quarta-feira, 17 de março de 2021

Ewé Pèrègún

Por Thonny Hawany

Pé = verbo chamar + Egún = espirito ancestral. Assim sendo, Pèrègún é a folha que nos coloca em contato com os nossos ancestrais, quer tenham sido divinizados, quer não. A folha do Pèrègún é utilizada em quase todos os ritos do Candomblé. Contam-se os mitos que Pèrègún assistiu ao nascimento do ser humano. Eu acostumo dizer que Pèrègún assistiu ao nosso nascimento, mas também ao nosso crescimento e desenvolvimento como serem humanos. Nós do Candomblé acreditamos que as árvores e todos os vegetais possuem, senão alma, uma energia vital que os liga ao céu e que as faz interagir com outros seres e elementos físicos aqui na terra. Em Pèrègún vive um espírito feminino ancestral, deste modo, não se mexe com o pèrègún sem antes reverenciar a energia que nele vive. Pèrègún é a folha que nos enriquece e nos renova ao nos doar o seu frescor e o seu principal dom de boa sorte. Pèrégún é a luz que nos ilumina na escuridão é a adaga com a qual nós nos defendemos dos nossos inimigos. Segundo Mãe Stela de Òsóòsì (2014, p. 109), em sua obra “O que as folhas cantam para quem canta folha”, o Pèrègún tem também a função de despachar espíritos sugadores

Nome em yorùbá: ewé pèrègún

Nomes populares: nativo, pau-d’água, dracena

Nome científico: dracaena fragans

Òrìsà(s) associado(s): Ògún, Ọ̀ṣún, Ọ̀sányìn, Ìyámi, Egúngún

Elemento associado: pèrègún é uma folha ligada à terra. 

Gênero: masculino

Significado sagrado: ancestralidade, boa sorte, frescor, proteção, renovação

Algumas cantigas (orin):

Orin I:

Pèrègún a lá we titun o

Pèrègún a lá we titun

Gbogbo Pérègúna la we lese

Pèrègún a lá we titun

Tradução:

Pèrègún purifique-nos e nos dê boa sorte 

Pèrègún purifique-nos e nos dê boa sorte

Pèrègún dê-nos boa sorte, bençãos e poder

Pèrègún purifique-nos e nos dê boa sorte

Orin II

Pèrègún alára gígún o

Pèrègún alára gígún

Oba kò ní jé o roró okán

Pèrègún alára gígún o

Pèrègún gbà agbára tuntun

Tradução:

Pèrègún tem o corpo excitado

Pèrègún tem o corpo excitado

Rei não deixa ter problemas de coração

Pèrègún tem o corpo excitado

Pèrègún dá nova força


Funções fitoterápicas:

Da seiva do pèrègún pode ser extraída uma substância viscosa que ficou conhecida como sangue-de-dragão. Segundo anotações na wikipedia, essa substância “era usada na antiguidade em fármacos (sob o nome de sanguis draconis) e em tinturaria, constituindo nos tempos iniciais de povoamento europeu da Macaronésia, em especial das Canárias, um importante produto de exportação”.

Referências:

BARROS, José Flávio Pessoa de e NAPOLEÃO. Ewé òrìṣà: uso litúrgico e terapêutico dos vegetais nas casas de candomblé jeje-nagô. 5.ed., Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2011.
DRACAENA. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Dracaena. Acesso em: 17/03/2021.
PÈRÈGÚN – A FOLHA ANCESTRAL. Disponível em:  http://artigos7folhas.com.br/2020/02/05/peregun-a-folha-ancestral/. Acesso em: 17/03/2021.
SANTOS, Maria Stella de Azevedo. O que as folhas cantam (para quem canta filha. Brasília: INCTI, 2014.
VERGER, Pierre Fatumbi. Ewe: o uso das plantas na sociedade ioruba. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

Imagem: https://esophone.com.br/blog/


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terça-feira, 14 de julho de 2020

APRENDENDO YORÙBÁ E BOAS MANEIRAS: ÌLARA

Por Thonny Hawany

Da mesma forma que o ejọ́ (intriga), que o èké (mentira) e que o olófófó (fofoca), apontamos o ìlara (inveja, cobiça) como uma prática humana danosa, tanto para quem a sente, quanto para quem ela é dirigida. Trata-se de um defeito moral.

Na cultura cristã, a inveja é tida como um dos sete pecados capitais, que se define pelo desejo incontrolável e doentio de ter o que é do outro ou de ser o que o outro é.

A inveja é diferente do desejo responsável. Desejar ter algo ou ser o que alguém é, sem trabalhar, estudar e desenvolver-se na mais ampla acepção da palavra, constitui um defeito moral, e isso é o que chamamos de desejo irresponsável, manifestado na forma da inveja.

Não é pecado ou defeito moral querer ser ou ter algo que alguém tem. O problema está na forma como esse desejo se manifesta e nas atitudes (positivas ou negativas) da pessoa que deseja.

 Deste modo, o melhor caminho é alimentar o desejo responsável de ser e de ter, sem, no entanto, desejar a destruição do outro. É preciso promover as condições necessárias para o sucesso em ser e ter: desenvolver-se pelo trabalho e pela educação formal, informal e não formal.


Fonte da imagem: Arquivo do Ẹ̀kọ́ Èdè Yorùbá por Thonny Hawany

Referências:

BENISTE, José. Dicionário yorubá português. 2.Ed., Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2014.
JAGUN, Márcio de. Yorùbá: vocabulário temático do candomblé. Rio de Janeiro: Litteris: 2017.

domingo, 12 de julho de 2020

APRENDENDO YORÙBÁ E BOAS MANEIRAS: OLÓFÓFÓ

Por Thonny Hawany

Como assinalamos na primeira postagem, o projeto “Aprendendo Yorùbá e Boa Maneiras” visa a ensinar palavras da língua yorùbá e, concomitante a isso, discutir questões relativas à boa convivência entre as pessoas.

Na postagem de hoje, trabalharemos com a palavra olófófó cujo significado remete para um terrível hábito que acompanha a humanidade desde os tempos mais remotos: a fofoca, também conhecida como fuxico.

Conforme os melhores dicionários de língua yorùbá publicados no Brasil, a expressão olófófó, acompanhada do verbo ser (), significa aquele que faz fofoca: o fofoqueiro. No Brasil, existem programas de rádio, de televisão e revistas especializados na “arte” de fazer fofoca. Há até fofoqueiros profissionais.

         Da mesma forma que o ejọ́ (intriga) e o èké (mentira), o olófófó constitui um desvio de conduta moral e pode, ao ser praticado, contribuir para desestabilizar as boas relações entre as pessoas que convivem nos mesmos grupos sociais.

         A fofoca diferencia-se de um diálogo necessário pela natureza contextual e pela necessidade de sua prática. Um alerta que uma pessoa dá a outra sobre algo ou alguém é quase sempre calçado de boas intenções e isso pode não ser uma fofoca. A conversa bem intencionada precisa ser direta para não cair no lugar comum da fofoca.

Embora a fofoca venha sempre disfarçada de uma ação repleta de boas intensões, seu principal objetivo é causar mais problemas do que os já existentes.

A fofoca deve ser banida de nossas vidas, devemos preferindo sempre um diálogo aberto, ponderado e responsável com as pessoas do nosso grupo social. Fica a dica!

Fonte da imagem: Arquivo do Ẹ̀kọ́ Èdè Yorùbá por Thonny Hawany

Referências:

BENISTE, José. Dicionário yorubá português. 2.Ed., Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2014.
JAGUN, Márcio de. Yorùbá: vocabulário temático do candomblé. Rio de Janeiro: Litteris: 2017.

sábado, 11 de julho de 2020

APRENDENDO YORÙBÁ E BOAS MANEIRAS: ÈKÉ

Por Thonny Hawany


O projeto “Aprendendo Yorùbá e Boas Maneiras” teve início com a palavra ejọ́ e, nesta postagem, terá continuidade trazendo algumas reflexões sobre a palavra èké que significa mentira, falsidade, fingimento e dissimulação.

Assim como o èjó, o èké é uma expressão da língua yorùbá, cujos significados, se praticados,  podem agir como uma overdose capaz de destruir as melhores relações interpessoais.

Èké é uma palavra que está no vocabulário popular de muitas pessoas. Não precisa ser de religião de matriz africana para saber o seu significado. Não é raro, ouvir alguém de fora dos terreiros dizer: “deixa de èké!”, ou seja: “deixa de mentira!”.

Como podemos perceber no card ao final desta postagem, o èké é um poderoso veneno antissocial, cujo antídoto está na verdade e somente ela é capaz de aniquilar os efeitos nocivos do èké.

Fonte da imagem: Arquivo do Ẹ̀kọ́ Èdè Yorùbá por Thonny Hawany

Referências:

BENISTE, José. Dicionário yorubá português. 2.Ed., Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2014.
JAGUN, Márcio de. Yorùbá: vocabulário temático do candomblé. Rio de Janeiro: Litteris: 2017.

sexta-feira, 10 de julho de 2020

APRENDENDO YORÙBÁ E BOAS MANEIRAS: ẸJỌ́

Por Thonny Hawany


"Aprendendo Yorùbá e Boas Maneiras" é um projeto que visa despertar reflexões a respeito de questões relativas à moral, à ética e aos bons costumes com enfoque especial para o Povo de Terreiro. Isso, de certo modo, justifica a escolha do título principal do projeto e a metodologia compreendida na definição de palavras escritas em língua yorùbá.

O projeto será composto de algumas etapas imprescindíveis, a saber: a) pesquisa de palavras da língua yorùbá relacionadas com os principais sentimentos humanos capazes de alterar os ânimos de indivíduos que se inter-relacionam em determinados grupos sociais; b) definição das expressões na forma de verbetes de dicionários; c) apresentação de uma reflexão do autor a respeito do tema (significado de cada palavra) e d) apresentação de uma possível solução para o problema suscitado.

Em síntese, o projeto será publicado na forma de cards contendo as informações básicas sobre as palavras e chamando os leitores para interagir com o autor a fim de provocar reflexões e mudanças de comportamentos. Escolher os cards como forma de apresentação do produto visou facilitar ao leitor a cópia da mensagem e sua disseminação em redes sociais.

Mãos à obra: a primeira palavra escolhida para iniciar o projeto “Aprendendo Yorùbá e Boas Maneiras” foi: ejọ́ que significa intriga, contenda, ação judicial. Esta palavra é, sem sombra de dúvidas, o carro-chefe do nosso projeto.

Fonte da imagem: Arquivo do Ẹ̀kọ́ Èdè Yorùbá por Thonny Hawany

Referências:

BENISTE, José. Dicionário yorubá português. 2.Ed., Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2014.
JAGUN, Márcio de. Yorùbá: vocabulário temático do candomblé. Rio de Janeiro: Litteris: 2017.

segunda-feira, 16 de março de 2020

ETÌPỌ́LÀ


Organizado por Thonny Hawany
O QUE É?

Etìpọ́là, de origem brasileira, é uma planta rasteira que pode crescer até 70 centímetros, denominada comumente de erva tostão e de pega-pinto. Suas folhas têm formato arredondado, são verdades acinzentadas ou esbranquiçadas. Segundo Santos (2014, p. 150), “ewé etìpọ́là é chamada de pega-pinto porque suas folhas pequeninas fixam-se nas penugens dos pintinhos, quando estes se aproximam delas. Apesar de ser considerada uma erva daninha, é uma planta com importantes virtudes medicinais.

DADOS IMPORTANTES:

Nome em yorùbá: ewé etìpọ́
Nomes populares: erva tostão, pega-pinto
Nome científico: Boerhaavia difussa L, Nyctaginaceae
Òrìsà(s) associados: Ọya, Ṣàngó
Elemento associado: fogo
Gênero: masculino
Significado sagrado: convite à reclusão, renascimento, purificação, prosperidade

ENCANTAMENTO (ORIN/ỌFỌ̀):

Ifà owó, ifà ọmọ
Ewé etìpọ́là wá fifa burù rú

TRADUÇÃO CONTEXTUAL:

Ifá é dinheiro, Ifá é filho.
A folha de etìpọ́là é abençoada por Ifá.

FUNÇÕES TERAPÊUTICAS:

Das raízes de etìpọ́là pode ser fabricado um vinho (garrafada) com importantes funções hepáticas e combate às afecções renais.

INFORMAÇÕES COMPLEMENTARES DO AUTOR:

1. A prosperidade e o progresso são a base do uso da ewé etìpọ́là nos ritos do Candomblé. Sem etìpọ́là não há garantia de que os ritos terão o completo progresso almejado inicialmente.
2. Etìpọ́là deve ser usado observando a dosagem visto que pode causar coceiras no caso de ser usado na forma de banhos.
3. Das raízes do etìpọ́là é feito um àṣẹ (pó) que serve para a consagração de tudo o quanto o yawo usará em sua iniciação.

REFERÊNCIAS:

BARROS, José Flávio Pessoa de e NAPOLEÃO. Ewé òrìṣà: uso litúrgico e terapêutico dos vegetais nas casas de candomblé jeje-nagô. 5.ed., Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2011.
SANTOS, Maria Stella de Azevedo. O que as folhas cantam (para quem canta filha. Brasília: INCTI, 2014.
VERGER, Pierre Fatumbi. Ewe: o uso das plantas na sociedade ioruba. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

Fonte da imagem: banco de fotos do autor

sábado, 14 de março de 2020

TẸ̀TẸ̀

Organizado por Thonny Hawany


O QUE É?

Segundo Santos (2014, p. 147), tẹ̣̀, o bredo branco, sem espinhos, “também nomeada caruru, é uma planta rica em ferro, potássio, cálcio e vitaminas A, B1, B2 e C, por isso ela tem sido resgatada na culinária que aproveita suas folhas e talos para fazer refogados, molhos, tortas, pastéis e panquecas; com suas sementes são feitos pães ou elas são, simplesmente, comidas torradas”. Apesar de todas essas propriedades, bredo é considerada uma erva daninha haja vista nascer com muita facilidade.

DADOS IMPORTANTES:

Nome em yorùbá: ewé tẹ̣̀
Nomes populares: bredo, bredo-sem-espinhos, caruru
Nome científico:  amaranthus viridis
Òrìsà(s) associado(s): Òsàlà e Ògún
Elemento associado: terra
Gênero: feminino
Significado sagrado: segurança, perseverança, otimismo, força, vitalidade, ânimo

ENCANTAMENTO (ORIN/ỌFỌ̀):

̣̣ kọ má tẹ o
Dání ṣò ni lẹ̀
̣̣ kọ má tẹ o
Dání ṣò ni lẹ̀

TRADUÇÃO CONTEXTUAL:

Bredo acorda sempre aquele que é indolente,
preguiçoso, sem ânimo.
Bredo dá segurança ao inseguro.

FUNÇÕES TERAPÊUTICAS:

Conforme a cultura de terreiro, o bredo/caruru é utilizado para combater infecções e também como auxiliar no tratamento de problemas relacionados com o fígado. Indica-se no combate às doenças relacionadas com os osso, dentes tendo em vista sua riqueza em cálcio.

INFORMAÇÕES COMPLEMENTARES DO AUTOR:

1. Ewé tẹ̣̀ é remédio espiritual quando utilizado nos banhos sagrados, é uma das primeiras folhas cantadas na preparação do àgbo (omí ẹ̣̀).
2. Como vimos acima, ewé tẹ̣̀ é remédio para o corpo, tendo em vista que alimenta, palia, auxilia e cura.
3. Ewé tẹ̣̀ é apenas um dos exemplos de quem nem tudo é erva daninha. Ao carpir nosso jardim, podemos estar nos desfazendo de importante alimento e/ou remédio.
4. Motivo pelo qual é classificada como erva daninha: ter muita semente e nascer em abundância. 

REFERÊNCIAS:

BARROS, José Flávio Pessoa de e NAPOLEÃO. Ewé òrìṣà: uso litúrgico e terapêutico dos vegetais nas casas de candomblé jeje-nagô. 5.ed., Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2011.
SANTOS, Maria Stella de Azevedo. O que as folhas cantam (para quem canta filha. Brasília: INCTI, 2014.
VERGER, Pierre Fatumbi. Ewe: o uso das plantas na sociedade ioruba. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

Fonte da imagem: banco de fotos do autor