sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Família Jì, Ìjì, Unjí, Kéréjègbé

 Texto escrito por Thonny Hawany


    A chamada Família Kéréjègbé, também conhecida, em algumas tradições, como Família Jì, Unjí ou Ìjì, reúne divindades associadas aos mistérios mais profundos da terra e da ancestralidade, bem como aos processos da vida e da morte, da doença e da cura, da transformação e da renovação.

Em diferentes terreiros de tradição yorùbá, essa família reúne Òrìṣà como Nàná, Ọbalúwáiyé ou Omolu, Òṣùmàrè, Yewá, Ọ̀sányìn e Ìrókò.

A composição dessa família, entretanto, pode variar de acordo com a nação, a linhagem e os fundamentos preservados em cada casa. Em algumas tradições, ela é constituída principalmente por Nàná, Ọbalúwáiyé, Òṣùmàrè e Yewá. Em outras, Ọ̀sányìn e Ìrókò também são integrados a esse núcleo, em razão de suas relações com a terra, as folhas, as árvores, a cura, o tempo e a ancestralidade.

Na tradição do Ojú Oòrùn, a Família Kéréjègbé é formada pelos seis Òrìṣà anteriormente mencionados: Nàná, Ọbalúwáiyé, Òṣùmàrè, Yewá, Ọ̀sányìn e Ìrókò.

Isso não significa, entretanto, que esses Òrìṣà não possam estabelecer relações com outras famílias ou outros agrupamentos sagrados. Ọ̀sányìn, por exemplo, pode aparecer ligado a Ògún e Ọ̀ṣọ́ọ̀sì, sobretudo por seus vínculos com as folhas, as matas, a caça, os caminhos e os conhecimentos relacionados à natureza. Do mesmo modo, Ìrókò pode ser associado a Ṣàngó em razão de determinadas narrativas, fundamentos e relações estabelecidas entre essas divindades.

No entendimento do Ojú Oòrùn, contudo, essas associações são consideradas secundárias e não alteram o pertencimento primordial de Ọ̀sányìn e Ìrókò à Família Kéréjègbé. Elas decorrem das múltiplas relações que os Òrìṣà estabelecem entre si, seja por parentesco mítico, afinidade de elementos e atribuições, compartilhamento de fundamentos ou pelos caminhos percorridos no Àiyé e no Ọ̀run.

Assim, pertencer a uma família sagrada não significa permanecer isolado em um núcleo fechado. Os Òrìṣà possuem histórias, caminhos e campos de atuação que se encontram e se entrelaçam. Essas aproximações ampliam a compreensão de suas trajetórias, mas não necessariamente modificam sua origem ou seu pertencimento familiar dentro dos fundamentos preservados em cada comunidade de Àṣẹ.

Por que são considerados uma família?

No Ojú Oòrùn, entende-se que a palavra “família”, nesse contexto, não deve ser compreendida somente em seu sentido biológico ou genealógico. Trata-se de uma família mítico-ritual, formada por divindades cujos poderes, histórias, elementos naturais, campos de atuação e funções sagradas se complementam.

Quando se fala em família, é natural que as pessoas procurem identificar relações diretas de parentesco entre os Òrìṣà. Entretanto, esse aspecto nem sempre é o mais importante. Há, por exemplo, narrativas que estabelecem uma genealogia mítica direta entre Nàná, Ọbalúwáiyé e Òṣùmàrè. O mesmo parentesco, porém, não aparece de maneira uniforme em todas as narrativas relativas a Yewá, Ọ̀sányìn e Ìrókò.

É preciso compreender, portanto, que o conceito de família, nesses casos, transcende as relações de consanguinidade e alcança uma dimensão mais ampla, que pode ser denominada de parentesco biomítico. Os Òrìṣà podem pertencer a uma mesma família em razão de laços de consanguinidade consaguíneo, mas também podem compô-la por compartilharem vínculos biomíticos, elementos da natureza, campos de atuação, fundamentos e agências sagradas.

Em determinadas narrativas afrodiaspóricas, Nàná é apresentada como a grande mãe de Ọbalúwáiyé e Òṣùmàrè. Algumas tradições narram que Ọbalúwáiyé formou par com Yewá; outras contam que foi Òṣùmàrè quem se uniu a ela, compartilhando os mistérios do firmamento. Há ainda narrativas segundo as quais Yewá seria irmã de Ọbalúwáiyé e Òṣùmàrè e, portanto, também filha de Nàná.

Mais importante do que determinar qual dessas narrativas estaria certa ou errada é reconhecer que elas expressam diferentes memórias, linhagens e fundamentos religiosos. As tradições afrodiaspóricas não estão organizadas a partir de uma narrativa única, imutável e universal. Cada comunidade de Àṣẹ guarda, interpreta e transmite os conhecimentos recebidos de seus antepassados.

Nas fontes orais e nos fundamentos preservados pelo Ojú Oòrùn, Nàná, Ọbalúwáiyé, Òṣùmàrè, Yewá, Ọ̀sányìn e Ìrókò são compreendidos como divindades pertencentes ao mesmo complexo mítico-ritual. Algumas são apresentadas como descendentes de Nàná; outras se integram à família por compartilharem os mistérios da terra, das águas, da vegetação, da cura, da ancestralidade, do tempo, da vida e da morte.

Para a tradição do Ojú Oòrùn, Ìrókò integra a Família Kéréjègbé por representar a árvore sagrada, o tempo ancestral e a ligação entre a terra e o mundo invisível. Suas raízes penetram profundamente o solo, enquanto seus galhos se elevam em direção ao céu. Ele estabelece, assim, uma comunicação simbólica entre o Àiyé e o Ọ̀run.

Cabe reforçar que a Família Kéréjègbé reúne forças e agências que participam de um mesmo universo biomítico: a terra que nos alimenta; as águas que geram e fecundam; as folhas que curam; o tempo que transforma; a doença que modifica o corpo; a morte que o devolve à terra; e a renovação que permite à vida recomeçar.

No Candomblé brasileiro e, particularmente, na tradição preservada pelo Ojú Oòrùn, os nomes Jì, Ìjì, Unjí e Kéréjègbé, empregados para denominar esse panteão de Òrìṣà, expressam conhecimentos herdados do encontro entre diferentes matrizes afrodiaspóricas, especialmente aquelas trazidas pelos povos yorùbá-nagô e jeje-fon.

Essas divindades, cultuadas nas casas de Kétu, guardam relações profundas com divindades originárias de diferentes territórios da África Ocidental, especialmente do antigo Daomé, atual República do Benim. Entre essas correspondências e aproximações, encontram-se Nàná Buruku, Ṣànpọ̀nná ou Sakpatá, Dan ou Bessém, Loko e Agué. Essas relações evidenciam os encontros, as reelaborações e as continuidades religiosas produzidas na diáspora africana (Lima, 2015).

O que une todas essas divindades?

A Família Kéréjègbé está unida por grandes fundamentos: a terra como origem, morada e destino; as águas antigas e a lama primordial; as folhas e os conhecimentos de cura; a doença como força de transformação; a cura como recomposição do equilíbrio; o tempo e a ancestralidade; a morte não como desaparecimento absoluto, mas como passagem; e a renovação permanente da existência.

Essa família também é conhecida como Família da Palha. A palha aparece especialmente nas vestes e insígnias de Ọbalúwáiyé, mas seu significado alcança toda a família. Ela nasce da terra, protege, encobre o mistério e marca a relação entre a vegetação, o corpo, a doença, a morte e a renovação. Consta-se também que a palha está nos símbolos e nas vestimentas dos demais Òrìsà ligados a essa família.

Em síntese, a Família Jì, Ìjì, Unjí, Kéréjègbé ou Família da Palha guarda os grandes mistérios do existir. Nàná oferece a matéria primordial; Ọbalúwáiyé governa as transformações do corpo; Ọ̀sányìn revela a cura por meio das folhas; Òṣùmàrè mantém o movimento e a continuidade; Yewá guarda as passagens, as transformações e os segredos; e Ìrókò sustenta o tempo e a memória ancestral.

Conforme entende o povo do Ojú Oòrùn, a Família Kéréjègbé, embora seja formada por divindades diferentes e nem sempre vinculadas pelo mesmo parentesco mítico, reúne poderes que atuam na construção de um ensinamento comum: tudo nasce da terra, tudo se transforma e tudo retorna a ela para que a vida possa novamente florescer.

São Òrìṣà que participam tanto da constituição singular dos seres quanto do retorno desses mesmos seres ao todo ancestral. Por isso, seus fundamentos atravessam o nascimento, o desenvolvimento, a saúde, a doença, o envelhecimento, a morte e a renovação da existência.

Por que Ọbalúwáiyé e sua família são celebrados no mês de agosto?

A associação de determinados Òrìṣà a meses específicos do calendário não ocorre apenas com Ọbalúwáiyé e sua família, celebrados em agosto. Em muitas comunidades de Candomblé, outros Òrìṣà também são festejados em períodos específicos do ano. É o caso de Ọya, celebrada em dezembro em razão de sua aproximação histórica com Santa Bárbara, cujo dia é comemorado em 4 de dezembro.

Essa organização do calendário religioso brasileiro foi influenciada pelo processo histórico de aproximação, assimilação e sincretismo entre os Òrìṣà e os santos católicos. Em diferentes regiões e tradições, Ọbalúwáiyé ou Omolu foi associado principalmente a São Lázaro e a São Roque. Como a celebração católica de São Roque ocorre em 16 de agosto, muitas casas passaram a dedicar esse mês a Ọbalúwáiyé e, por extensão, aos demais integrantes de sua família.

Essa correspondência não é uniforme. Dependendo da região, da nação e da linhagem religiosa, Ọbalúwáiyé pode ser relacionado mais diretamente a São Lázaro, a São Roque ou a ambos. Da mesma maneira, as datas e formas de celebração variam de uma comunidade para outra.

A permanência dessas celebrações em agosto pode ser compreendida como uma continuidade histórica das estratégias de preservação utilizadas pelas comunidades negras. Embora o sincretismo já não seja necessário como forma de ocultação do culto, suas marcas permanecem no calendário, nas festas, nas cantigas, nas imagens e na memória religiosa de muitas comunidades.

Durante a escravidão e em outros períodos de perseguição às religiões de matriz africana, a aproximação entre Òrìṣà e santos católicos funcionou como uma estratégia de proteção. Diante da violência colonial e da imposição do catolicismo, africanos e seus descendentes recorreram a linguagens, imagens e celebrações católicas para preservar, reorganizar e transmitir seus conhecimentos religiosos.

Isso não significa que os Òrìṣà sejam santos católicos ou que ambos possuam a mesma natureza. O sincretismo deve ser compreendido como um fenômeno histórico e cultural produzido em condições específicas de dominação, resistência e negociação. Por meio dessas estratégias, muitos conhecimentos sagrados trazidos por nossos ancestrais africanos e reconstruídos na diáspora conseguiram atravessar gerações e chegar até os dias atuais.

Assim, celebrar Ọbalúwáiyé e a Família Kéréjègbé no mês de agosto não constitui apenas uma permanência do calendário sincrético. Para o Ojú Oòrùn, é também uma oportunidade de reverenciar a terra, agradecer pela vida, pedir saúde e cura, honrar a ancestralidade e refletir sobre os mistérios da transformação e da renovação.

Referências

LIMA, Alexandre Mantovani de. Memórias e identidades de um terreiro de Candomblé: Ilé Ògún Anaeji Ìgbele Ni Oman – Àṣẹ Pantanal: a Nação Efon em Duque de Caxias – RJ. 2015. 232 f. Dissertação (Mestrado em Ciências da Religião) — Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2015. Disponível em: https://tede2.pucsp.br/handle/handle/1944. Acesso em: 7 ago. 2026.

PRESENDE, Marideise Silva. Kiuá: raízes da ancestralidade africana. 2024. 180 f. Dissertação (Mestrado Profissional em Ensino e Relações Étnico-Raciais) — Universidade Federal do Sul da Bahia, Campus Sosígenes Costa, Porto Seguro, 2024. Disponível em: https://sigconteudo.ufsb.edu.br/arquivos/2024091153d7fb10335097b353c102ec7/Dissertacao_de_mestrado_28_03_24_assinado.pdf. Acesso em: 7 ago. 2026.

Nota sobre o uso de inteligência artificial

O conteúdo deste texto parte dos conhecimentos religiosos, das experiências e dos fundamentos preservados pelo Ilé Àṣẹ Ojú Oòrùn, sob a orientação de Bàbá Thonny Hawany. A ferramenta ChatGPT, desenvolvida pela OpenAI, foi utilizada como recurso auxiliar na organização das ideias, na revisão linguística e no aprimoramento da redação. Todas as informações foram posteriormente examinadas, corrigidas e validadas pelo autor, que assume integral responsabilidade pela versão final.

 

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Má bínú: como falar desculpa em língua iorubá

 Por Thonny Hawany


Você sabe como pedir desculpa em língua iorubá?


É importante compreender que, na cultura iorubá, o simples ato de pedir desculpas vai muito além da pronúncia de uma palavra isolada. Trata-se de um gesto carregado de ética, dignidade e compromisso com as relações sociais e comunitárias. Pedir desculpas é, antes de tudo, um ato de restauração da harmonia. A forma mais comum e direta utilizada para pedir desculpas é:

“Má bínú”
Literalmente: “não fique com raiva”.

Essa expressão é empregada quando alguém reconhece que causou incômodo, dor ou cometeu um erro e deseja apaziguar os ânimos da pessoa possivelmente ofendida.

Exemplo:
Má bínú, mi ò mọ̀ pé mo ṣe ẹ́ lójú.
Tradução: Desculpa, eu não sabia que te magoei.

Há também uma expressão bastante utilizada, especialmente quando se deseja enfatizar o pedido de perdão:

“Ẹ jọ̀ọ́, dárí jì mí”
Tradução: “por favor, perdoe-me”.

Nesse caso, o verbo dárí jì significa perdoar, absolver, liberar o outro da ofensa.

Exemplo:
Ẹ jọ̀ọ́, dárí jì mí fún ohun tí mo ṣe.
Tradução: Por favor, perdoe-me pelo que fiz.

Em contextos mais formais ou respeitosos — sobretudo diante de pessoas mais velhas ou hierarquicamente superiores — utiliza-se:

“Ẹ má bínú”

O uso do pronome Ẹ marca o respeito. Isso demonstra que, no yorùbá, o pedido de desculpas está intrinsecamente ligado à hierarquia, ao reconhecimento do outro e à manutenção da harmonia social.

Culturalmente, pedir desculpas implica reconhecer que o equilíbrio foi rompido. Esse equilíbrio está profundamente relacionado ao princípio de ìwà pẹ̀lẹ́ — a conduta suave, equilibrada e ética. Quando alguém pede desculpas, reconhece que se afastou momentaneamente desse ideal.

Por isso, muitas vezes o pedido não se limita às palavras: ele pode vir acompanhado de gestos corporais, de uma postura humilde, de silêncio respeitoso e, em situações mais graves, até de oferendas simbólicas ou rituais de reparação.

Desse modo, em iorubá, pedir desculpas não é apenas “dizer”, mas restabelecer o àṣẹ da relação, curar o vínculo e demonstrar bom caráter — aquilo que os yorùbás chamam de ìwà rere (bom caráter).

Referencial:

BENISTE, José. Dicionário yorubá português. 6.ed. Rio de Janeiro: Bertrand, 2021.

sexta-feira, 19 de setembro de 2025

VOCÊ SABE COMO DIZER “OBRIGADO(A)” EM LÍNGUA YORUBÁ?


Você sabe como dizer “OBRIGADO(A)” em Língua Yorubá?

A palavra “obrigado” — no caso dos homens — e “obrigada” — no caso das mulheres — está entre as expressões indispensáveis para o diálogo e a boa convivência em sociedade.

Quando alguém lhe fizer um favor ou realizar alguma ação que mereça seu agradecimento, diga: “Mo dúpẹ́!”. É assim que dizemos obrigado(a) em língua yorubá.

Vamos ver como cada pessoa do discurso pode expressar agradecimento em yorubá?

  • Mo dúpẹ́! – Eu agradeço!
  • O dúpẹ́! – Você agradece!
  • Ó dúpẹ́! – Ele/Ela agradece!
  • A dúpẹ́! – Nós agradecemos!
  • Ẹ dúpẹ́! – Vocês agradecem!
  • Wọ́n dúpẹ́! – Eles/Elas agradecem!

Como vimos, as expressões mo, o, ó, a, ẹ, wọ́n correspondem aos pronomes pessoais da língua portuguesa: eu, você (ou tu), ele/ela, nós, vocês (ou vós) e eles/elas. Já a palavra dúpẹ́ corresponde ao verbo “agradecer”.

Viu como não é difícil agradecer em língua yorubá?

A partir de agora, experimente usar essa expressão em sua comunidade tradicional. Sempre que alguém fizer algo por você, diga com alegria: “Mo dúpẹ́!” — que quer dizer eu agradeço, ou simplesmente, obrigado(a).

Referencial:

BENISTE, José. Dicionário português yorubá. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2021.

BENISTE, José. Dicionário yorubá português. 2.ed., Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2014

 

terça-feira, 20 de agosto de 2024

Ìbúra Obì (kàro)

 Por Thonny Hawany



O ìbúra obì[1] (kàro)[2] é um dos mais importantes atos no processo de iniciação e de confirmação no Candomblé. O noviciado, antes de passar pelos atos principais da iniciação/confirmação, faz o juramento perante o obì.

Sem revelar os segredos do culto, tentarei falar sobre o assunto explicando apenas o que pode ser do conhecimento de todos. O kàro é o ato pelo qual o bàbálórìṣà ou ìyálòrìṣá leva o noviciado a fazer um juramento de fidelidade ao àṣẹ[3] e a tudo que a ele está ligado direta e indiretamente.­­­­­­­

Há muitas formas de fazer esse ato, cada família tem a sua metodologia, mas quase sempre o ato gira em torno do compromisso que o(a) futuro(a) filho(a) assume com o seu sacerdote, com a sua nova família de àṣẹ e com o sagrado.

Tudo funciona assim: depois das necessárias explicações sobre o ato, o sacerdote ou sacerdotisa faz uma série de perguntas que devem ser respondidas pelo(a) noviciado, segundo o exemplo a seguir:

Sacerdote(isa): Você promete ser fiel ao seu òrìṣà[4]?

Noviciado(a): Sim, eu prometo!

Sacerdote(isa): Você promete ser fiel à sua família de àṣẹ?

Noviciado(a): Sim, eu prometo!

Sacerdote(isa): Você promete ser fiel ao(à) seu(sua) sacerdote(isa)?

Noviciado(a): Sim, eu prometo!

Sacerdote(isa): Você promete aprender e ser fiel aos ensinamentos da família de àṣẹ?

Noviciado(a): Sim, eu prometo!

Sacerdote(isa): Você promete guardar os segredos da religião, protegendo-os das pessoas leigas e de má-fé?

Noviciado(a): Sim, eu prometo!

Sacerdote(isa): Você promete zelar pelo bem estar físico, moral, psicológico e espiritual da sua comunidade de àṣẹ?

Noviciado(a): Sim, eu prometo!

Nesses mais de trinta anos de sacerdócio, eu nunca ouvi um único NÃO durante o ìbúra obì. Todos disseram SIM a todas as perguntas que lhe foram feitas.

Esse juramento é para sempre, não importa o que vem depois, o juramento precisa ser mais forte que qualquer coisa que aconteça na sua trajetória como homem ou mulher de àṣẹ. O ìbúra obì precisa ser mais forte que os vícios morais (a fofoca, a mentira, a discórdia, a indisciplina, a inveja, o ciúme, o exagero, o descontrole, entre outros).

Excetuando os casos extremosos em que não é possível continuar num terreiro de Candomblé, tais como: a) a descontinuidade do Ilé Àṣẹ[5] por motivo de falecimento do(a) sacerdote(isa) ou em face da desistência do sacerdócio e b) a prática de atos ilícitos por parte do(a) sacerdote(isa) ou de pessoa da alta hierarquia com a conivência desse(a), a exemplo dos assédios, quer sejam morais, quer sejam sexuais, não existem motivos que justifiquem a quebra do ìbúra obì.

Essa efemeridade da permanência nas casas de Candomblé por parte dos filhos e filhas de santo tem se tornando uma constante em quase todos os lugares. Para certificar-se do fenômeno, basta um olhar nas redes sociais dos terreiros e das pessoas a eles ligadas.

Diversos são os motivos dos desligamentos, quase sempre, precoces.  A falta de habilidade e competência administrativa por parte do(a) sacerdote(isa) e a fragilidade das relações sociais, quase sempre baseadas em desonestidade, desrespeito, irresponsabilidade, falta de tolerância e de humildade, têm sido os principais vilões do ìbúra obì.

Nenhum juramento se mantém inquebrável se os membros da comunidade não estiverem prontos para viver e aprender a viver em uma sociedade baseada nos valores humanos da honestidade, do respeito ao outro e ao que é do outro, da responsabilidade que tem sobre si e sobre o outro, da tolerância ao novo e ao diferente e, acima de tudo, da humildade para reconhecer os próprios erros e para entender que pode e deve ser melhor a cada dia.

Em face de tudo, entendo que o ìbúra obì deve ser seguido de importantes lições sobre respeitar as pessoas, as regras, os direitos e as diferenças existentes no terreiro. É preciso praticar a gentileza, saber ouvir o que é importante para a vida, conversar com as outras pessoas de modo gentil e respeitoso, cuidar da sua própria vida e deixar de lado a vido do outro, nunca usar palavras de agravo ou dizer coisas que podem magoar pessoas, aceitar os próprios erros, as limitações entendendo que pode corrigir tudo para ser melhor e, sobretudo, ser cooperativo nas ações da ẹgbẹ́[6].

Por fim, deixo uma dica para você que está procurando uma casa de Candomblé: visite o máximo possível de casas; procure conhecer as pessoas que estão na administração das comunidades e as demais pessoas que frequentam o lugar; conheça a índole, o trato ético e moral de cada um(a); veja se tudo está de acordo com o que você espera da religião e das pessoas e, quando escolher a sua nova família religiosa, faça de modo permanente o seguinte exercício: compare o que você almeja com o que a família pode lhe oferecer e de que maneira você pode contribuir para que tudo se consolide num ato final de PAZ e de HARMONIA.



[1] . Ìbúra = juramento, obì = noz de cola (fruto africano).

[2] . Kàro é o mesmo que juramento perante o obì.

[3] . Essência divina, força, poder, o elemento que estrutura uma sociedade, lei, ordem; o mesmo que axé.

[4] .  O mesmo que orixá.

[5] . Casa de Candomblé – Nação kétu – o mesmo que templo.

[6] . Sociedade, associação, clube, partido.

segunda-feira, 10 de junho de 2024

Àwọn Ewé: folhas (II)

Episódio 02: Sàsányìn: ensinar para não perder

É perceptível no Candomblé moderno que as pessoas têm valorizado as práticas mais voláteis em detrimento dos velhos fundamentos perpassados de geração em geração pela memória dos mais velhos. Vê-se mais cuidado com o que vai vestir e usar no pescoço que com os ritos essenciais, a exemplo das folhas.

Em face das imagens nas redes sociais, vemos que boa parte da comunidade candomblecista tem investido mais na aparência e menos na essência. Exibem suas belas vestes bordadas a à guipure, a richelieu e a entremeios, acreditando que, com isso, está fazendo Candomblé raiz.

As vestimentas e as pedrarias são também importantes, mas não constituem a base das religiões de matrizes africanas. Òrìṣà é natureza e é dela que tiramos toda a essência para encantar, louvar e perpetuar o sagrado nas casas de Candomblé.

Com ao cards seguintes chamamos a atenção da comunidade para a Sàsányìn que constitui, a nosso ver, a principal para a religião dos Òrìṣà. Se não registrarmos (letra e voz) e não ensinarmos o valor ritualístico das folhas e também suas propriedades fitoterápicas, teremos num futuro próximo uma vertente goumetizada e artificial do que hoje conhecemos como Candomblé.

 








As imagens pertencem ao acervo particular do Ilé Àṣẹ Ojú Oòrùn – Caetité – Bahia.

Os cards foram originalmente publicados no Instagram da Comunidade Ojú Oòrùn - @ojuoorun. Siga, curta e compartilhe. 

 

 

 



domingo, 9 de junho de 2024

Àwọn Ewé: folhas (I)

Episódio 01: Natureza & Ancestralidade

Este material foi organizado pelo bàbálórìṣà Thonny Hawany para ensinar sobre a importância das folhas como elemento ritualístico e fitoterápico dentro de sua comunidade tradicional afro-brasileira – Ilé Àṣẹ Ojú Oòrùn – localizada no município de Caetité – Estado da Bahia.

O primeiro episódio apresenta um resumo sobre a importância das folhas como elemento ritualístico e também fitoterápico.

Muitos ritos do Candomblé estão relacionados com as folhas e com os poderes ritualísticos que cada uma exerce sobre as entidades e também sobre as pessoas. Dai dizer que sem folha não há òrìsà: kò sí ewé, kò sí Òrìṣà!”

Os cards a seguir apresentados não têm como objetivo tratar das folhas de modo aprofundado, pretende-se com esse material chamar o leitor para uma importante reflexão: o poder das folhas dentro e fora das religiões de matriz africana. O que aprender? Como aprender? Por que aprender? Quando aprendee? Onde aprender? Essas são provocações apresentadas pela série Àwọn Ewé. Não perca os próximos episódios. 








As imagens pertencem ao acervo particular do Ilé Àṣẹ Ojú Oòrùn – Caetité – Bahia.

Os cards foram originalmente publicados no Instagram da Comunidade Ojú Oòrùn - @ojuoorun. Siga, curta e compartilhe. 


quinta-feira, 9 de novembro de 2023

A LEMBRANÇA

Por Thonny Hawany




 

Por que és tão indiferente?

que não me enxergas,

que não me tocas,

que não me queres,

que só me ilude...

 

Por que insiste na indiferença,

se no perfume impregnado nas flores

persiste a lembrança do teu cheiro?

 

Por que teima na indiferença,

se o vento que toca a minha face

eterniza o teu beijo suave e doce?

 

Por que reitera a indiferença,

se até na luz das estrelas, em mim

espelha o brilho dos teus olhos?

 

Se sigo, sigo assim: sentindo                 

o teu calor no calor do sol,

o teu corpo molhado no molhado da chuva,

o teu castigo no castigo do açoite,

a tua indiferença na LEMBRANÇA do silêncio.

 

Se sigo, sigo assim: a reclamar

da saudade que maltrata,

da paixão que assola,

da LEMBRANÇA que dói

do esquecimento que evoca.

 

Se sigo, sigo assim: a eternizar

a dor que não dói...

a morte que não mata...

o amor que não ama...

a vida que não vivo...

a LEMBRANÇA insistente

apesar da indiferença...


*Essa poesia foi originalmente escrita por mim na cidade de Caetité / Bahia, em 23 de junho de 1989.

AUTOQUÍRIA

Por Thonny Hawany



[...] Ainda chove lá fora!

E EU, dentro de mim, só saudades...

Quase sinto:

as lágrimas que plangem cadentes,

e que correm amarelas em leito,

amalgamadas ao rubro da INCERTEZA.

A DEPRESSÃO!...


[...] Ainda chove lá fora!

E EU, na janela, só expectativas...

Quase vejo:

um homem que passa solitário,

desviando-se do choro

e dos raios que riscam os ares,

na certeza de luzir a cegueira do TEMPO.

A ANSIEDADE!...

 

[...] Ainda chove lá fora!

E EU, quase fora de mim...

Quase ouço:

os bramidos não ecoados,

os gritos não gritados

e as notas atormentadas das VOZES.

O ATO!...

 

[...] Ainda chove lá fora!...

E eu, em frente de mim...

sem

as lágrimas plangentes,

sem

o homem esquivando-se do choro

sem

os bramidos e os gritos não gritados

O SILÊNCIO!...