quinta-feira, 9 de junho de 2022

HUNBE FÚN ÌYÀWO - CARTILHA DO ÌYÀWO

Por Tonny awany


PRELIMINARMENTE

Iniciamos este texto afirmando que nem de longe passou em nossa cabeça a pretensão de universalizar as regras para os(as) ìyàwo e obrigacionados(as) do Candomblé. Sabemos da existência de diferentes nações e distintas famílias com inúmeras ramificações e que cada uma tem a sua forma de ser, de fazer, de existir, de conviver e de se (re)significar.

A ampla diversidade social, cultural, política e religiosa no Candomblé é o que o torna único e isso será integralmente respeitado nesta nossa proposta de iluminar a nova vida dos(as) noviciados(as) do Candomblé, seja ele ou ela de qual família for.

De igual modo, com esse trabalho, não queremos ensinar os bàbálórìṣà e as ìyálórìṣà como fazerem o seu trabalho em suas roças de Candomblé, mas auxiliá-los(as) nas lições que precisarão ensinar para que os(as) seus(suas) recém-iniciados possam se portar diante da nova vida para além do hunkọ́.

Nesta primeira parte, requer ainda falarmos um pouco sobre as escolhas que fizemos para estruturar o nosso texto: preferimos grafar as palavras em yorùbá tal qual são escritas nos dicionários especializados e sem a marca de plural que, nesta língua, é feita com a anteposição da palavra àwọn aos substantivos; contudo, a ideia de número será mantida no contexto por meio da pluralização dos adjuntos escritos em língua portuguesa.

Em resumo, queremos que o nosso trabalho sirva de base para iniciar uma discussão em torno da criação de uma consciência coletiva que se preocupe efetivamente em iniciar pessoas que sejam capazes de melhorar as condições atuais do Candomblé no Brasil, uns respeitando as diferenças dos outros, mas trabalhando todos na construção de um todo digno de respeito e confiança por parte dos de dentro e dos de fora.

INTRODUÇÃO

Quando estamos recolhidos para a iniciação, somos sempre guiados e acompanhados por nossa ìyájíbọ́na ou pelo nosso bàbájíbọ́na (mãe criadeira ou pai criador) e ainda por outras autoridades do Ilé Àṣẹ, as quais exercem importantes funções no processo iniciático. Tudo o que precisamos temos em nossas mãos. Aqueles ou aquelas que nos criam e nos iluminam estão sempre atentos às nossas necessidades. No lapso temporal de vinte e um dias, aprendemos a louvar os nossos òrìṣà, os òrìṣà dos nossos mais velhos e ancestres, o dia, a natureza, os títulos e cargos do Ilé Àṣẹ; aprendemos a rezar para sacralizar o alimento que comemos e a água que bebemos; aprendemos a falar as primeiras palavras em yorùbá e a dançar para o nosso òrìṣà.

Nos dias de reclusão, somos guiados(os) e orientados(as) a seguir uma rotina de ritos, ações e procedimentos inusitados até então em nossas vidas. Aos poucos, vamos percebendo que a iniciação no Candomblé, além de cheia de mistérios e de responsabilidades, transforma-nos em pessoas com hábitos diferentes daqueles que tínhamos antes de entrar no hunkọ́.  Apesar de tudo o que aprendemos nos vinte e um dia de recolhimento, ao sair e nos deparar com a vida fora do útero espiritual, percebemos que não somos mais os(as) mesmos(as) e que precisamos de um guia permanente para nos direcionar na nova vida que levaremos, agora, como homens e mulheres de àṣẹ.

Foi pensando nas necessidades e dificuldades de adaptação que tive ao me iniciar nos idos de 1985, nas necessidades dos(as) ìyàwo que iniciei e naqueles(as) tantos(as) outros(as) iniciados(as) em outras famílias que resolvi escrever este texto a que chamei de Hunbe fún Ìyàwo[1], uma luz na nova vida para além do hunkọ́, esperando suprir, se não todas, as principais dúvidas que todos tivemos, temos e teremos ao nos iniciar no Candomblé. 

CONCEITOS IMPORTANTES

Como optamos pela grafia das palavras em yorùbá da forma como são escritas para ensinar a língua dos òrìṣà enquanto discutimos outros assuntos, necessário se fez criar, logo no início, este capítulo em que apresentaremos alguns conceitos para ajudar na leitura do material e também para instigar reflexões a respeito de outras temáticas.

Os conceitos abaixo relacionados não esgotam os significados linguísticos das palavras e muito menos suas significações religiosas. Escolhemos explicar os vocábulos imprimindo conceitos elementares para alcançar a todos(as): os(as) de muita e os(as) de pouca formação acadêmica. Vamos então aos conceitos:

ÀṢẸ – Não considero que haja uma palavra em qualquer língua que traduza essa expressão com toda a sua essência e significado. Beniste (2014, p. 128) afirma que àṣẹ significa “força, poder, o elemento que estrutura uma sociedade, lei, ordem”. Para ser pedagógico, defino àṣẹ como signo que comporta em si a totalidade significativa da existência, é a energia primordial emanada do próprio núcleo criador, é o elemento que nos remete ao princípio da criação, que nos mantém íntegros no tempo presente e que nos impulsiona para um futuro seguro.

AṢÒGÚN – Nome que se dá a um dos sacerdotes de Ògún e que também é título dado à uma pessoa do sexo masculino responsável pelo abate dos animais na comunidade.

BÀBÁLÓRÌṢÀ – é o principal sacerdote do culto aos òrìṣà, é aquele que administra todos os ritos e sob o qual recai a maior responsabilidade pela manutenção do àṣẹ como essência divina.  

ÈÈWỌ̀ – é o mesmo que tabu, que proibição. As tradições afro-brasileiras são cheias de interditos que são ensinados de geração em geração. Há èèwọ̀ justificados nos ìtàn e outros apenas na tradição oral. Muitos desses èèwọ̀ nem são conhecidos pelos africanos nativos; contudo, as orientações dos nossos mais velhos é para que os respeitemos a fim de garantir a melhor relação com o nosso sagrado. Um èèwọ̀ é tudo aquilo que provoca ou produz uma energia contrária à energia do àṣẹ. As energias contrárias poderão ser desencadeadas por alimentos, lugares, situações diversas, comportamentos e atitudes e nas relações que temos com o nosso meio, quer seja ele físico, quer seja espiritual.

Ẹ̀GBỌ́N – é o mesmo que irmão mais velho ou irmã mais velha. Nas casas de Candomblé, a expressão passou a significar uma etapa na hierarquia dos terreiros. O(a) noviciado(a) ao completar seu ciclo de sete anos com sua obrigação arriada passará a ser um(a) ẹ̀gbọ́n e gozará de todas as regalias que a atual posição lhe oferece perante a comunidade.

ẸNÍ – é o mesmo que esteira, utensílio feito de palha. A ẹni é a cama do(a) ìyáwó e de todos(as) os(as) obrigacionados(as) do Candomblé. É na ẹni onde tudo começa, ela é a nossa primeira cama, o nosso primeiro assento, a ẹni é a nossa base, é o alicerce de tudo o que construiremos como homens e mulheres de àṣẹ.

HUNBE – Em sua obra Yorùbá: vocabulário temático do Candomblé, Jagun (2017, p. 1031) afirma que hunbe é o “compendio de procedimentos e protocolos de comportamento sociorreligioso ensinado aos(às) noviciados(as), conforme a tradição [...]”.

HUNKỌ́ – é o mesmo que camarinha, trata-se de um cômodo utilizado nas casas de candomblé para o recolhimento dos(as) obrigacionados(as).

ILÉ ÀṢẸ – Casa de Àṣẹ – Casa onde a essência divina se faz presente, terreiro, roça de Candomblé. Um Ilé Àṣẹ não se constitui só de paredes físicas, mas também de pedras e ferros por onde são veiculadas as energias ancestrais.

ÌTÀN – Os dicionários traduzem como mitos, contos e histórias, eu prefiro dizer que são verdades registradas na forma de narrativas, pelas quais a cultura yorùbá se justifica. São textos sagrados nos quais nos baseamos para aprender e ensinar, para educar e ser educado e, acima de tudo, para transformar e ser transformado.

ÌYÁJÍBỌ́NA – Trata-se de uma importante função feminina dentro do Candomblé que tem como principais atribuições zelar pelos(as) ìyàwo em iniciação e ensinar-lhes o hunbe, conjunto de regras procedimentais da liturgia afro-brasileira. Esta função possui sua correspondente masculina: bàbájíbóna.

ÌYÁLÓRÌṢÀ – é a principal sacerdotisa do culto aos òrìṣà, é aquela que administra todos os ritos e sob a qual recai a maior responsabilidade pela manutenção do àṣẹ como essência divina.

ÌYÀWO – Esposa. No Brasil a expressão passou a designar as pessoas iniciadas na Nação de Kétu. Uma pessoa é considerada ìyàwo desde sua iniciação até o momento em que completa sete anos com todas as obrigações cumpridas, momento em que passa a ser chamado(a) de ẹ̀gbọ́n.

KÉLÉ – Colar de sete fios feito de miçangas da cor do òrìṣà do(a) obrigacionado(a), separados por firmas. O(A) noviciado(a) ou obrigacionado(a) usa o kélé na iniciação e nas obrigações de três, sete, quatorze e vinte e um anos.

KÉTU – Trata-se de uma importante cidade do antigo território yorùbá que, com posteriores demarcações de terras e divisões de fronteiras, passou a pertencer ao antigo Dahomé, hoje conhecido como Benin. No Brasil, a expressão é utilizada para designar uma das mais importantes vertentes do Candomblé, aquela oriunda da cultura do povo yorùbá.

OLÓDÙMARÈ – Senhor Deus Criador de todas as coisas. Aquele que é imutável como senhor do poder. O mesmo que Ọlọ́run: Senhor do Céu.

PANÀ – As obrigações dos(as) recém-iniciados(as) nas casas de Candomblé de Kétu, geralmente, são finalizadas com o panà que significa literalmente: terminar o castigo, ou seja: finalizar as restrições impostas por conta das obrigações para retornar ao convívio social: família, escola, trabalho, entre outros. O panà consiste no ato de submeter o(a) ìyàwo, por simulação, à objetos, ações e atitudes que terá de lidar a partir do momento que retornar ao convívio social. De acordo com o que indicar o òrìṣà e as autoridades presentes no ato, o(a) noviciado(a) carregará consigo por tempo (in)determinado algumas restrições conforme as que apresentaremos neste material.

ṢIRÉ – Embora os dicionários de língua yorùbá traduzam essa palavra como brincar, no Brasil, ela ganhou uma significação mais ampla e passou a significar a primeira parte do culto onde se canta para todos os òrìṣà na maioria dos Ilé Àṣẹ e a totalidade da celebração a um ou a todos os òrìṣà em diversas casas de Candomblé. Segundo Jagun (2017, p. 1211), é uma “cerimônia pública de Candomblé quando toda a comunidade se reúne para louvar as divindades através de cânticos e danças, ao som dos instrumentos de percussão”.

YORÙBÁ – Segundo Verger (2002, p.11), a expressão yorùbá “aplica-se a um grupo linguístico de vários milhares de indivíduos.” Para Beniste (2014, p. 816), essa é uma “denominação generalizada de um povo que habita a atual região africana da Nigéria” e que se estende para países vizinhos em face das modernas delimitações de fronteiras. Em síntese, a expressão yorùbá tanto significa o nome de um povo, quanto a sua língua.

OS ÈÈWỌ̀

No decorrer dos vinte e um dia de recolhimento para a iniciação, o(a) ìyàwo é submetido(a) a muitas provas e restrições para que, experimentando uma vida de resignação e humildade, esteja preparado(a) para receber o sagrado em si.

Apoiados na experiência e nas palavras de Beniste (2002), afirmamos que algumas das restrições impostas por ocasião da iniciação são atenuadas no panà, outras ficam por mais tempo e há aquelas que permanecerão por toda a vida.

Essas limitações, por imposição humana ou do sagrado, ao longo da iniciação, acabam se transformando nos èèwọ̀. Alguns seres e objetos “podem ser vetores de influências eventualmente negativas” (COSSARD, 2014, p. 177) para os recém-iniciados no Candomblé. Eu diria mais: há èèwọ̀ para além dos seres e coisas. Para facilitar o entendimento, os èèwọ̀ serão, a seguir, divididos em oito categorias de acordo com a natureza de cada um: alimento, lugar, tempo, drogas, objeto, ação, sentimento e fenômenos da natureza.

Temos plena consciência que a lista dos èèwọ̀ proposta a seguir não representará a totalidade deles, cada Ilé Àṣẹ possui sua própria compreensão sobre os èèwọ̀, bem como o entendimento a respeito das regras para determinar o que é èèwọ̀ e quanto tempo cada èèwọ̀ deve ser resguardado pelo(a) noviciado(a).

Há èèwọ̀ determinado pelo próprio sagrado e aí não há como estimar um tempo, às vezes, um èèwọ̀ pode durar a vida toda. Conheço pessoas iniciadas há muitos anos que tentam comer coisas que antes da iniciação comiam e que depois passaram a lhes fazer mal causando sintomas adversos inexplicáveis.

Os èèwọ̀ poderão ser revistos e reavaliados mediante consulta ao sagrado por meio do oráculo. Devemos ter consciência que o òrìṣà é dinâmico e como tal é energia inteligente capaz de compreender as necessidades contemporâneas de seus filhos e filhas.

É possível que nem tudo o que consideramos èèwọ̀ o seja de verdade. Sobre a afirmação feita acima, registramos o seguinte: considerando que lidar com lugares, situações e objetos fúnebres constitui um “terrível èèwọ̀”, pergunto: coveiros e funcionários de funerárias nunca poderão ser iniciados no Candomblé ou deverão sair de seus empregos para serem iniciados? Se respondermos afirmativamente, corremos o risco de colocar anos de tradição por terra; contudo, se dissermos não, corremos o risco de elevar o Candomblé à condição de religião que segrega pessoas em face de sua profissão. Vejamos o que diz a história: “muito tempo atrás, os túmulos dos iorubá eram cavados dentro de casa, em quartos destinados a esse fim.” (ALMEIDA, 2006, p. 86) e isso era feito para que a família pudesse ficar próxima dos seus ancestrais, fato que nos leva a cogitar que muitos desses tabus constituem criações influenciadas por outras culturas ou por deturpação da cultura yorùbá. Se o Candomblé é uma religião cuja principal base é a ancestralidade, não faz sentido ter essa mesma base como um dos principais èèwọ̀

É preciso que estejamos todos preparados para reler velhos èèwọ̀ a fim de adequar o Candomblé às raízes perdidas ou deturpadas e também às exigências decorrentes da evolução humana sem, contudo, deixar de respeitar e resguardar tudo aquilo que é importante e que faz parte do legado construído a chibata, ferro e fogo pelos nossos ancestrais. A palavra de ordem nesses casos é a cautela acompanhada de profunda reflexão coletiva para colocar o Candomblé no seu lugar de direito neste e nos séculos futuros.

A seguir, apresentaremos uma sucinta lista de èèwọ̀ colecionados ao longo da vida pela prática e pela experiência como bàbálórìṣà:

ÈÈWỌ̀ RELACIONADOS A ALIMENTOS

Os alimentos podem ser èèwọ̀ para um(a) ìyàwo ou para qualquer outra pessoa em estado de obrigação no Candomblé, por diversos motivos, a saber: a) porque são tabu para o òrìṣà da pessoa e, por extensão, acabam sendo um tabu para a ela própria; b) porque alteram o estado de humor do(a) obrigacionado, levando-o(a) a experimentar sensações não benéficas à consolidação da energia do òrìṣà; c) porque representam energias contraditórias às energias encantadas no(a) ìyàwo e d) porque são alimentos votivos do òrìṣà do(a) ìyàwo e, em respeito a esse fato, ele fica impedido de comê-la por determinado tempo, ou por toda a vida conforme as especificidades.

Ademais, os alimentos, por sua natureza e constituição, podem alterar o estado de humor de qualquer pessoa obrigacionada, excitando, exaltando, estressando, irritando-a, fato que constitui uma contraindicação às boas práticas ensinadas e apreendidas no hunkọ́.  Vejamos alguns exemplos de èèwọ̀ relacionados a alimentos:

Abacaxi – Não consumir por um ano – trata-se de importante èèwọ̀ para o òrìṣà Ọ̀ṣùn;

Café e outros estimulantes (chocolate, coca-cola, guaraná) – Não beber ou comer enquanto estiver de kélé, em virtude de serem substâncias estimulantes.

Caja – Não consumir por um ano, ou nunca de acordo com o èèwọ̀, em respeito à ancestralidade.

Carambola – Não consumir por um ano, ou nunca de acordo com o èèwọ̀, em respeito à ancestralidade.

Caranguejo – Não comer por sete anos, ou nunca de acordo com o èèwọ̀, trata-se de importante èèwọ̀ para o òrìṣà Ọmọlu.

Carne de porco – Não comer por um ano, ou nunca de acordo com o èèwọ̀, segundo os mais antigos, o porco possui energia muito negativa e, por consequência, sua carne – Nesse sentido, há um ìtàn que fala que Ṣàngò deixou de comer carne de porto em honra aos malês. Muito adeptos desse òrìṣà não comem carne de porco em sua honra. O porco é animal oferecido a diversos òrìṣà, fato que nos leva a crer que, por consequência, os filhos desses òrìṣà não comam a carne desse animal por respeito.

Carne vermelha – Não comer enquanto estiver de kélé ou cumprindo preceito, no caso desse interdito, a justificativa é a presença de sangue na carne, consumir sangue ou derivados dele é proibido para todos os iniciados no Candomblé independentemente da idade e do tempo de iniciação.

Comida do próprio òrìṣà – Não comer pelo prazo de um ano, salvo quando a comida for oferecida em atos litúrgicos que requeiram a experimentação por parte dos presentes, a exemplo das comidas de Ọ̀ṣùn e de Ṣàngò. Os mais velhos e mais experientes na religião afirmam que não se deve comer a comida do próprio òrìṣà por respeito.

Entranhas e pontas de animais (moela, fígado, coração, rim, bucho, tripas, passarinha, testículos, ubre, tetas, cabeça, pé, asa) – Não comer por um ano ou nunca de acordo com o èèwọ̀. As entranhas são partes ofertadas ao sagrado e, por isso, e em respeito, não podemos comer.

Frutos do mar (camarão, polvo, lula, arraia) – Não comer por um ano, ou de acordo com o èèwọ̀ – Neste caso, há textos sagrados específicos que explicam cada um desses èèwọ̀ relacionados a frutos do mar. Por exemplo, o caranguejo está relacionado com as chagas de Ọmọlu e o camarão constitui èèwọ̀ para Ọ̀ṣùn.

Jaca – Não deve ser consumida por um ano em respeito às grandes mães, a jaca é o fruto da apáọ̀ká, nome sagrado da jaqueira.

Manga espada – Não deve ser consumida por um ano, é um dos èèwọ̀ do òrìṣà Ògún.

Peixe de couro – Nunca comer. Esse èèwọ̀ está relacionado com um desentendimento entre o grande peixe de escamas e Èṣù.

ÈÈWỌ̀ RELACIONADOS A LUGARES

Dada a concentração de energias positivas ou negativas em determinados ambientes, recomenda-se não frequentar ou frequentar moderadamente, quando for o caso. E se houver a necessidade de ir a um desses lugares que seja acompanhado por uma pessoa mais experiente que seja capaz de resolver possíveis ocorrências. Os principais lugares são esses:

Bar – Não frequentar por um ano.

Boate – Não frequentar por um ano.

Cachoeira – Não frequentar por um ano.

Cemitério – Não frequentar por um ano.

Encruzilhada – Dada a concentração e dispersão de energias diversas no local, não atravessar pelo meio, por um ano – passe sempre pelos cantos.

Festas de modo geral – Não frequentar por um ano.

Hospital – Frequentar só se for estritamente necessário.

Mar – Não frequentar por um ano.

Matas e bosques – Não frequentar por um ano.

Necrotério e similares – Não frequentar por um ano.

Portas e janelas – Recomenda-se que nunca nos portemos de costas para as portas e janelas – é por elas que entram todas as energias.

Soleira das portas – Nunca devemos nos sentar na soleira das portas, principalmente das portas de entrada. É pelas portas que entram e saem todas as energias, quer sejam benéficas, quer sejam maléficas.

Velório – Não frequentar por um ano.

Há lugares com a predominância de energias benéficas e lugares com a predominância de energias maléficas, ambas podem provocar o transe de pessoas recém-iniciadas. A questão é essa, entrar em transe em lugar onde pessoas não sabem lidar com o fenômeno, pode causar danos espirituais e sociais relevantes ao noviciado. Nos casos em que os lugares estão carregados de energias menos positivas, além do transe desassistido – o que é um perigo –, o(a) noviciado ainda poderá sair de lá carregado dessas energias que, certamente, poderão lhe fazer algum mal.

ÈÈWỌ̀ RELACIONADOS AO TEMPO

Segundo Omidire (2020, p. 18), “não se pensa numa divisão do dia pelo relógio de ponteiros ocidental, mas pela presença de luz natural (claridade) e passagem da noite”. Não é do nosso conhecimento a existência de obras específicas de temática afro-brasileira que tratem com profundidade do tema em questão: èèwọ̀ relacionados ao tempo; no entanto, as tradições perpassadas pela tradição oral orientaram-nos a ter esse cuidado para não nos expor às energias geradas no decorrer das chamadas horas abertas. Curiosamente, na cultura iorubana, não há cumprimentos para o período compreendido entre meia noite e três horas da manhã (òru e ààjìn), a parte mais escura da noite e isso se dá em face de não se saber a quem se está cumprimentando, se é natural ou sobrenatural, se é pessoa de bem (ou não).

Horas abertas – Chamamos de horas abertas os períodos compreendidos próximos de 6, 9, 12, 15, 18 e 24 horas – Nessas horas, os(as) recém-iniciados(as) não devem estar na rua enquanto estiver cumprindo o kélé. Caso estejam, devem estar com a cabeça coberta. A madrugada é considerada período de hora aberta.

ÈÈWỌ̀ RELACIONADOS A DROGAS

As drogas de modo geral, lícitas ou ilícitas, não nos fazem bem de forma alguma, elas alteram a nossa constituição psicofísica e podem nos causar danos espirituais irreversíveis. As bebidas alcoólicas, como o gin e o vinho, utilizadas nos ritos de sacralização, nos ẹbọ e demais oferendas que fazemos ao sagrado não servem como elementos fins, mas como elementos simbólicos de potencialização das energias manipuladas no evento. Nos ritos e celebrações, tudo que é servido ao sagrado deve ter a medida do bom senso, o pouco falta e o muito sobra. As bebidas alcoólicas como elementos votivos promovem boas energias; contudo, como meio de diversão, se tomadas em excesso, podem desencadear humores nem sempre controláveis e ainda abrir portas para energias externas que podem nos fazer mal e também ao òrìṣà que passou a viver em nós.

Em relação às drogas ilícitas, não é do nosso conhecimento o uso de quaisquer delas no Candomblé, tais substâncias não fazem parte de nenhum rito e, sabidamente, causam danos ao físico, ao psicológico e ao espiritual. Um homem ou uma mulher que se entorpece mata a si e a seu òrìṣà. Seguem alguns èèwọ̀:

Bebida alcóolica – Não beber por 1 ano.

Cigarro – Só usar depois de retirar o kélé e se foi dada permissão no panà.

Drogas ilícitas – Nunca usar.

ÈÈWỌ̀ RELACIONADOS A OBJETOS E ELEMENTOS

Quando somos postos em obrigação no Candomblé, nós nos afastamos de quase todas os objetos do nosso cotidiano e isso faz de muitos deles èèwọ̀ depois da iniciação, é o caso dos utensílios domésticos. Sobre o espelho, há os que dizem que não podemos ver o nosso próprio kélé e há os que falam que podemos ver neles o que não estamos preparados para ver. A faca, a navalha e a tesoura se justificam em face do respeito que devemos ter a esses três elementos fundamentais no processo de iniciação. A faca por ter sido usada na sacralização dos animais, a navalha e a tesoura pela importância que tiveram no processo iniciático. O não uso de cores escuras para todos os iniciados se justifica pela relação que elas têm com os òrìṣà e em face das energias que representam e desencadeiam. Para a cultura do Candomblé no Brasil, as cores brancas e claras nos aproximas das boas energias, enquanto as demais nos levam rumo às más influências.

Espelho – Não fazer uso enquanto estiver de kélé, o espelho é um portal de/para todas as energias.

Faca – Não usar enquanto estiver de kélé, a faca foi utilizada pelo aṣògún para a sacralização e abate dos animais, por isso deve ser respeitada.

Fogo – Não devemos dar as costas para o fogo, nem soprar o fogo em casa de Candomblé – Devemos usar um abano para desempenhar essa tarefa.

Lixo – Nunca devemos pegar lixo com as mãos – o lixo por si só possui uma conotação negativa.

Navalha – Só usar depois da queda do kélé e se foi dada permissão no panà.

Roupas de cores escuras[2] (preto, vermelho, roxo, azul marinho, marrom etc) – Não usar por 1 ano, se for de Òṣàlá, nunca usar.

Talheres (garfo e faca) – Só usar depois da queda do kélé, ou de acordo com o estabelecido no panà;

Tesoura – Só usar depois da queda do kélé e se foi dada permissão no panà;

Utensílios domésticos – Só fazer uso depois da queda do kélé e de acordo com o estabelecido no panà;

ÈÈWỌ̀ RELACIONADOS A UMA AÇÃO/ATITUDE

Muitos èèwọ̀ não possuem explicações em livros ou em outras anotações. Nem tudo está escrito e/ou se justifica nos ìtán (escrituras), apenas foram mantidos pela tradição oral. Há quem diga que as cordas são elementos de feitiçaria e que por isso carregam em si energias não benéficas as nossas energias e às energias do nosso sagrado. Elas servem para amarrar, prender, privar de liberdade, açoitar e, por isso, emanam energias que podem causar danos às novas energias encantadas nos noviciados. Não passar debaixo de cerca de arame farpado é mais um desses èèwọ̀ que não possuem uma justificativa clara, apenas seguimos as orientações da tradição oral. O sexo desencadeia uma energia muito poderosa que, se mal usada, poderá se voltar contra nós e contra o que há de mais sagrado em nós. O sexo saudável, como base do amor, não faz mal a ninguém. O que é èèwọ̀ é o sexo desmedido, descontrolado, sem amor, por mero prazer carnal. O sexo, além de prazer, promove a troca de energias entre as pessoas e é aí que está o perigo. Se o sexo só promovesse a troca de energias boas não seria èèwọ̀ e, justamente, porque não se sabe a qualidade da energia trocada no ato é que se justifica a existência do èèwọ̀. No primeiro ano, o ìyàwo não deve mexer no corpo, deve evitar a intervenção de energias ou a inserção de substâncias externas, a exemplo de tintas e outros materiais químicos. Em algumas famílias, há o entendimento que nunca devemos fazer nada que modifique o nosso corpo em face do pacto com o òrìṣà Oko, Senhor da Agricultura, no qual ficou estabelecido que Ele emprestaria a terra para forjar os seres humanos e, em troca, tudo lhe seria devolvido da mesma forma como foi cedido.

Dormir com os pés para a porta – Há muita gente que não é do Candomblé e não dorme com os pés para porta.  Parece que esse èèwọ̀ passou a ser de todas as pessoas independente da religião. Dizem que dormir com os pés para a porta confunde a morte que pode nos levar pensando que estamos mortos.

Dormir de barriga para cima – Não é recomendado e possui a mesma explicação dada ao fato de dormir com os pés voltados para a porta.

Passar debaixo de corda – Nunca passar debaixo de cordas e similares;

Sexo - As relações sexuais ficam proibidas enquanto perdurar o tempo de cumprimento do kélé. Esse prazo pode variar de 21 dias a 3 meses, dependendo de cada contexto.

Tatuagem – Pelo menos por 1 ano, ou nunca. Isso vai de família para família, de indivíduo para indivíduo.

Transpor cerca de arame farpado – Não passar por baixo, pelo meio ou por cima por 1 ano e todas as vezes que for possível, devemos evitar essa ação.

ÈÈWỌ̀ RELACIONADOS A SENTIMENTOS

Muitos adeptos do Candomblé preocupam-se com a cor da roupa que vai vestir, com o alimento que vai comer (ou não), com o objeto que vai usar, se pode ou não pode fazer isso ou aqui; mas, dificilmente, vê-se pessoas preocupadas em não falar mal uma da outra, em não inventar mentiras, em não criar discórdia, em não odiar o próximo. Alimentar os maus sentimentos e as más ações e atitudes matam-nos aos poucos e fere gravemente a energia do òrìṣà que passou a habitar em nós depois da iniciação. Demos nos preocupar com todos os èèwọ̀ e acrescentar em nossa vida mais esse: não alimentar e/ou praticar os maus sentimentos, as más ações e as más atitudes. 

Sentimentos e atos pecaminosos (inveja, ódio, mentira, rancor, hipocrisia, tristeza, medo, raiva, hostilidade, apatia etc) - Não só no tempo do kélé, ou por 1 ano, mas por toda a vida. Este tipo de sentimento deve ser banido das nossas vidas. O Àṣẹ nos transforma e, como homens e mulheres de àṣẹ transformados, devemos nos alimentar dos melhores sentimentos, ações e atitudes.

ÈÈWỌ̀ RELACIONADOS A FENÔMENOS DA NATUREZA

Quando nos iniciamos, ficamos sensíveis a barulhos mais fortes, e suscetíveis à manifestação do transe, e um simples trovão pode nos abalar emocionalmente e até mesmo despertar o nosso òrìṣà. Assim sendo, recomenda-se estar acompanhado e em lugar seguro em caso de chuvas fortes com trovoadas e relâmpagos. A chuva em si é um elemento de grande energia que pode nos colocar em transe.

Chuva – Evitar tomar chuva enquanto estiver cumprindo o kélé – este èèwọ̀ também se explica pelas fortes energias carregadas no fenômeno natural da chuva.

Relâmpago – Estar sempre abrigado, protegido e atento pelo menos enquanto estiver de kélé.

Trovão – Estar sempre abrigado, protegido e atento pelo menos enquanto estiver de kélé.

PROCEDIMENTOS IMPORTANTES DO ÌYÀWO DEPOIS DO HUNKỌ́

Depois de finalizadas as obrigações, o ìyàwo passará por um tempo de adaptação a sua nova vida como cidadão de direitos e deveres civis. Até que essa adaptação seja plena, o ìyàwo continuará orientado a seguir importantes hábito e práticas apreendidos no hunkọ́. Além do resguardo com relação aos èèwọ̀, outros cuidados precisam ser mantidos por um bom tempo, a saber:

1. Dormir na ẹní (esteira) enquanto estiver cumprindo o kélé ou pelo tempo determinado no panà;

2. Usar sempre páànù (prato) e ago (copo/caneca) de esmalte ou barro para se alimentar, em todos os lugares, enquanto estiver cumprindo o kélé e até completar sete anos estando no Ilé Àṣẹ.

3. Vestir branco todos os dias enquanto estiver cumprindo o kélé, se for de òrìṣà funfun, vestir branco todos os dias, por um ano. E, nos ṣiré, trajar-se de branco sem enfeites até completar 3 anos para todos os ìyàwo independente do òrìṣà.

4. Tomar o iwẹ̀ (banho) de omi ẹ̀rọ̀ (àgbo – infusão de folhas) por 1 ano, no dia do òrìṣà. Isso é tradição mantida pela maioria das casas e famílias de Candomblé.

5. Não frequentar outras roças de candomblé pelo prazo de 7 anos, salvo se for acompanhado e com a permissão das autoridades do seu terreiro.

6. Não participar de festas e torés de exu, pombagira, caboclos e demais encantados por 1 ano ou de acordo com a indicação das autoridades do seu terreiro.

7. Rezar durante as refeições enquanto estiver cumprindo o kélé e, se for possível, por todo o sempre agradecer a Olódùmarè e a òrìṣà pelo alimento colocado à mesa.

8. Nunca comer restos de outras pessoas.

9. Ìyàwo não inicia ìyàwo, não faz borí, não faz ẹbọ, não faz sacralização de animais e não joga búzios. Essas são atribuições de pessoas que, ao completarem sete anos e tomarem as obrigações necessárias, recebem autorização em rito apropriado.

10. Ìyàwo não dá consulta com entidades, salvo depois de um ano de iniciado, ou em tempo determinado pelas autoridades do terreiro e em sessões controladas pelas autoridades da roça.

11. A umbigueira (ìban) é um importante elemento da iniciação de um ìyàwo. Sobre esse assunto, quase nada está registrado na literatura. Cada família tem um entendimento sobre o assunto e, principalmente, a respeito do momento de retirar a ìban: a) uns afirmam que ela deve, a exemplo do umbigo da criança, cair sozinha e b) outros a retiram juntamente com o kélé.

12. Os èékán (contraeguns) são retirados com um ano pelo bàbálórìṣà ou ìyálórìṣà. Só será retirado antes se houver necessidade apontada pelo contexto e autorizada pelo sagrado. Nesses casos, o òrìṣà deverá ser sempre consultado por meio do jogo de búzios.

PRINCIPAIS ÈÈWỌ̀ DE CADA ÒRÌṢÀ

Quando somos iniciados no Candomblé, a energia do nosso òrìṣà se junta ao nosso princípio individual, tornando-nos um indivíduo múltiplo. Pedagogicamente, é o mesmo que permitir que um outro indivíduo passe a conviver dentro do nosso corpo. E veja que já não éramos um só, uma vez que nascemos dotados de uma centelha divina (Orí) carregada na terra pelo nosso princípio dinâmico (Èṣù).

Esse fato de nos tornar múltiplos em um só, faz com que coisas que não nos faziam mal antes da iniciação passem a nos fazer depois.

Não é raro alguém dizer que sempre comeu alguma coisa e que depois da iniciação tal iguaria passou a lhe incomodar. Isso é o que chamamos de èèwọ̀.

Existem èèwọ̀ que são específicos para filhos de alguns òrìṣà e outros que são de todos os iniciados do Candomblé.

Para facilitar o entendimento, separaremos os èèwò específicos dos èèwọ̀ como se poderá ver a seguir.

Nenhum iniciado do Candomblé deve comer: arraia, caranguejo, iguarias feitas com sangue, peixes de couro, lula, polvo e a cabeça da galinha de angola.

Alguns desses èèwọ̀ já foram justificados nas discussões anteriores e outros, a exemplo do èèwọ̀ em não ingerir comida feita com a cabeça da galinha de angola, vamos nos reservar no direito a não discutir esse assunto para resguardar a principal base do Candomblé: o àṣírí (segredo).

Os èèwọ̀ específicos dos filhos de òrìṣà são os seguintes:

Èṣù: cabeça e pés de animais

Ògún: caça, cana, manga espada

Ọ̀ṣọ́ọ̀sì: mel, carne de caça, bode, cabrito

Ọ̀sányìn: caça, pato(a)

Ọbalúwáiyé: carne de porco, sardinha

Òṣùmàrè: tudo o que rasteja, ovos

Nàná: tutano, carne de rã, miúdos em geral

Yewà: galinha

Ìrókò: não cumprir uma promessa

Ṣàngó: carne de carneiro, de cágado e também a rabada bovina

Ayrà: todos os èèwọ̀ de Ṣàngó e grande parte do èèwọ̀ de Oṣàlúfọ́n.

Ọbà: galinha branca

Ọya: carne de carneiro, miúdos em geral, abóbora (saliento que, em conversa pelas redes sociais com conhecidos nativos, na África, em especial em Ira, as pessoas não conhecem esse èèwọ̀ da abóbora).

Ọ̀ṣùn: pato(a), pombo(a), ovos, camarão

Lógun Ẹ̀dẹ: caça, bode, cabrito

Yemọjá: camarão vermelho, peixe vermelho.

Òṣàgiyán: É uma afronta a Òṣàgiyán as brigas, as confusões, as mentiras. Constituem èèwọ̀ para Òṣàgiyán tudo aquilo que constitui èèwọ̀ para Oṣàlúfọ́n.

Oṣàlúfón: bebida alcóolica, azeite de dendê, sal, bagre, sardinha, pombo, vestes de cores escuras, a exemplo do preto, do vermelho, do marrom, do azul marinho, entre outras.

Deixar de consumir algo que muito gostamos é mais que uma prova de fé, é respeito ao òrìṣà que passou a viver em nós depois da iniciação. O Candomblé, sem sombra de dúvidas, é a única religião que, ao iniciar, um indivíduo se transforma verdadeira e literalmente em uma nova pessoa. 

AS ROUPAS LITÚRGICAS DOS ÌYÁWO

As vestimentas litúrgicas são muito importantes para o povo de àṣẹ, elas são mais que roupas, são um meio de comunicação entre os membros do terreiro e entre esses e a comunidade externa. As roupas carregam signos que definem quem somos, quantos anos de iniciados temos, o gênero a que pertencemos, a nossa posição na hierarquia do terreiro e, às vezes, o òrìṣà para o qual formos iniciados. Como um ìyàwo deve se vestir no dia a dia na roça de Candomblé?

1. Os(as) ìyàwo devem se vestir de branco estando na roça até tomar a obrigação de três anos, podendo vestir colorido somente a partir daí.

2. Se o(a) ìyàwo for de Òṣàlá, deverá vestir branco até os sete anos, devendo evitar para sempre as cores escuras e jamais vestir preto e vermelho.

3. Até completar sete anos, os(as) ìyàwo deverão usar os ìlẹ̀kẹ̀ (fios de conta do carrego) e o mokan que, além de ser um amuleto, é um elemento de identificação de quem é ou não ìyàwo dentro da roça.

4. Deve usar o èékán (contraegun) por um ano, podendo ser retirado com seis meses a critério do bàbálórìṣà ou da ìyálórìṣà, mas somente nos casos em que o sagrado indicar por meio do oráculo.

5. As mulheres devem vestir saia, calçolão, camisu de creola, pano da costa sempre acima do peito, gravatinha ou lacinho na altura do peito e pano na cabeça sem laços, abas ou qualquer outro enfeite.

6. Os homens devem vestir calçolão (ou calça branca), calçolinho por baixo, camisu (ou camisa branca), usa àkẹtẹ̀ baixinho até completar sete anos.

7. Até tomar a obrigação de sete anos, o(a) ìyàwo deve participar do ṣiré sempre descalço.

8. As fitas nas barras das saias denotam idade de iniciação para as mulheres do terreiro, a saber:

a) 1 ano – 1 fita (com a obrigação dada)

b) 2 anos – 2 fitas

c) 3 anos – 3 fitas (com a obrigação dada)

d) 4 anos – 4 fitas

e) 5 anos – 5 fitas

f) 6 anos – 6 fitas

g) 7 anos ou mais – qualquer número de fitas (com a obrigação dada)

9. Ìyàwo de Kétu não usa senzala (espécie de adereço feito de palha da costa bordado com búzios e miçangas e que se usa no braço sobre os contraeguns).

10. O ìyàwo não deve ir para o ṣiré de calça jeans de outras core diferentes do branco, de bermuda, de camiseta regata, ou sem camisa.

11. A ìyáwo não deve usar maquiagem para ir ao ṣiré e se for de òrìṣà masculino nunca deve usar brincos ou outros adereços e enfeites.

12. Ìyáwò não usa roupa de tecidos africanos bordados. Não usa guipure, entremeios e não usa rechilieu.

As vestimentas dizem muito sobre quem somos e o que queremos como homens e mulheres de àṣẹ. Vestir-nos adequadamente como orienta a nossa família é contribuir para o nosso próprio crescimento na hierarquia do terreiro.

PERGUNTAS DO(A) ÌYÀWO

I. O Candomblé é uma religião monoteísta ou politeísta?

O Candomblé é uma religião monoteísta. Existe um único Deus e Ele possui muitos nomes: Ọlọ́run (Senhor do Céu), Olódùmarè (Imutável Senhor de Todo o Poder), Ẹlẹ́dá (Senhor da Criação), Aláyè (Senhor da Vida), Ẹlẹ́mí (Senhor do Sopro Divino), Olójó Òní (Senhor do Dia de Hoje. Segundo Beniste (2020, p. 27), apesar dos muitos nomes,

Deus é Um, não muitos; a Terra e toda a sua plenitude pertencem a este único Deus; é o criador do universo; abaixo Dele está a hierarquia dos Òrìṣà, os quais recebem a incumbência de dirigir os seres humanos, administrar os vários setores da natureza, servindo de intermediários entre os humanos e Ele.

Como se vê, os òrìṣà são criaturas e não criadores. Deus é o criador e os òrìṣà são criaturas de Deus responsáveis por fomentar, desenvolver e administrar o processo de criação e a dinâmica do desenvolvimento de tudo o que foi criado.

II. Quais são os principais passos que um(a) ìyàwo deve seguir ao chegar na roça?

São eles: a) inicialmente, deve cumprimentar Èṣù à porta; b) Em silêncio deve entrar, tomar o banho de àgbo, vestir-se adequadamente conforme as orientações contidas neste livro; c) Tomar a benção dos òrìṣà fazendo as reverências necessárias defronte dos assentamentos; c) Tomar a benção dos mais velhos seguindo a hierarquia estabelecida na roça; d) Trocar de benção com os(as) demais irmãos ìyàwo e abíyán (pessoa não iniciada). E, na sequência, deve dar início às tarefas para as quais veio para o terreiro, procurando agir sempre em conformidade com o humbe fún ìyàwo.

III. Um(a) ìyàwo pode se sentar em qualquer lugar e em qualquer altura dentro da Casa de Candomblé?

Não, o(a) ìyàwo não pode e não deve se sentar em qualquer lugar estando na roça de Candomblé. Sentar-se sempre em lugares mais baixo que os seus mais velhos é uma lição de hunbe. Caso o mais velho esteja sentado numa àga (cadeira), o(a) ìyàwo deve se sentar num àpótí (pequeno banco) e se aquele estiver sentado num àpótí, este deve se sentar na ẹní.

IV. Como um(a) ìyàwo deve se comportar no seu dia a dia, mesmo não estando de preceito nem dentro da roça de Candomblé?

Um(a) ìyàwo deve se comportar dentro e fora da roça de Candomblé sempre pautando pelas regras de boa conduta social e, acima de tudo, pelos princípios basilares da ética e da moral. Da mesma forma que o(a) ìyàwo, os demais membros da coletividade, cargos ou não, independentemente da idade, devemos nos comportar da mesma forma: dando os melhores exemplos para que sejamos respeitados integralmente como cidadãos e cidadãs e, acima de tudo, como homens e mulheres de àṣẹ. A nossa boa conduta dentro e fora do Ilé Àṣẹ traduz-se no principal cartão de visitas e no melhor caminho para que outras pessoas olhem com melhores olhos o que somos e a religião que professamos.

V. Um(a) ìyàwo recém-iniciado(a) pode falar sobre sua religião para as pessoas de fora do Candomblé?

Sim lógico, mas para isso é preciso saber o que falar e como falar. Quando estamos recém-iniciados, é comum que as pessoas perguntem: Por que você está careca? Por que você passou a se vestir só de branco? Que cordinha é essa no seu braço? O que é isso no seu pescoço? Por que você só se senta na esteira? Por que você reza para comer? Por que você só se alimenta usando esse prato e essa caneca de esmalte? Esses são alguns exemplos de perguntas que nos são feitas pelos de fora. Eu considero muito natural que as pessoas perguntem. Agora, é importante que os(as) ìyàwo saiam do hunkọ́ com o mínimo de conhecimento possível para saberem responder com altivez, inteligência e segurança às perguntas que, na maioria das vezes, vem acompanhadas de bulling religioso. Ao falar sobre a nova vida e sobre sua religião, um(a) ìyàwo deve ser polido, educado, comedido e, acima de tudo, mostrar segurança em suas respostas, para isso é preciso se dedicar para aprender. No caso de não ter o conhecimento necessário para responder a uma pergunta, o silêncio lhe será a melhor resposta. Saia pela tangente dizendo que ainda não está preparada para responder ou que vai se informar com as autoridades do seu terreiro para depois responder.

VI. A quem é dada a incumbência de ensinar o(a) ìyàwo no Ilé Àṣẹ?

A incumbência de ensinar o(a) ìyàwo para se conduzir melhor em sua nova vida para além do hunkọ́ é compartilhada entre as autoridades do Ilé Àṣẹ considerando e respeitando a hierarquia, a idade e o conhecimento que cada um tem. Conforme lemos no início deste livro, na iniciação de um(a) ìyàwo, há muitas pessoas envolvidas e cada uma delas está no processo, não só para cumprir sua função primordial de assistir a(a) noviciado em suas necessidades, mas também para orientá-lo(a) a se conduzir melhor dentro e fora do Ilé Àṣẹ. Numa casa de Candomblé e fora dela, todos nós podemos aprender com todas as pessoas. Não sabemos de tudo. Se com uma singela atitude de um(a) abíyán um(a) velho(a) ẹ̀gbọ́n pode aprender, imaginem o que não se pode aprender, também, com os(as) ìyàwo mais velhos que já possuem experiências formidáveis. Por fim, é responsabilidade do bàbáẹgbẹ́ e/ou da ìyáẹgbẹ́ a manutenção e conservação das trações do terreiro e é tarefa do bàbálórìṣà ou da ìyálórìṣà a condução da comunidade pelos bons caminhos do desenvolvimento físico, psicológico, cultural, social, político e, acima de tudo, espiritual.

VII. Quais são as consequências dos èèwọ̀ para a vida de um(a) ìyàwo?

Elas são muitas. Há èèwọ̀ com consequências imediatas e outros mais silenciosos, cujas consequências poderão aparecer muito tempo depois e com danos, por vezes, irreversíveis à vida, não só do(a) ìyàwo, mas de todos, independentemente da idade ou da condição que exerce dentro do Ilé Àṣẹ. Para facilitar o entendimento, vamos dividir os èèwọ̀ em dois grupos: os de consequências imediatas e os de consequências tardias. Os èèwọ̀ de consequências imediatas, cuja manifestação se dá na forma de alergias ou de destempero do organismo, são menos perigosos porque eles se mostram e com isso, podemos evitá-los distanciando-nos do agente causador. No entanto, os èèwọ̀ mais silenciosos, ou de consequências tardias, podem nos causar danos profundos ao físico, ao moral, ao psicológico e ao espiritual. Os èèwọ̀ de consequências imediatas estão mais relacionados com os alimentos e objetos, já os de consequências tardias são desencadeados, quase sempre, pelos ambientes que frequentamos e, mais enfaticamente, pelas nossas ações, atitudes e sentimentos negativos. As experiências também nos dizem que a exposição a alimentos e lugares podem causar èèwọ̀ de consequências tardias, assim como frequentar lugares, ações, atitudes e esboçar sentimentos negativos podem desencadear èèwọ̀ de consequências imediatas.

VII. Como deve ser a relação entre os(as) ìyàwo mais velhos e os mais novos? O que um(a) ìyàwo pode ou não falar/ensinar e como fazer isso para com os mais novos? Ou o(a) ìyàwo nunca deve falar/ensinar outro(a) ìyàwo?

Ìyàwo também é fonte de sabedoria. Para responder a essas questões, inicialmente, divido o conhecimento em dois, a saber: a) conhecimento de àṣẹ e b) conhecimento de mundo. O conhecimento de àṣẹ é adquirido com a experiência dentro das casas de Candomblé, participando ativamente das atividades religiosas. Quanto mais se participa, mais se aprende. O conhecimento de mundo é adquirido dentro e fora do terreiro, quando o indivíduo se relaciona com o meio em que viver e atua como sujeito de transformação, trata-se do conhecimento trocado nas relações sociais: família, escola, trabalho, religião, agremiações diversas, amigos, viagens, entre outros. Voltando ao tema das perguntas: quando uma pessoa chega no terreiro para se iniciar, ela leva consigo uma bagagem que não deve e não pode ser desprezada, quanto maior for o seu conhecimento de mundo, melhor poderá ser o seu entendimento a respeito do àṣẹ. Lógico que isso não é regra geral. Há pessoas com excelente formação acadêmica que não conseguem se desenvolver como sujeitos de àṣẹ, A história é farta de homens e mulheres que, sem nenhuma formação acadêmica, escreveram seus nomes como grandes representantes do Candomblé no Brasil e deixaram legados incalculáveis para a religião. O(A) ìyàwo, ao sair do hunkọ́, possui alguma experiência de àṣẹ, nem sempre é capaz de entender tudo o que vivenciou no decorrer dos vinte e um dia que ficou recolhido(a) para a iniciação. Com o tempo, essa experiência pode se consolidar em saber e levá-lo(a) à condição de sujeito capaz de transmitir conhecimento. Assim sendo, os(as) ìyàwo mais velhos(as) podem, na medida certa, ajudar os mais novos a se guiarem no caminho do àse. Um(a) ìyàwo de humbẹ́ nem sempre precisa abrir a boca para ensinar a outrem, suas boas atitudes falam por si só, ensinando e direcionando os mais novos. Em síntese, as relações entre os(as) ìyàwo mais velhos(as) e os mais novos(as) devem pautar pela cordialidade e respeito. Um(a) ìyàwo pode e deve falar sobre tudo, na medida de sua idade, e se possuir o conhecimento necessário. Um(a) Íyàwo de humbẹ́ sempre sabe o que falar, quando falar, como falar e se pode falar.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

HUNBE FÚN ÌYÀWO, ou mais comumente CARTILHA DO ÌYÀWO, é um compêndio de informações compiladas a partir das experiências adquiridas nos terreiros, devidamente criado para atender às necessidades de orientação dos ìyàwo iniciados nas casas do Àṣẹ Ojú Oòrùn com relação aos procedimentos do pós-iniciação.

Tantas eram as perguntas dos recém-iniciados que já não tínhamos mais tempo para respondê-las todas. Diante do problema, foi necessário criar um mecanismo que pudesse formar e informar o ìyàwo sobre temas importantes para a consolidação da sua iniciação.   

Não queremos, com isso, dizer que HUNBE FÚN ÌYÀWO tem todas as respostas. Trata-se de uma obra inconclusa que deve se completar com a participação dos leitores atentos do Thonny Hawany Blog.

Todos poderão ajudar a construir uma Cartilha do Ìyàwo que atenda, se não todas, pelo menos a maioria das famílias e casas de Candomblé do Brasil. Em face do exposto, solicito que leia com atenção esta proposta e apresente suas contribuições suprimindo, acrescentando, corrigido e reescrevendo as informações por nós nela consignadas. 

REFERENCIAL TEÓRICO

ALMEIDA. Maria Inez Couto de. Cultura Iorubá: costumes e tradições. Rio de Janeiro: Dialogarts, 2006.

BENISTE, José. As águas Oxalá. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002.

BENISTE, José. Dicionário yorubá português. 2.ed., Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2014.

COSSARD. Gisele Omindarewá. Awô: o mistério dos orixás. 2.ed., Rio de Janeiro Pallas, 2014.

JAGUN, Márcio de. Yorùbá: vocabulário temático do Candomblé. Rio de Janeiro: Litteris, 2017.

OMIDIRE. Félix Ayoh’. Curso básico de língua e cultura yorùbá. Salvador: Segundo Selo, 2020.

VERGER, Pierre Fatumbi. Orixás. 6.Ed., Salvador: Currupio, 2002.

NOTAS

[1] Humbe = conjunto de regras + fún = para + ìyàwo = noviciado.

[2] . Há caso em que a profissão e similares exigem que a pessoa vista uniformes confeccionado com cores proibidas. Nesse caso, o sacerdote deverá consulta o oráculo para saber se o tabu poderá ser quebrado. Se a resposta for positiva, o sacerdote deverá fazer o que for indicado para que o obrigacionado fique desobrigado de cumprir ou livre do èèwọ̀. 


FONTE DA IMAGEM: https://br.pinterest.com/glorinhaaaaa/yaw%C3%B4/


terça-feira, 15 de março de 2022

O Candomblé é uma religião monoteísta

 O Candomblé é uma religião monoteísta ou politeísta?

 

Thonny Hawany[1]

 


Hoje, vou falar sobre algo que tem me intrigado nos últimos tempos: o fato de muitos adeptos de religiões de matriz africana acharem que são de religião politeísta. Vou começar com uma pequena história onde essa inquietude toda começou. Confesso que até aquele momento, esse tema não me trazia nenhuma preocupação.  Vamos lá então! Certa feita, eu participava de um evento cultural afro-brasileiro, na cidade de Ariquemes, no Estado de Rondônia, juntamente com outros adeptos do Candomblé, quando um dos palestrantes do evento chamado Silvestre Antônio Gomes Santos perguntou a todos ao iniciar a sua fala: “Nós somos de religião monoteísta ou politeísta?”

A pergunta veio acompanhada com uma nuvem de dúvidas. Era uma questão instigante. Ninguém esperava que o evento começasse por nos levar a tamanha reflexão.  No primeiro momento, o silêncio imperou no recinto. Apesar de conhecer a resposta, preferi ficar calado para ouvir o que os demais pensavam sobre o assunto.

Depois de alguns minutos, o silêncio ensurdecedor foi quebrado por alguém que afirmou, com veemência: “o Candomblé é uma religião politeísta.” E justificou com os nomes de alguns orixás[2]. Essa posição foi acompanhada pela maioria dos presentes. Na sequência, um pequeno grupo assumiu que não sabia dizer. E, por fim, pedi a palavra e afirmei ser o Candomblé uma religião monoteísta justificando com alguns itans[3], nos quais está registrada a existência de um Deus Único Criador do Ọ̀run (Céu) e do Àiyé (Terra).

O tema gerou caloroso debate, mas ao final, depois das excelentes explicações dadas pelo palestrante, todos os presentes se convenceram. Penso! Desde então, desmistificar e ensinar que o Candomblé é uma religião monoteísta tem sido uma de minhas importantes missões como sacerdote de religião afro-brasileira.

Com o propósito de verificar a quantas anda o entendimento a respeito do assunto, tenho repetido a mesma pergunta do palestrante de Ariquemes por onde passo e os mesmos equívocos têm se confirmado tanto com os de fora[4] quanto com os de dentro[5].

Essa falta de conhecimento a respeito do Candomblé e das demais religiões de matriz africana por parte dos de dentro e dos de fora tem sido uma abundante fonte onde bebe o preconceito, além de ser uma das principais portas por onde entram os ataques físicos e morais que nos fere gravemente e nos impede de crescer como religião e como religiosos.

Para dar seguimento, queremos lembrar o leitor que o Candomblé é uma religião brasileira com fortes influências de diferentes povos africanos, trazidos para o Brasil na vergonhosa situação de escravos e, que, por isso, divide-se em mais de uma Nação e, dadas as dimensões territoriais do Brasil, fragmenta-se, todos os dias, ininterruptamente, em inúmeras famílias com vieses muito particulares. Em face disso e para facilitar a apresentação do nosso tema, não falaremos aqui de todas as culturas, centrar-nos-emos no Candomblé com foco na Nação Ketu, cuja cultura e língua são legados do povo iorubá, vindo para o Brasil de uma região, na qual hoje estão localizados os países Nigéria, Benin, Togo, Ghana e Serra Leoa.

Voltando ao tema central de nossa discussão: monoteísmo e/ou politeísmo, Beniste (2020, p. 27), em sua obra Ọ̀run Àiyé, ao discorrer sobre “Deus – O Poder Supremo” afirma que:

Deus é Um. Não muitos; a Terra e toda a sua plenitude pertencem a Este único Deus; é o Criador do universo; abaixo Dele está a hierarquia dos Òrìṣà, os quais recebem a incumbência de dirigir os seres humanos, administrar os vários setores da natureza, servindo de intermediários entre os homens e Ele.

Como se vê nas palavras de Beniste (2020), Deus é um só e não muitos. Deus, na cultura iorubá, tem muitos nomes, mas é um só Ser. Ainda conforme Beniste (2020, p. 27),

entre o povo yorubá (sic), os antropônimos são muito significativos. Todo nome possui características próprias. A ninguém é dado um nome sem que haja razão para isso, e todos eles, invariavelmente, exprimem alguma história – relacionada com acontecimentos, atributos, caráter e personalidade. 

Se com as entidades espirituais, seres humanos, animais, plantas e objetos os nomes iorubás precisam ter significados justificados nas histórias que revelam atributos e características de cada ser ou coisa, com o Senhor da Criação, não seria diferente. Deus tem muitos nomes na cultura iorubá, mas o seu nome mais comum está ligado ao fato d’Ele ser o Senhor dono do Céu: Ọlọ́run, nome composto por duas palavras aglutinadas, a saber: Olo (Senhor) Ọ̀run (Céu) = Senhor do Céu.

Em síntese, independente do nome que recebe e da forma como é cultuado, o importante aqui nesta reflexão é entender que Deus é um só e não muitos, fato que nos revela a melhor resposta para a pergunta do palestrante de Ariquemes, qual seja: o Candomblé e todas as religiões de matriz africana são religiões monoteístas. E os orixás não são deuses? Alguém pode perguntar. Respondo. Não! Os orixás não são deuses, são entidades ancestrais sagradas, cuja missão é auxiliar o Grande Criador em sua obra, transformando e administrando tudo o que há no Ọ̀run (Céu) e no Àiyé (Terra).

 

Referencial:

BENISTE, José. Ọ̀run Àiyé. 14. Ed., Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2020.

Fonte da Imagem: https://segredosdomundo.r7.com/mitologia-ioruba/


[1] . Thonny Hawany (Antônio Carlos da Silva Costa de Souza) é bàbálórìṣà afro-brasileiro.

[2] . Entidades ancestrais do Candomblé.

[3]. Histórias, lendas que versam sobre a cultura iorubá.

[4] . Os de fora são a nossa referência às pessoas não adeptas ao Candomblé.

[5] . Os dentro são a nossa referência às pessoas adeptas ao Candomblé. 

quarta-feira, 17 de março de 2021

Ewé Pèrègún

Por Thonny Hawany

Pé = verbo chamar + Egún = espirito ancestral. Assim sendo, Pèrègún é a folha que nos coloca em contato com os nossos ancestrais, quer tenham sido divinizados, quer não. A folha do Pèrègún é utilizada em quase todos os ritos do Candomblé. Contam-se os mitos que Pèrègún assistiu ao nascimento do ser humano. Eu acostumo dizer que Pèrègún assistiu ao nosso nascimento, mas também ao nosso crescimento e desenvolvimento como serem humanos. Nós do Candomblé acreditamos que as árvores e todos os vegetais possuem, senão alma, uma energia vital que os liga ao céu e que as faz interagir com outros seres e elementos físicos aqui na terra. Em Pèrègún vive um espírito feminino ancestral, deste modo, não se mexe com o pèrègún sem antes reverenciar a energia que nele vive. Pèrègún é a folha que nos enriquece e nos renova ao nos doar o seu frescor e o seu principal dom de boa sorte. Pèrégún é a luz que nos ilumina na escuridão é a adaga com a qual nós nos defendemos dos nossos inimigos. Segundo Mãe Stela de Òsóòsì (2014, p. 109), em sua obra “O que as folhas cantam para quem canta folha”, o Pèrègún tem também a função de despachar espíritos sugadores

Nome em yorùbá: ewé pèrègún

Nomes populares: nativo, pau-d’água, dracena

Nome científico: dracaena fragans

Òrìsà(s) associado(s): Ògún, Ọ̀ṣún, Ọ̀sányìn, Ìyámi, Egúngún

Elemento associado: pèrègún é uma folha ligada à terra. 

Gênero: masculino

Significado sagrado: ancestralidade, boa sorte, frescor, proteção, renovação

Algumas cantigas (orin):

Orin I:

Pèrègún a lá we titun o

Pèrègún a lá we titun

Gbogbo Pérègúna la we lese

Pèrègún a lá we titun

Tradução:

Pèrègún purifique-nos e nos dê boa sorte 

Pèrègún purifique-nos e nos dê boa sorte

Pèrègún dê-nos boa sorte, bençãos e poder

Pèrègún purifique-nos e nos dê boa sorte

Orin II

Pèrègún alára gígún o

Pèrègún alára gígún

Oba kò ní jé o roró okán

Pèrègún alára gígún o

Pèrègún gbà agbára tuntun

Tradução:

Pèrègún tem o corpo excitado

Pèrègún tem o corpo excitado

Rei não deixa ter problemas de coração

Pèrègún tem o corpo excitado

Pèrègún dá nova força


Funções fitoterápicas:

Da seiva do pèrègún pode ser extraída uma substância viscosa que ficou conhecida como sangue-de-dragão. Segundo anotações na wikipedia, essa substância “era usada na antiguidade em fármacos (sob o nome de sanguis draconis) e em tinturaria, constituindo nos tempos iniciais de povoamento europeu da Macaronésia, em especial das Canárias, um importante produto de exportação”.

Referências:

BARROS, José Flávio Pessoa de e NAPOLEÃO. Ewé òrìṣà: uso litúrgico e terapêutico dos vegetais nas casas de candomblé jeje-nagô. 5.ed., Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2011.
DRACAENA. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Dracaena. Acesso em: 17/03/2021.
PÈRÈGÚN – A FOLHA ANCESTRAL. Disponível em:  http://artigos7folhas.com.br/2020/02/05/peregun-a-folha-ancestral/. Acesso em: 17/03/2021.
SANTOS, Maria Stella de Azevedo. O que as folhas cantam (para quem canta filha. Brasília: INCTI, 2014.
VERGER, Pierre Fatumbi. Ewe: o uso das plantas na sociedade ioruba. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

Imagem: https://esophone.com.br/blog/


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terça-feira, 14 de julho de 2020

APRENDENDO YORÙBÁ E BOAS MANEIRAS: ÌLARA

Por Thonny Hawany

Da mesma forma que o ejọ́ (intriga), que o èké (mentira) e que o olófófó (fofoca), apontamos o ìlara (inveja, cobiça) como uma prática humana danosa, tanto para quem a sente, quanto para quem ela é dirigida. Trata-se de um defeito moral.

Na cultura cristã, a inveja é tida como um dos sete pecados capitais, que se define pelo desejo incontrolável e doentio de ter o que é do outro ou de ser o que o outro é.

A inveja é diferente do desejo responsável. Desejar ter algo ou ser o que alguém é, sem trabalhar, estudar e desenvolver-se na mais ampla acepção da palavra, constitui um defeito moral, e isso é o que chamamos de desejo irresponsável, manifestado na forma da inveja.

Não é pecado ou defeito moral querer ser ou ter algo que alguém tem. O problema está na forma como esse desejo se manifesta e nas atitudes (positivas ou negativas) da pessoa que deseja.

 Deste modo, o melhor caminho é alimentar o desejo responsável de ser e de ter, sem, no entanto, desejar a destruição do outro. É preciso promover as condições necessárias para o sucesso em ser e ter: desenvolver-se pelo trabalho e pela educação formal, informal e não formal.


Fonte da imagem: Arquivo do Ẹ̀kọ́ Èdè Yorùbá por Thonny Hawany

Referências:

BENISTE, José. Dicionário yorubá português. 2.Ed., Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2014.
JAGUN, Márcio de. Yorùbá: vocabulário temático do candomblé. Rio de Janeiro: Litteris: 2017.

domingo, 12 de julho de 2020

APRENDENDO YORÙBÁ E BOAS MANEIRAS: OLÓFÓFÓ

Por Thonny Hawany

Como assinalamos na primeira postagem, o projeto “Aprendendo Yorùbá e Boa Maneiras” visa a ensinar palavras da língua yorùbá e, concomitante a isso, discutir questões relativas à boa convivência entre as pessoas.

Na postagem de hoje, trabalharemos com a palavra olófófó cujo significado remete para um terrível hábito que acompanha a humanidade desde os tempos mais remotos: a fofoca, também conhecida como fuxico.

Conforme os melhores dicionários de língua yorùbá publicados no Brasil, a expressão olófófó, acompanhada do verbo ser (), significa aquele que faz fofoca: o fofoqueiro. No Brasil, existem programas de rádio, de televisão e revistas especializados na “arte” de fazer fofoca. Há até fofoqueiros profissionais.

         Da mesma forma que o ejọ́ (intriga) e o èké (mentira), o olófófó constitui um desvio de conduta moral e pode, ao ser praticado, contribuir para desestabilizar as boas relações entre as pessoas que convivem nos mesmos grupos sociais.

         A fofoca diferencia-se de um diálogo necessário pela natureza contextual e pela necessidade de sua prática. Um alerta que uma pessoa dá a outra sobre algo ou alguém é quase sempre calçado de boas intenções e isso pode não ser uma fofoca. A conversa bem intencionada precisa ser direta para não cair no lugar comum da fofoca.

Embora a fofoca venha sempre disfarçada de uma ação repleta de boas intensões, seu principal objetivo é causar mais problemas do que os já existentes.

A fofoca deve ser banida de nossas vidas, devemos preferindo sempre um diálogo aberto, ponderado e responsável com as pessoas do nosso grupo social. Fica a dica!

Fonte da imagem: Arquivo do Ẹ̀kọ́ Èdè Yorùbá por Thonny Hawany

Referências:

BENISTE, José. Dicionário yorubá português. 2.Ed., Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2014.
JAGUN, Márcio de. Yorùbá: vocabulário temático do candomblé. Rio de Janeiro: Litteris: 2017.