades na religião, para compreender sua importância e a sua
dimensão nos atos de iniciação e demais obrigações no Candomblé, é preciso ser
de dentro. Explicar com minucias os usos de Ọdúndún é colocar em risco os
segredos seculares guardados pelos nossos ancestrais e perpassados, tão
somente, na prática e, quase sempre, por meio da oralidade.
Funções fitoterápicas: segundo a nossa experiência no
terreiro, a folha-da-costa tem propriedades anti-inflamatórias, cicatrizantes,
serve para tratamento de infecções urinárias e também para tratamento do
aparelho digestivo. A folha-da-costa pode ser utilizada na forma de unguentos,
banhos e chás.
Nota importante:
É importante lembrar que nenhum conhecimento popular sobre
doenças e tratamentos empíricos exclui a necessária orientação de um médico.
Consulte um médico antes de fazer uso de qualquer substância, quer seja ela
natural, quer seja ela produzida em laboratório.
Referências:
1. BARROS, José Flávio Pessoa de e NAPOLEÃO, Eduardo. Ewé
Òrìṣà. 5.ed., Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2011.
2. SANTOS, Maria Stella de Azevedo e PEIXOTO, Graziela
Domini. O que as folhas cantam (para quem canta folha), Brasília: Instituto
Nacional de Ciência e Tecnologia de Inclusão no Ensino Superior e na Pesquisa
(INCTI), 201
Notas finais:
[1] . Ato pelo qual se alimenta a cabeça espiritual (Orí)
[2] . Oxalá
Fonte das imagens: Arquivo pessoal
Por Thonny Hawany
Conforme está escrito no sítio da AMPA – Associação Mato-grossense dos Plantadores de Algodão, “o algodão é conhecido do homem desde os tempos mais remotos. A domesticação do algodoeiro ocorreu há mais de 4.000 anos no sul da Arábia e as primeiras referências históricas ao algodão estão no Código de Manu, do século VII a.C., considerado a legislação mais antiga da Índia. Os Incas, no Peru, e outras civilizações antigas, já utilizavam o algodão em 4.500 a.C. Os escritos antigos, de antes da Era Cristã, apontavam que as Índias eram a principal região de cultura e que o Egito, o Sudão e toda a Ásia Menor já utilizavam o algodão como produto de primeira necessidade” (online).
O
algodoeiro é mesmo uma planta surpreendente, tem boa sombra quando plantado
para este fim, tem flores lindas de perfume sutil, veste a humanidade com suas
fibras e serve como remédio para o corpo e também para a alma, como veremos
mais adiante.
Nomes
populares: algodoeiro, algodão-bonito, algodão-de-malta, algodão-herbáceo
Nome
científico: Gossypium L., da família Malvaceae
Nome
iorubá: ewé òwú
Orixás
associados: Pertence por excelência a Oxalá, mas também a outros orixás da
mesma linhagem.
Elemento(s)
associado(s): ar
Gênero:
folha feminina
Significado
sagrado: equilíbrio entre os elementos feminino e masculino. É uma folha gún
(quente). O algodão e o algodoeiro possuem muito prestígio na cultura iorubá,
pelo menos dois signos de Ifá tratam do assunto: Òsá e Ogbè-Ògúnda, como se
pode ler em Barros e Napoleão (2011, p. 204).
Cantiga / Encantamento:
Ewé Òwú
jẹ́jẹ́
(A folha
do algodão acalma)
Ewé Òwú
jẹ́jẹ́
(A folha
do algodão acalma)
Ó ya sábá
ni bá ta bá mí
(Ela
transborda, abriga, ajuda, ilumina, sacode)
Baba bẹ̀
o!
(Pai,
suplica!)
Funções sagradas no Candomblé: o algodão (ewé òwú) é uma folha quente pela qual pedimos proteção para o nosso Orí [1] e consequentemente para toda a nossa vida. A ewé òwú cobre a nossa cabeça e nos protege contra os nossos inimigos. A folha do algodoeiro é utilizada nos banhos dos obrigacionados e em outros ritos, cujo hunbe [2] não nos permite descrevê-los aqui.
Funções
fitoterápicas: De modo bem resumido, o chá da folha de algodão é diurético,
contribui com a digestão e ajuda na regulação do intestino. Ainda conforme
experientes rezadeiras da Região Sudoeste da Bahia, as folhas do algodoeiro
também servem para regular o ciclo menstrual.[3]
Referências:
1.
História do Algodão. AMPA – Associação Mato-grossense dos Plantadores de
Algodão. Disponível em: https://ampa.com.br/historia-do-algodao/. Acesso em
23/02/2023.
2.Ewé
òwú. GUNFAREMIM. Disponível em: https://gunfaremim.com/?p=352. Acesso em
23/-2/2-23.
3.
BARROS, José Flávio Pessoa de e NAPOLEÃO, Eduardo. Ewé Òrìṣà. 5.ed., Rio de
Janeiro: Bertrand Brasil, 2011.
__________________________________________________________
[1] . Cabeça, orixá com o qual nascemos todos.
[2]
. Educação religiosa para o povo do Candomblé.
[3]
. É importante lembrar que nenhum conhecimento popular sobre doenças exclui a
necessária orientação de um médico. Consulte um médico antes de fazer uso de
qualquer substância, quer seja ela natural, quer seja ela produzida em
laboratório.
FONTE DAS IMAGENS: Arquivo pessoal