domingo, 12 de julho de 2020

APRENDENDO YORÙBÁ E BOAS MANEIRAS: OLÓFÓFÓ


sábado, 11 de julho de 2020

APRENDENDO YORÙBÁ E BOAS MANEIRAS: ÈKÉ


sexta-feira, 10 de julho de 2020

APRENDENDO YORÙBÁ E BOAS MANEIRAS: ẸJỌ́


segunda-feira, 16 de março de 2020

ETÌPỌ́LÀ


Organizado por Thonny Hawany
O QUE É?

Etìpọ́là, de origem brasileira, é uma planta rasteira que pode crescer até 70 centímetros, denominada comumente de erva tostão e de pega-pinto. Suas folhas têm formato arredondado, são verdades acinzentadas ou esbranquiçadas. Segundo Santos (2014, p. 150), “ewé etìpọ́là é chamada de pega-pinto porque suas folhas pequeninas fixam-se nas penugens dos pintinhos, quando estes se aproximam delas. Apesar de ser considerada uma erva daninha, é uma planta com importantes virtudes medicinais.

DADOS IMPORTANTES:

Nome em yorùbá: ewé etìpọ́
Nomes populares: erva tostão, pega-pinto
Nome científico: Boerhaavia difussa L, Nyctaginaceae
Òrìsà(s) associados: Ọya, Ṣàngó
Elemento associado: fogo
Gênero: masculino
Significado sagrado: convite à reclusão, renascimento, purificação, prosperidade

ENCANTAMENTO (ORIN/ỌFỌ̀):

Ifà owó, ifà ọmọ
Ewé etìpọ́là wá fifa burù rú

TRADUÇÃO CONTEXTUAL:

Ifá é dinheiro, Ifá é filho.
A folha de etìpọ́là é abençoada por Ifá.

FUNÇÕES TERAPÊUTICAS:

Das raízes de etìpọ́là pode ser fabricado um vinho (garrafada) com importantes funções hepáticas e combate às afecções renais.

INFORMAÇÕES COMPLEMENTARES DO AUTOR:

1. A prosperidade e o progresso são a base do uso da ewé etìpọ́là nos ritos do Candomblé. Sem etìpọ́là não há garantia de que os ritos terão o completo progresso almejado inicialmente.
2. Etìpọ́là deve ser usado observando a dosagem visto que pode causar coceiras no caso de ser usado na forma de banhos.
3. Das raízes do etìpọ́là é feito um àṣẹ (pó) que serve para a consagração de tudo o quanto o yawo usará em sua iniciação.

REFERÊNCIAS:

BARROS, José Flávio Pessoa de e NAPOLEÃO. Ewé òrìṣà: uso litúrgico e terapêutico dos vegetais nas casas de candomblé jeje-nagô. 5.ed., Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2011.
SANTOS, Maria Stella de Azevedo. O que as folhas cantam (para quem canta filha. Brasília: INCTI, 2014.
VERGER, Pierre Fatumbi. Ewe: o uso das plantas na sociedade ioruba. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

sábado, 14 de março de 2020

TẸ̀TẸ̀

Organizado por Thonny Hawany


O QUE É?

Segundo Santos (2014, p. 147), tẹ̣̀, o bredo branco, sem espinhos, “também nomeada caruru, é uma planta rica em ferro, potássio, cálcio e vitaminas A, B1, B2 e C, por isso ela tem sido resgatada na culinária que aproveita suas folhas e talos para fazer refogados, molhos, tortas, pastéis e panquecas; com suas sementes são feitos pães ou elas são, simplesmente, comidas torradas”. Apesar de todas essas propriedades, bredo é considerada uma erva daninha haja vista nascer com muita facilidade.

DADOS IMPORTANTES:

Nome em yorùbá: ewé tẹ̣̀
Nomes populares: bredo, bredo-sem-espinhos, caruru
Nome científico:  amaranthus viridis
Òrìsà(s) associado(s): Òsàlà e Ògún
Elemento associado: terra
Gênero: feminino
Significado sagrado: segurança, perseverança, otimismo, força, vitalidade, ânimo

ENCANTAMENTO (ORIN/ỌFỌ̀):

̣̣ kọ má tẹ o
Dání ṣò ni lẹ̀
̣̣ kọ má tẹ o
Dání ṣò ni lẹ̀

TRADUÇÃO CONTEXTUAL:

Bredo acorda sempre aquele que é indolente,
preguiçoso, sem ânimo.
Bredo dá segurança ao inseguro.

FUNÇÕES TERAPÊUTICAS:

Conforme a cultura de terreiro, o bredo/caruru é utilizado para combater infecções e também como auxiliar no tratamento de problemas relacionados com o fígado. Indica-se no combate às doenças relacionadas com os osso, dentes tendo em vista sua riqueza em cálcio.

INFORMAÇÕES COMPLEMENTARES DO AUTOR:

1. Ewé tẹ̣̀ é remédio espiritual quando utilizado nos banhos sagrados, é uma das primeiras folhas cantadas na preparação do àgbo (omí ẹ̣̀).
2. Como vimos acima, ewé tẹ̣̀ é remédio para o corpo, tendo em vista que alimenta, palia, auxilia e cura.
3. Ewé tẹ̣̀ é apenas um dos exemplos de quem nem tudo é erva daninha. Ao carpir nosso jardim, podemos estar nos desfazendo de importante alimento e/ou remédio.
4. Motivo pelo qual é classificada como erva daninha: ter muita semente e nascer em abundância. 

REFERÊNCIAS:

BARROS, José Flávio Pessoa de e NAPOLEÃO. Ewé òrìṣà: uso litúrgico e terapêutico dos vegetais nas casas de candomblé jeje-nagô. 5.ed., Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2011.
SANTOS, Maria Stella de Azevedo. O que as folhas cantam (para quem canta filha. Brasília: INCTI, 2014.
VERGER, Pierre Fatumbi. Ewe: o uso das plantas na sociedade ioruba. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

quarta-feira, 11 de março de 2020

ÌPẸ̀TẸ̀


Organizado por  Thonny Hawany

O ìpẹ̀tẹ̀ é um prato de origem africana feito à base de inhame, geralmente, servido para Ọ̀ṣùn. No Brasil, há muitas casas que usam o nome da comida para intitular a festa em louvor à Ọ̀ṣún, na qual é servida a comida do mesmo nome.


INGREDIENTES:

1 kg de inhame
500 g de camarão seco
100 ml de azeite de dendê
1 cebola grande picada
Sal a gosto



MODO DE FAZER:
1.  Descasque e cozinhe o inhame com um pouco de sal, até ficar no ponto de ser amassado.
2. Depois de cozido, amasse o inhame em ponto de purê e o reserve.
3. Frite a cebola picada no azeite de dendê até dourar.
4. Acrescente o camarão previamente cozido, o purê de inhame e sal a gosto.
5. Mexa a mistura até ficar tudo uniforme.
6. Preferencialmente, todo o processo deve ser feito em fogão a lenha, usando panela de barro e colher de pau.

MODO DE SERVIDOR
1. O ìpẹ̀tẹ̀ deve ser servido para Ọ̀ṣùn em alguidar de barro ou em vasilha de louça branca/amarela forrada, por dentro, com folhas específicas. (Lembre-se das orientações de Ògún)
2. Na sala, ou seja, nos atos externos, o ìpẹ̀tẹ̀ é servido com colher de pau, em folhas específicas ou colocado nas mãos das pessoas. (Lembre-se das orientações de Ògún).

ORIN DO ÌPẸ̀TẸ̀
Ògún je
Ògún já dé'rọ́
Ipẹtẹ́ akún yan
Ode mọ̀ dé’rò
A járe o ọfẹ́
Ìpẹ̀tẹ̀ a kún iyán

TRADUÇÃO CONTEXTUAL:
Ògún comeu,
Ògún se acalmou.
No Ìpètè se fartaram de comer,

POR QUE SERVIR O ÌPẸ̀TẸ̀?
O ìpẹ̀tẹ̀ é uma comida servida à Ọ̀ṣùn para despertar a maternidade, a fertilidade, o nascimento. Trata-se de uma comida servida a todos os guerreiros a fim de lhes dar vitalidade, coragem, poder e virilidade. O ìpẹ̀tẹ̀ desperta o amor, a riqueza, a alegria, a paz, a confiança, a felicidade, entre outros sentimentos positivos. O ìpètè nos livra de todas as maldições.

ìTÀN ÌPẸ̀TẸ̀:
Conta-se que Ọ̀ṣùn estava com enormes problemas no ventre e isso fazia com que ela não engravidasse. Era o seu maior desejo. Para resolver essa questão, ela resolveu procurar Òrúnmìlà.
Ọ̀rúnmìlà, ao analisar o caso de Ọ̀ṣùn sugeriu que ela, seguindo um preceito, fizesse uma comida para todos as suas irmãs, ela achou isso impossível, visto que cada uma comia algo diferente.
Ọ̀rúnmìlà então lhe disse: “esforce-se em criar algo que todas comam”.
Ọ̀ṣùn respondeu: “mas como?”
Ọ̀rúnmìlà de pronto falou: “vá até uma estrada que pareça não ter fim, caminhe por um tempo e encontrará um homem que lhe presenteará com uma raiz”.
Desconfiada, mas sem opções, no dia seguinte, nos primeiros raios da manhã, Ọ̀ṣùn pôs-se a caminhar a procura da tal estrada, passou por matas, rios, caminhos íngremes e também por vias estreitas de pedras.
Depois de certo tempo, ela encontrou a estrada, caminhou, descansou e caminhou, até que avistou o homem da profecia de Ọ̀rúnmìlà: era Ògún.
Ọ̀ṣún não deixava os seus rios, as suas terras e o seu palácio por nada. Ela não gostava de sair e sua presença ali tão distante espantou Ògún que lhe perguntou: “o que faz aqui Ọ̀ṣùn?”.
Ọ̀ṣùn contou tudo a Ògún que foi a uma margem da estrada e lhe trouxe uma raiz chamada iṣu (inhame) com a qual ela deveria fazer uma comida chamada ìpètè: a comida que acalma. Antes de ir embora, Ọ̀ṣún pergunta a Ògún o que ele queria receber de volta em troca da raiz.
E Ògún encantado com a beleza de Ọ̀ṣùn responde-lhe: “Nada! Tenho apenas uma observação: não se esqueça de cobrir o seu orí com uma folha de abre caminhos antes de sobrepor a panela de ìpètè que deverá conter todas as pedras de suas irmãs.
Òsùn ouviu atentamente as recomendações de Ògún, fez tudo conforme orientada e pouco tempo depois nascia Logún Edé (o primogênito querido de Ọ̀ṣùn).

Fonte: conhecimentos adquiridos na experiência no terreiro e na tradição oral.


quinta-feira, 12 de abril de 2018

EYíN: A CÉLULA DO SAGRADO

Por Thonny Hawany



O ovo (eyin) é, a meu ver, o mais importante de todos os símbolos que, de alguma forma, representa a fertilidade, o nascimento e a perpetuação da espécie. O ovo (ova, óvulo) é, para além de qualquer definição, o princípio da vida material e “imaterial” de tudo o que se tem conhecimento, ou que se cogita a existência.

Na natureza, conforme os tratados de Biologia, o ovo/ova/óvulo/semente é a garantia de reprodução de todos os seres vivos. Nas aves, repteis e peixes, o ovo é expelido para fora do corpo da fêmea; nos demais animais, o ovo é chamado de óvulo e se constitui numa estrutura que se desenvolve internamente e, nas plantas, é representado nas sementes que, fecundadas, geram novas vidas.

Apesar da dimensão de conhecimento que o tema inspira, nossa intenção é falar do ovo como um dos mais expressivos símbolos de manipulação de energias imateriais nos ritos do Candomblé. Para os versados em ciências, deixaremos os demais vieses que o assunto sugere. O ovo é, sem sombra de dúvidas, um universo em miniatura.

As afirmações sobre o ovo, como elemento sagrado, impressas, nesta reflexão, são oriundas dos ensinamentos dos mais velhos e também de leituras e pesquisas feitas em boa e confiável literatura de àṣe.

Para dar início as nossas reflexões, queremos apresentar um pequeno texto narrativo que figura entre os mais importantes itán(s) que falam da criação do mundo segundo a cosmologia iorubana:

Conta-se os mais velhos que o Òlòdùnmarè, o Senhor da Criação, quando criou o Universo, tinha dentro de um pequeno pote quatro ovos. Usando o primeiro ovo, o Criador deu origem a Obàtálá e com ele nasceu a luz que refletiu e refratou para todos os lados sem uma forma definida. Com o segundo ovo, Òlòdùnmarè criou Ògún, o primeiro ser que possuía uma forma definida, com o terceiro ovo, Ele criou Omolú, a estrutura. No momento em que retirou o quarto ovo do pote para fazer uso no processo de criação, acidentalmente, o ovo caiu no chão, momento em que foi revelada a sua riqueza interior. Do ovo que se quebrou originou a primeira Grande Mãe Ancestral, Ìyámí Òsòróngá. Nasceu, então, a partir do quarto ovo, quebrado e exposto à supremacia divina, o poder da fertilidade e a fonte mantenedora da vida.

De acordo com a mitologia africana, o ovo é, sem sombra de dúvidas, a fonte mais rica de energia vital criadora. Foi a partir dele que tudo o que existe fora, inicialmente, criado.

O ovo é utilizado em diversos momentos da ritualística do Candomblé, quase sempre com os significados atribuídos aos quatro ovos que Òlòdùnmarè tinha dentro do pote no momento em que criara o mundo: luz, forma, estrutura, poder de fertilidade.

O uso do ovo nos rituais do Candomblé não é para desavisados e insipientes de conhecimento de àṣe: para usá-lo, é preciso escolhê-lo segundo a cor, o tipo e a forma – se cru ou cozido; se inteiro ou em pedaços; se de galinha, de pata, de codorna, de pomba ou de outra ave qualquer –. Cada ovo tem um tipo de energia que desencadeia uma espécie de encanto e magia, capaz de promover um resultado específico desejado.

Por exemplo, o ovo de galinha, quando cru, purifica e dá tranquilidade, quando cozido, funciona contra doenças da carne e do espírito. O ovo de galinha, quando esfarinhado, serve para neutralizar más energias das pessoas e de ambientes. Geralmente, o ovo esfarinhado é utilizado para desencadear boas energias, abundância e prosperidade. O ovo de pata cru é muito utilizado em ebós para livrar pessoas muito doentes da morte. Esse ovo é um dos tabus da morte. Iku não tolera ovo de pata. O ovo de codorna é um amuleto neutralizador de feitiços e magias. O ovo de galinha de angola é capaz de produzir energias capazes de atrair dinheiro, boa sorte, riquezas e muito sucesso. Já o ovo de pomba eleva, tranquiliza e fertiliza. O ovo branco remete à luz, o de casca azul à escuridão e o vermelho ao àṣe.

Em face de todo o exposto, concluímos que o ovo está entre os principais elementos de promoção e de catalisação do áṣe. Vale a pena ler itáns e outros textos que versão sobre o assunto. Conhecer a importância do ovo e suas várias utilidades dentro do Candomblé, é garantia de boa prática de àṣe.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

OBÌ


Material coletado por Thonny Hawany

Olófin, o senhor das leis, um dos títulos de Olódùmarè, decidiu um dia visitar a Terra e ver de perto como as coisas andavam. Em sua caminhada conheceu um homem que se chamava Obì, e que lhe impressionou muito por ele ser uma pessoa muito justa, sem orgulho e pretensões e sem nenhuma vaidade.

Então Olófin decidiu que Obì deveria viver muito alto, vestido de branco por fora e por dentro, que sua alma seria imortal e que trabalharia para ele. Em seguida, Olófin lhe apresentou Èṣù, e entre ambos surgiu grande amizade, sendo que os amigos de um passaram a ser amigos do outro. Os pobres, os ricos, os corretos, os desajustados, todos eram amigos de Èṣù.

Com o correr do tempo, Obì, começou a se tornar vaidoso e cheio de si. O orgulho tomou conta dele, passou a evitar as pessoas que lhe eram inferiores; até Èṣù ele evitava, devido as suas amizades que não agradavam Obì.

Desejando celebrar uma festa, Obì convidou Èṣù e pediu-lhe que evitasse convidar suas amizades. Èṣù, que havia notado a mudança de comportamento de Obì, convidou os poderosos e ricos, mas também convidou os vagabundos e miseráveis da cidade. Quando Obì chegou a casa e viu aquela gente estranha, ficou irado e perguntou: “Quem convidou esta gente a minha casa?” Todos responderam: “foi Èṣù″. Obì se enfureceu e expulsou a todos, dizendo que não admitia vagabundos em sua casa. Èṣù chegou no momento em que todos saíam, dizendo que Obì era vaidoso e ingrato. Em seguida, saiu acompanhando seus amigos.

Compreendendo o que havia feito, Obì tentou reconsiderar, dizendo que havia se equivocado ao tratar daquela forma os amigos pobres de Èṣù. Èṣù porém não lhe fez caso, seguindo o seu caminho.

Certo dia, Olófin convocou Èṣù a sua presença e pediu-lhe que levasse um recado para Obì, porém Èṣù se recusou, e, ao ser inquirido sobre a razão da recusa de ir à casa de seu amigo, respondeu-lhe que Obì havia mudado de comportamento, tornara-se muito vaidoso e se recusava a receber em sua casa os pobres e os humildes.

Olófin escutou em silêncio o relato de Èṣù, e, quando este terminou, lhe disse: “Vou ensinar uma lição a Obì”. Usando de um disfarce, Olófin foi até a casa de Obì. Tocando a porta, foi recebido por Obì, que não lhe reconheceu e foi dizendo para se afastar dali, que ele não dava esmolas a ninguém. Olófin ao ouvir aquilo, firmou a voz e lhe disse: “Olhe para mim! veja quem sou eu!…”

Obì, diante da presença de Olófin, tratou de corrigir-se alegando um engano. Olófin então lhe falou: “Eu lhe acreditava um homem honesto, íntegro e bom, sem falso orgulho ou vaidade, por isso o fiz branco por todos os lados e com espírito imortal. Parece que de viver tão alto, sua cabeça chegou às nuvens. Mas vou corrigir tudo isso. Você, a partir de agora, viverá no alto, mas só que no alto das árvores, porém cairás e rolarás por terra, para que aprendas que por mais elevado que uma pessoa esteja também poderá cair por terra. Você se vestirá de verde por fora e branco por dentro, mas algumas vezes será negro. Quando aprender a corrigir seus erros, eu o perdoarei. Até lá, você deverá servir a todos os òriṣà e ajudará a predizer o futuro a todos que desejarem saber, tanto os ricos como os pobres e necessitados sem distinção social ou de cor”.

Olódúnmarè também proclamou que, como um símbolo da prece, a árvore somente cresceria em lugares onde as pessoas respeitassem os mais velhos.

Naquela reunião do Conselho Divino, a primeira noz de cola foi partida pelo próprio Olódúnmarè e tinha duas peças.

Ele pegou uma e deu a outra para Elenini, a mais antiga divindade presente.

A próxima noz de cola tinha três peças, as quais representavam as três divindades masculinas que disseram as orações que fizeram nascer a árvore da noz de cola.

FONTE: https://meuorixa.wordpress.com/2012/06/04/obi/

segunda-feira, 26 de março de 2018

EWÉ ÌRÓKÒ

Material organizado por Thonny Hawany


O Ìrókò é uma árvore tipicamente africana que, por sua vez, representa, em si, o òrìsà do mesmo nome: Ìrókò. Segundo Mãe Stella de Òsóòsì, “o culto ao òrìsà-árvore Ìrókò é cercado de muitos mistérios, principalmente, porque a árvore que representa o òrìsà do mesmo nome serve de morada não só para as Ìyámi (que permanecem nela por muito tempo, por seus frutos não As agradam, como também para os espíritos dos iniciados denominados àbiku”.

O Ìrókò é uma árvore sagrada, é uma das principais folhas dos rituais relacionados às ewé. Ìrókò é um òrìsà cujo poder encanta a todos. Sua energia constitui uma das principais pilastras que sustentam o poder de uma casa de Candomblé. Alaràgbó Músò mora na árvore de Ìrókò e é dele o segredo para fazer àbiku ficar por mais tempo na terra. Ìrókò é òrìsà ancestral, sua representação aqui na terra, a árvore de Ìrókò, pode viver 2 ou mais centenas de anos e representa a longevidade, a durabilidade e a não perenidade das coisas. (SANTOS, 2014).

A expressão ìrókò é o nome de um òrìsà muito antigo e é também o nome da árvore onde vive esse òrìsà. Há itáns que contam que Ìrókò foi a primeira árvore a nascer na Terra, foi por ela que todos os òrìsà(s) desceram do òrun (céu) ao àiyé (terra). 

No Brasil, a árvore de Ìrókò foi substituída pela gameleira branca, árvore de grande porte também conhecida como cerejeira e figueira. A gameleira tem muitos outros nomes a depender da região do Brasil. Como o nosso objetivo não é fazer um tratado de botânica, mas pôr em resumo alguns ensinamentos sobre a ewé Ìrókò, ater-nos-emos ao que se segue:

Nome em yorùbá: ewé ìrókò
Nomes populares: cerejeira, figueira, gameleira-de-purga, gameleira-de-cansaço,  
Nome científico: fícus gomelleira.
Òrìsà(s) associado(s): Ìrókò, Ṣàngò,
Elemento associado: foco
Gênero: masculino
Significado sagrado: ancestralidade, longevidade

Algumas cantigas (orin):
Erọ́ Ìrókò iso.
Erọ́ Ìrókò iso.
Salve Ìrókò para que fixe a espiritualidade.
Salve Ìrókò para que fixe a espiritualidade.
Erọ́ Ìrókò iso.
Erọ́ Ìrókò silẹ̀.
Salve Ìrókò para que fixe a espiritualidade.
Salve o ancestral que nos une e nos fixa.

Funções fitoterápicas:
No senso comum, o leite da gameleira é utilizado para a cura de lombrigas, da hidropisia fetal, de feridas, cravos e bouba.

Referências:
BARROS, José Flávio Pessoa de e NAPOLEÃO. Ewé òrìṣà: uso litúrgico e terapêutico dos vegetais nas casas de candomblé jeje-nagô. 5.ed., Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2011.
SANTOS, Maria Stella de Azevedo. O que as folhas cantam (para quem canta filha. Brasília: INCTI, 2014.
VERGER, Pierre Fatumbi. Ewe: o uso das plantas na sociedade ioruba. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

quarta-feira, 21 de março de 2018

EWÉ ỌGBỌ́

Material organizado por Thonny Hawany


Ọgbọ́ é uma planta de origem africana, trazida para o Brasil pelos nagôs. Atualmente, é possível encontrá-la disseminada em pequenas florestas, jardins públicos e também cultivada em terreiros de Candomblé para fins ritualísticos.

A folha ewé ọgbọ́ é utilizada na iniciação de todos os òrìsa(s), sem exceção. É uma folha poderosa na catalisação de boas energias. Ọgbọ́ é utilizada nos banhos (omi ẹ̣̀ = água que acalma). Associada a outras plantas, não menos importantes, ọgbọ́ pode influenciar, sobremaneira, na consciência mediúnica dos noviciados do Candomblé.

Nas lições dos mais velhos, conta-se que ọgbọ́ foi a primeira folha liberada por Òsányìn para ser utilizada por Òṣóòsì nos seus ritos sagrados. Ewé ọgbọ́ é companheira de Ìrókò, é uma pequena trepadeira que vive abraçada ao tronco da grande árvore.

Ìrókò foi a primeira árvore plantada e ọgbọ́ a primeira folha a ser usada por permissão de Òsányìn, assim sendo, ewé Ìrókò e ewé ọgbọ́ são as duas primeiras folhas cantadas em todos os rituais, salvo as exceções consignadas nos dogmas de cada ẹ̀gbẹ (sociedade, grupo ou família).
    
Nome em yorùbá: ewé ọgbọ́
Nomes populares: rama-de-leite, cipó-de-leite, folha-de-leite, orelha-de-macaco.
Nome científico: periploca nigrescens afzel asclepiadaceae, parquetina nigrescens afzel bullock.
Òrìsà(s) associados: Òṣóòsì, Òsányìn, Ìyámí
Elemento associado: terra
Gênero: masculino
Significado sagrado: fazer ouvir

Em tempo: A folha de ọgbọ́ está intimamente liga aos rituais das mães ancestrais, mas sobre isso, falaremos, em outra oportunidade, quando falaremos das nossas ìyá-èlèyé.

Algumas cantigas (orin):
Ọgbọ́ kíní kíní olè
Ọgbọ́ kíní kíní  mo ọ̣
Ọgbó báru fàru làbà
Bàbá báru fàru awo
Ọgbọ́ cuidadosamente sobre a casa.
Ọgbọ́ cuidadosamente sobre a cidade de Oyó.
Ọgbọ́ conduz a carga revivendo a disputa
Pai que conduz e revive o mistério.
Òrìṣà e rè ewé re
Ewè ọgbọ́ ta ewè ṣè
Ewè ọgbọ́ ta ewa ò
Ewè ọgbọ́ ta ewè ṣè
O Orixá se alimenta, a folha cai.
Ọgbọ́ se esparrama, a folha agi.
Ọgbọ́ se esparrama, graciosamente.
Ọgbọ́ se esparrama, a folha agi.
Ewé ogbó Iroko
Ewé gbogbo orisá
Ewé ogbó Iroko
Babá Ewé gbogbo orisá
A folha de ọgbọ́ abraça o Ìrókò.
Ọgbọ́ é folha de todos os orixás.
Folha que se enrosca no Ìrókò,
Pai, ọgbọ́ é folha de todos os orixás.

Funções fitoterápicas:
Em conformidade com Verger (1995), na cultura iorubana, ọgbọ́ possui princípios fitoterápicos capazes de curar a diabetes; no entanto, não encontramos nenhuma outra literatura médica que mostrasse resultados de pesquisas que comprovassem as funções indicadas em Verger.

Referências:
BARROS, José Flávio Pessoa de e NAPOLEÃO. Ewé òrìṣà: uso litúrgico e terapêutico dos vegetais nas casas de candomblé jeje-nagô. 5.ed., Rio de Jeneiro: Bertrand Brasil, 2011.
VERGER, Pierre Fatumbi. Ewe: o uso das plantas na sociedade ioruba. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
FONTE DA IMAGEM: Arquivo de imagens do Àse Ojú Oòrùn - Caetité - Bahia.

sexta-feira, 16 de março de 2018

PRONOMES PESSOAIS OBLÍQUOS DA LÍNGUA YORÙBÁ


Por Thonny Hawany

Os pronomes pessoais oblíquos, também chamados de pronomes objetos, são palavras utilizadas para substituir substantivos próprios e/ou comuns que tenham, na frase, a função de objeto.

A língua yorùbá não é diferente das demais línguas do planeta com relação aos principais elementos sintáticos. Na frase em yorùbá, há sujeito, há predicado, há objeto, há adjuntos adnominais, há adjuntos adverbiais, entre outros, sobre os quais trataremos oportunamente.

Nesta matéria, para falar sobre os pronomes oblíquos (pronomes objetos), é necessário antes relembrar, minimamente, as lições de sintaxe que versam sobre os complementos verbais (objetos). Como se sabe, o objeto é o elemento sintático que complementa o sentido de um verbo. O objeto pode ser expresso por um substantivo ou por um pronome com função substantiva. Neste caso específico, veremos quando o objeto é consignado na frase por meio de um pronome oblíquo.

Para facilitar o entendimento dos pronomes oblíquos (pronomes objetos), a seguir, apresentaremos um quadro em que estarão os pronomes pessoais do caso reto (pronomes sujeitos), em português e em yorùbá,  aliados aos seus respectivos pronomes pessoais do caso oblíquo (pronomes objetos):


Pronomes retos em português
Pronomes pessoas ênfase
Pronomes pessoas (síncope)
Pronomes objetos (oblíquos)
Singular
Eu
Èmi
Mo
Mi
Tu/Você
Ìwọ
O
ou
Ele/Ela
Òun
Ò
Repetição final da vogal do verbo
Plural
Nós
Àwa
A
Wa
Vós
Ẹyin
Yín
Eles/Vocês
Àwon
Wọn
Wọn

Em língua yorùbá, os pronomes pessoais oblíquos substituem nomes com função sintática de objeto numa frase, assim como os pronomes pessoais retos substituem os nomes com função de sujeito.

Uma frase é composta, na ordem direta, por SUJEITO + VERBO + COMPLEMENTO VERBAL, ou seja: SUJEITO + VERBO + OBJETO. Assim sendo vamos aos exemplos:

I. Primeira pessoa do singular utilizando o pronome mi com função oblíqua:

Yorùbá
Português
Bábá mi yíò fún mi ẹ̀bùn.
Meu pai me dará um presente.

bàbá: pai
mi: meu
yíò: partícula utilizada para fazer o futuro verbal.
fún: dará
mi: me
ẹ̀bùn: presente

II. Segunda pessoa do singular utilizando as formas pronominais “” e “”:

Yorùbá
Português
Mo wò ọ. Mo wò ẹ.
Eu vejo você.

mo: eu
: vejo
: você
: você

Como vimos no quadro acima, há duas formas de fazer a segunda pessoa do singular com pronomes oblíquos. Pode-se empregar as formas “” ou “”.

III. Terceira pessoa do singular utilizando a repetição da vogal final dos verbos:

Yorùbá
Português
Ìyá mi kí olùkọ́.
Ìyá mi í.
Minha mãe cumprimenta o professor.
Minha mãe o cumprimenta.

ìyá: mãe
mi: minha
: cumprimenta
olùkọ́: professor
í: o

A terceira pessoa do singular do pronome oblíquo, em língua yorùbá, é feita com a repetição da vogal final dos verbos. Veja a expressão em negrito na frase acima: "kí í".

IV. Primeira pessoa do plural utilizando o pronome oblíquo “wa”:

Yorùbá
Português
Awokunle kí wa.
Awokunle nos cumprimenta.

Awokunle: nome próprio masculino
: cumprimenta
wa: nos

V. Segunda pessoa do plural utilizando o pronome oblíquo “yín”:

Yorùbá
Português
A fẹ́ràn yín.
Nós vos amamos.

a: nós
fẹ́rán: amamos
yín: vos

VI. Terceira pessoa do plural utilizando o pronome oblíquo “wọn”:

Yorùbá
Português
Abayomi fẹ́ràn wọn.
Abayomi os ama.

Abayomi: nome próprio feminino.
fẹ́ràn: ama
wọn: os/as

Os pronomes pessoais do caso oblíquo da língua yorùbá (pronomes objetos) variam apenas em número, visto que o gênero, no caso dessa língua, é dado pelo contexto da frase.

E assim concluímos a nossa proposta de apresentar uma reflexão sobre os pronomes oblíquos em língua yorúbà, esperando ter contribuído com o nosso leitor que anseia por saber mais sobre essa tão importante língua.

Em tempo: A discussão sobre os pronomes pessoais oblíquos em língua yorùbá não se esgota por aqui. Oportunamente, voltaremos com outras discussões que possam dar maior profundidade ao tema.

REFERÊNCIAS:
BENISTE, José. Dicionário yorùbá português. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2011.
FONSECA JÚNIOR, Eduardo. Dicionário yorùbá português. São Paulo: Civilização Brasileira, 1988.
PORTUGAL FILHO, Fernandez. Guia prático de língua yorùbá. São Paulo: Madras, 2013.