Por Thonny Hawany
O HOMEM, ao competir entre si e com o
meio, modifica, sem pudor, a natureza, destrói o TUDO em nome do
"NADA". E nessa competição desatinada, chamada por ele mesmo de
natural, constrói sobre os alicerces da discórdia e da desigualdade um FIM para
o qual seguirá, a contragosto, como passageiro de uma carruagem embalada em si
bemol menor cujo condutor será o próprio Chopin.
Lentamente, a
humanidade arquiteta o seu grand final, uma espécie de holocausto, um
tributo a EGO – deus único e poderoso – em nome do qual se mata, segrega,
usurpa, bane, corrompe e se deixa corromper.
O crescimento violento e confuso,
aliado ao descontrole do ser e do parecer, conduz a humanidade ao globo da
morte num giro insólito misturado às notas de Beethoven e às pinceladas de
Salvador Dali em tela: “a morte segue o seu curso”.
Sob o bafejo do futuro que bramará em
fúria, ogivas nucleares cruzarão os ares, imperiosas, beijarão o solo e
interromperão com seu ósculo febril a ceia autofágica dos bilacs que teimam,
limam, sofrem e suam.
Revoarão os anjos e quando soarem as
trombetas emudecidas, o sol tornar-se-á pálido e ardente, não aquecerá,
queimará em brasas vivas. Ao homem esquelético e cancerígeno sobrará a
travessia nas negras águas do Aqueronte como passageiro no barco de Caronte
numa obra dantesca, nem tão divina, nem tão comédia.
As ações degeneradas e travestidas de
besta apocalíptica passarão e devastarão tudo como o maior dos tremores não
registrado pela escala Richter. A humanidade tombará consumida por sua obra
prima e se misturará aos outros animais em cadáveres. Em pinceladas
surrealistas, fauna e flora se juntarão, na mesma tela, compondo um todo
orgânico vomitado da inconsciente ironia de Dali e da utopia ilógica de Miró.
Aleluia! Dirão, em coro, duas mil e doze vezes os maias.
O sangue transpirado dos corpos
defuntos misturar-se-á ao pó. Os cabelos caídos como folhas secas
entrelaçar-se-ão à lama fétida. Olhos arregalados, rubros e temerosos, sem
choro, sem lágrimas, sem vida, sem NADA. Silêncio! Pés descalços, corpus nus
arrasados pelo poder do nêutron misturar-se-ão como peças de um quebra-cabeça
embaralhadas e perdidas num quadro de Picasso: Guernica.
Nem sequer vivem os abutres e os
chacais para desbastarem o montante carniçal. Estarão mortos diante do mais
farto banquete e, como o rei castigado no Tártaro por servir carne humana aos
deuses, jamais poderão degustá-lo. Insetos dos mais resistentes choverão por
terra como meteoritos no além do espaço celestial. Mesclar-se-ão homens,
abutres e chacais no mesmo leito da cissiparidade: célula por célula.
Não haverá cercas, donos, latifúndios,
GULA. Não haverá edifícios, mansões, castelos, barracos, INVEJA. Não haverá
ricos, pobres, LUXÚRIA. Não haverá brancos, negros, amarelos, pardos, IRA. Não
haverá católicos, mulçumanos, protestantes, espíritas, incrédulos, ateus,
SOBERBA. Não haverá homens, mulheres, velhos, crianças, MELANCOLIA. Não haverá
labor, descanso, PREGUIÇA. Não haverá HOMEM para se curvar diante do império da
microbioespécie.
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