Mostrando postagens com marcador LETRAS. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador LETRAS. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

GEISY EMILIANA NUM RETORNO TRIUNFANTE DO EGRESSO À ACADEMIA - UNESC - CACOAL - RONDÔNIA

Por Thonny Hawany

A ex-acadêmica, professora e artista plástica, Geisy Emiliana, a convite do Curso de Letras, ministrou palestra-aula para os alunos do 2º período com o tema “Espaço e Fragmento na Poética de Murilo Mendes e Pintura de Pablo Picasso: um recorte em Guernica”, na sexta-feira, dia 12 de novembro de 2010, nas dependências das Faculdades Integradas de Cacoal - UNESC.

Geisy Emiliana é egressa da última turma de Letras Vernáculas da UNESC e se formou em 2007. Desde então, tem se dedicado ao magistério fundamental e médio como importante professora de Língua Portuguesa no Município de Cacoal-RO. O sucesso de Geisy Emiliana, como professora de língua e linguagens, deve-se à forma como ela alia os conteúdos de linguística à literatura e à arte, tudo isso com uma forte dose de bom humor e autenticidade.

Geisy Emiliana iniciou a palestra-aula falando com entusiasmo do seu tempo de graduação, dando destaque especial para o trabalho de conclusão de curso, no qual ela analisou e comparou as homologias existentes em Guernica de Murilo Mendes (poesia) e em Guernica de Plablo Picasso (pintura), tudo feito à luz da Semiótica peirceana.

Sob o olhar atendo de ex-professores e dos alunos do segundo Letras, Geisy Emiliana apresentou, inicialmente, algumas definições teóricas e considerações a respeito da Semiótica, dos autores e das obras escolhidas para a análise; na sequência, falou, longamente, a respeito do contexto histórico que serviu como base para a inspiração de Murilo Mendes e Pablo Picasso ao esculpir em palavras (um) e em imagens (o outro), cada um a seu modo, a guerra civil espanhola ocorrida a 26 de abril de 1937 e comandada pelo general Franco.

No auge da palestra, usando os métodos dedutivo e indutivo, Geisy analisou, com muita segurança, as duas obras (Guernica de Murilo Mendes e de Pablo Picasso), sem perder de vista um agradável diálogo e a interação com os alunos que a tudo assistiram entusiasmados.

Segundo o professor Rômulo Giácome, coordenador, a prática de interagir o aluno egresso com os alunos em curso será uma atividade constante e efetiva do Curso de Letras com o objetivo de oportunizar ao egresso um retorno triunfal à faculdade e ao aluno em curso, a possibilidade de ver no egresso o seu amanhã de sucesso.

Para a professora Regiane Leal Dalla Martha Couto, também ex-acadêmica e atual professora do curso, o retorno do egresso nas atividades de ensino, pesquisa e extensão constitui enorme benefício para a IES. A interação do egresso com os alunos ingressantes produz bons resultados para ambos.

O professor Antônio Carlos da Silva, há 12 anos como professor do curso, afirmou que sempre acredita no potencial dos egressos formados pela UNESC e define a participação da professora Geisy Emiliana em sua aula de Práticas Metodológicas de Leitura e Produção Textual como o reflexo positivo do esforço comum entre agentes administrativos, corpo docente e comunidade acadêmica em dar efetividade à missão humanística cimentada no Projeto Pedagógico da IES.

O acadêmico do segundo período de Letras e também teólogo, Jefrson Rodrigues Sartori, vê o retorno do egresso ao ambiente acadêmico como um intercâmbio de benefícios, ou seja: tanto é bom para o aluno em curso, quando para o profissional egresso; para este, pelo retorno à atmosfera acadêmica e para aquele, o aluno egresso bem sucedido pode significar um modelo a ser seguido. É na verdade “de suma importância” para as duas partes. “As aulas, palestras, entrevistas e relatos dos profissionais egressos constituem um elemento de motivação para o aluno ingressante”, emenda Jefrson.

O Projeto de Retorno do Egresso à IES deverá ser uma constante em 2011 no curso de Letras, haja vista a experiência positiva com a palestra-aula “Espaço e Fragmento na Poética de Murilo Mendes e Pintura de Pablo Picasso: um recorte em Guernica” ministrada pela ex-acadêmica e atual professora da educação básica Geisy Emiliana.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

AS TEORIAS DO SIGNO E AS SIGNIFICAÇÕES LINGUÍSTICAS

Por Thonny Hawany

RESUMO: O presente artigo tem como principal objetivo apresentar um painel de resultados obtidos a partir de estudos feitos sobre o signo e suas diversas significações lingüísticas, com base nas teorias de Saussure, Hjelmslev, Barthes, Borba, Peirce, Guiraud, Greimas, Bakhtin e Vigotsky, a fim de que seja possível verificar a importância que têm o signo e suas emanações no estudo e na compreensão da linguagem como elemento implementador das aspirações lingüísticas e sócio-psico-ideológicas do homem.
PALAVRAS-CHAVE: signo, significante, significado, significação, semiótica, semântica.

ABSTRACT: The present article shows a panel of results obtained from sign studies and its several theoretical linguistic meanings by Saussure, Hjelmslev, Borba, Pierce, Guiraud, Greimas, Bakhtin and Vigotsky; whereby, it can verify the importance of signs and their emanations towards researches and understanding language as an enabling element to linguistics aspirations and human social-psycho-ideological.
KEY-WORDS: sign, significant, significance, signification, semiotics, semantics.

1 Reflexão sobre os fundamentos semânticos e semióticos:

Tendo em vista o estudo das diversas teorias do signo e suas significações, faz-se necessária uma reflexão prévia sobre os fundamentos da Semântica e da Semiótica; bem como as relações que cada uma delas tem com o tema em questão, o signo lingüístico.

1.1 O método semiótico tem por conceito fundamental o estudo do signo que, conforme Saussure (2001), apresenta um primeiro elemento chamado significante, caracterizado não por sua natureza material, mas como a imagem acústica, a impressão psíquica do som, que pode desencadear um outro fenômeno psico-semiológico, o significado, o segundo elemento constituinte do signo.

Saussure (2001), em seu Cours de Linguistique Générale, diz que a língua é o mais importante dos sistemas de signos. Ele a considera o mais complexo e o mais utilizado dentre os chamados sistemas de expressões sígnicas, mesmo sendo a língua, para ele, apenas uma parte do universo semiológico. Ainda para Saussure, existe uma ciência geral dos signos, da qual a Lingüística poderia ser tão somente uma subdivisão, questão que será por nós elucidada com o apoio de Roland Barthes.

Para Charles Sanders Peirce (2000), a semiótica é constituída em três níveis: o sintático, o semântico e o pragmático. O primeiro revela a relação que o signo tem com o seu interpretante, o segundo diz respeito à relação existente entre o signo e o seu referente (objeto) e o último se importa com a relação do signo com ele mesmo e com outros signos.

É perfeitamente perceptível que a sociedade atual organiza-se em torno de um grande e poderoso universo de signos, diga-se de passagem bastante complexo. De igual modo, é também perceptível o estado absoluto em que se portam a linguagem humana e seus signos de valor incondicional. Conforme Barthes (1991), nenhum outro sistema com a mesma complexidade e grandeza foi observado em nosso espaço e tempo.

Dada a complexidade da linguagem humana, seus signos e respectivas significações, Roland Barthes, além de definir a semiótica como sendo a ciência que se ocupa do estudo de qualquer sistema de signo, considerando suas substâncias e/ou limites, também refuta Saussure, quando diz que: “A Lingüística não é uma parte, mesmo privilegiada, da ciência dos signos: a Semiologia é que é uma parte da Lingüística; mais precisamente, a parte que se encarregaria das grandes unidades significantes do discurso” (BARTHES, 1991, p. 13).

Embora acreditando que possa ser muito maior o universo do método semiológico, tomaremos como suporte os elementos de Roland Barthes, como sendo bastantes, a priori, para subtraírem da Lingüística cada uma das substâncias básicas e necessárias “para permitir a preparação da pesquisa semiológica” (BARTHES, 1991, p. 13). Os Elementos de Semiologia foram agrupados por Barthes da seguinte maneira: I. Língua e Fala; II. Significante e Significado; III. Sintagma e Sistema e IV. Denotação e Conotação.

Assim sendo, torna-se possível perceber que o referido método de análise semiótica é binário e trabalha com a idéia dicotômica dos elementos que, aparentemente distintos, completam-se para formar o todo discursivo, dada a natureza dialética existente entre eles.

1.2 Para definir o método semântico, necessário se faz antes definir semântica. Segundo Pierre Guiraud (1980, p. 7), “semântica é o estudo do sentido das palavras”.

Guiraud (1980) apresenta três ordens principais de problemas que a semântica tem que resolver em relação às análises dos diversos significados: primeiramente, um problema psicológico – nesse caso ela deve solucionar questões e dar respostas a perguntas que elucidam o signo e as relações intrínsecas do espírito dos interlocutores de um discurso quando se comunicam; o segundo problema refere-se à lógica. Aqui, a semântica precisa apresentar argumentos que dizem respeito à relação entre o signo e o meio no qual ele é empregado. Deve descrever a situação propícia para um signo ser aplicado e o que ele deve significar necessariamente quando relacionado com um objeto no tempo e no espaço. Por último, a semântica deve solucionar os problemas lingüísticos concernentes à significação, e estes são muitos, haja vista a complexidade dos sistemas sígnicos, suas funções e formas.

A Semântica, conforme Guiraud, tem sido instrumento de três ciências distintas: da psicologia, da lógica e da lingüística. O que neste trabalho nos interessa é o fato dela constituir valioso instrumento para os estudos e análises dos sentidos e das significações no âmbito da linguagem humana.

Assim sendo, “nossa ciência, assim definida, recobra um campo tão vasto que, mesmo confinado aos estritos limites da língua, ultrapassa as fronteiras da lógica, da psicologia, da teoria do conhecimento, da sociologia, da história etc.” (GUIRAUD, 1980, p. 12).

2 O Signo:

É possível dizer que qualquer objeto, som, palavra capaz de representar outra coisa constitui signo. Na vida moderna, todos nós dependemos do signo para vivermos e interagirmos com o meio no qual estamos inseridos. Para o homem comum, a noção de signo e suas relações não são importantes do ponto de vista teórico, mas ele os entende de maneira prática e precisa. A utilidade do signo vai além do que imaginamos: ao dirigirmos, por exemplo, precisamos constantemente ler e analisar discursos transmitidos pelas placas de trânsito, pelas luzes do semáforo, pelas reações do veículo ao meio ambiente etc. O homem intelectualizado não vive sem o signo, precisa dele para entender o mundo, a si mesmo e às pessoas com as quais mantém relações humanas.

As noções de signo são muito mais amplas e discutíveis do que podemos imaginar; todavia, no presente trabalho nos limitaremos à análise de algumas considerações referentes ao signo lingüístico que, doravante, constituirá o nosso principal objeto de estudo.

2.1 O signo dicotômico de Saussure:



Para Saussure (2001, p. 80-1), “o signo lingüístico é, pois, uma entidade psíquica de duas faces”, é ainda “a combinação do conceito e da imagem acústica”. Para entender melhor analisemos o gráfico abaixo:

Fig. 01:
Embora as palavras conceito e imagem possam designar oposição, Saussure resolveu substituí-las por significado e significante, acreditando que tais palavras pudessem expressar com maior clareza a idéia de oposição entre os principais elementos do signo: conceito e imagem. Para facilitar a compreensão, apresentaremos mais um gráfico abaixo:


Fig. 02:
O significante é a apresentação física do signo, de forma sonora e/ou imagética. Se considerarmos o exemplo dado no gráfico acima, diremos que a imagem acústica da palavra “sapo” é o significante para todos os fins.

O significado é o conceito que permite a formação da imagem na mente de um indivíduo quando ele entra em contato com o significante; portanto, a representação do sapo na figura 02 é o que podemos chamar de significado.

Com isto é possível dizer que o signo é o resultado de um conjunto de relações mentais. Há em cada signo uma idéia ou várias idéias, de acordo com o contexto, com a leitura ou com o leitor e seu estado emocional. O signo, para Saussure, é um elemento binomial, a sua natureza é dicotômica. O significado e o significante traduzem as pontas da bifurcação do signo, agem dialeticamente, embora sua relação de reciprocidade seja considerada pelo próprio Saussure como arbitrária. Não é possível admitir a existência do significante sem o significado e vice-versa, assim como não é possível estabelecer ou definir um elemento de relação objetiva entre o conceito e sua imagem acústica. Para explicitar melhor o nosso raciocínio, tomaremos como elemento de inteligibilidade o exemplo que se segue: o animal classificado como batráquio da ordem dos anuros que, como a maioria dos anfíbios, desenvolve-se na água, apresentando, quase sempre, na fase adulta, hábitos terrestres, só procurando a água na época da reprodução, poderia ter outro conceito diferente daquele atribuído a si: sapo. Qual é a relação entre a imagem acústica e o conceito? São questionamentos como esses que realçam e justificam a idéia de arbitrariedade do signo lingüístico. Esta questão da arbitrariedade, por sua complexidade e excelência, merece ser tratada num trabalho posterior a este que se predestina, tão somente, a estabelecer as diversas visões sobre o signo lingüístico e suas significações.

2.2 O signo e suas significações em Hjelmslev:

Embora a teoria do signo vista pela óptica de Saussure parecesse suficiente para a análise dos elementos sígnicos do discurso, ao longo dos tempos percebeu-se que o significante e o significado sem a significação que o contexto lhes atribui não poderiam, por eles mesmos, responsabilizar-se por uma análise absolutamente perfeita. Por isso é que a seguir apresentaremos a teoria das significações, vista em seu teorizador. Para Hjelmslev (1975, p. 49), o signo que representa algo, tradicionalmente considerado, “é de definição realista e imprecisa”, haja vista que a natureza das significações pode alcançar profundidades interpretativas e analíticas muito mais extensas e extraordinárias que aquela apresentada pela lingüística tradicional. Para Hjelmslev, o signo que se define por uma função é um signo que se opõe a um não-signo, ou seja, é um signo que funciona, que designa e que significa, é, acima de tudo, “um signo portador de uma significação” (HJELMSLEV, 1975, p. 49).

O signo não pode ser considerado um elemento de natureza vazia, ou seja, um signo frívolo, sem significação. Os signos, quando analisados fora de um contexto, são apenas signos que nada ou quase nada significam, tendo em vista que sua máxima realização dá-se pela relação que mantêm com outros signos dentro de um dado contexto. Uma palavra pode ser considerada o contexto de um signo menor que ela, mas que, por sua natureza significativa e pela organização e relação que estabelece com outros signos menores, pode significar tanto quanto, ou muito mais que uma palavra quando empregada como elemento menor de um contexto maior que a sua natureza. Veja o que diz Hjelmslev: “as palavras não são os signos últimos, irredutíveis, da linguagem, tal como podia deixá-lo supor o imenso interesse que a lingüística tradicional dedica à palavra. As palavras deixam-se analisar em partes que são igualmente portadoras de significações: radicais sufixos de derivação e desinências flexionais. (HJELMSLEV, 1975, p. 49).

Com base no exposto, podemos fazer a seguinte análise: a forma verbal “estudássemos” é um signo menor em relação ao contexto a que pode pertencer, ou seja, quando empregada na frase, a exemplo: “Se estudássemos mais, passaríamos nos exames”. A frase, nesse caso, é um signo maior em relação à palavra “estudássemos”, que pode ser entendida como o contexto de signos menores contidos nela. Veja: em (estud-á-sse-mos), da esquerda para a direita, podemos classificar os elementos significativos da palavra e apresentar a significação contida em cada um deles. O primeiro elemento significativo classifica-se como radical e contém a significação lexical do ato de aplicar a inteligência; o segundo é a vogal temática e tem como função indicar a que conjugação pertence o verbo; a terceira é a desinência verbal modo-temporal e tem como função a indicação do tempo pretérito e do modo subjuntivo, expressando, portanto, uma ação hipotética que poderia ocorrer no passado; finalmente, o quarta elemento significativo é também uma desinência verbal, cuja função é expressar o número e a pessoa do discurso.

A idéia da significação fica mais clara quando analisamos um dado signo fora e dentro do seu contexto. Tomando a palavra manga como corpus, podemos ver que nem sempre é possível relacionar o signo a sua significação, tendo em vista o seu esvaziamento de sentido, em virtude do emprego solitário. Manga, em língua portuguesa, é uma palavra que pode ter, dentro de um dado contexto, significação diferente daquela que teria quando aplicada em outros contextos. A manga, peça do vestuário é diferente de manga, o fruto que também é diferente de manga, a terceira pessoa do presente do indicativo do verbo mangar. Outras incidências significativas do signo manga poderão ser observadas mais adiante quando trataremos do signo em Borba. Sobre o assunto, Hjelmslev diz que: “considerado isoladamente, signo algum tem significação. Toda significação de signo nasce de um contexto, quer entendamos por isso um contexto de situação ou um contexto explícito, [...]. É necessário, assim abster-se de acreditar que um substantivo está mais carregado de sentido do que uma preposição, ou que uma palavra está mais carregada de significação do que um sufixo de derivação ou uma terminação flexional. (HJELMSLEV, 1975, p. 50)

É bom ressaltar aqui que os fonemas e as sílabas não podem ser considerados como elementos significativos, ou seja, como expressões de signos. Hjelmslev (1975) trata-os como partes das expressões de signos e mais tarde, em sua teoria, denomina-os formas. Segmentando a palavra meninas em menin-a-s, o “a” e o “s” são fonemas, mas também são desinências nominais que indicam, respectivamente, o gênero feminino e o número plural do substantivo. Já na palavra sapo, o /s/ e o /a/ são apenas fonemas, não podendo, portanto, ser considerados expressões de signos, mas tão somente partes de uma expressão de signo. Hjelmslev pensa a respeita que: “tais considerações levam-nos ao abandono de uma tentativa de análise em “signos”, e somos levados a reconhecer que uma descrição que esteja de acordo com nossos princípios deve analisar conteúdo e expressão separadamente, cada uma destas análises isolando finalmente um número limitado de grandezas que não são necessariamente suscetíveis de serem comparadas com as grandezas do plano oposto. (HJELMSLEV, 1975, p. 51).

Por fim, Hjelmslev considera que uma língua, dada a sua natureza significativa muito mais complexa e subjetiva do que aquilo que se imagina, não deve ser pensada como um sistema de signos, tendo em vista a sua riqueza em sistemas de figuras que, antes de qualquer coisa, serviriam para formar signos. Dizer que a linguagem é um sistema de signos é desconsiderar a sua essência mais profunda, é deixar de mergulhar nas micro-significações desencadeadoras das macro-significações contextuais que, ao longo dos tempos, responsabilizaram-se pelos registros e pelas transformações do homem em sociedade e em si mesmo.

2.3 O signo em Roland Barthes:

Inicialmente, para Barthes, o signo é composto de um significante e de um significado, conforme prenunciou Saussure, e ele acrescenta que “o plano dos significantes constitui o plano de expressão e o dos significados o plano de conteúdo” (BARTHES, 1991, p. 43).

2.3.1 Barthes (1991) define o significado como a representação psíquica de uma “coisa” e não a “coisa” em si. Para fundamentar isso ele retoma Saussure, queste chamou primeiramente o significado de conceito, reconhecendo aí o valor psíquico que ele intrinsecamente carrega. Para clarear ainda mais o raciocínio de Barthes, tomaremos como exemplo a famosa pintura: A traição das imagens de René Magritte:

Fig. 03

Ceci n’est pas une pipe. E de fato não é um cachimbo. A mente pode trair os que não lêem os signos como devem ser lidos. O significado da palavra cachimbo não é o objeto cachimbo, mas a representação gráfica do objeto, sua imagem psíquica. O significado expresso no quadro de Magritte pode ser lido e segmentado de várias maneiras, conforme as diferenças culturais de um dado leitor. Com base nisso, tomaremos Barthes novamente quando diz que “vários corpos de significados podem coexistir num mesmo indivíduo, determinando, em cada um, leituras mais ou menos ‘profundas’”. (BARTHES, 1991, p. 47).

2.3.2 Para Barthes (1991), o significante pode ser analisado com as mesmas observações que ele coloca para o significado, apenas com a diferença de ser o significante um elemento mediador que se comporta como gerador, ou seja, materializador da figura do objeto, o significado.

2.3.3 Por fim, Barthes (1991, p. 52) diz que “a significação pode ser concebida como um processo; é o ato que une o significante e o significado, ato cujo produto é o signo”. A significação, como elo de ligação entre o significante e o significado, não constitui uma teoria nova, ou seja, quando Barthes discute o assunto embasa-se em autores que o discutiram anteriormente, a exemplo de Hjelmslev e Lacan, retomado por Laplanche e Laclair.

Assim como o significado é o conceito do signo e o significante a sua representação acústica, a significação é, em tese, o fator psico-sindético entre eles. Todo significante pode ter o seu significado prognosticado, de modo falso e/ou verdadeiro; todavia, isso não pode constituir exatidão, pois a perfeita relação entre o significante e o significado só será verificada em parte pelo contexto, em parte porque outros fatores deverão ser levados em conta, tais como as relações extralingüísticas espaço/tempo e sintonia entre interlocutores. Para esclarecer melhor o que estamos demonstrando, daremos o seguinte exemplo: no campo das metáforas, da homonímia e das polissemias, encontramos férteis modelos. Vejamos:

CAVALO – Campo das metáforas e comparações:

(1) Ele compareceu montado no belo cavalo.
(2) Ele é um cavalo pela atitude que tomou.

MENTE – Campo das homonímias

(1) Rastreou a própria mente e nela nada encontrou.
(2) Por não saber da verdade, ela mente.

DOBRAR – Campo das polissemias

(1) Dobrou apenas uma folha de papel e acreditou estar cansado.
(2) Mal dobrou a esquina, enfartou, caiu e morreu.

Segundo Barthes (1991) o signo tem caráter arbitrário e só se realiza por associação nos atos de fala. Nos três exemplos dados, as palavras cavalo, mente e dobrar isoladamente não poderiam ser realizadas lingüisticamente, mas, quando aplicadas dentro de um dado contexto, elas ganharam o que estamos aqui chamando de significação, ou seja, o significado e o significante harmonizaram-se, convergiram.

Podemos dizer que a significação é o elo entre o significante e o significado, ou que a significação é a fusão do significante ao significado por meio de um contexto bem definido. E com isso, concluímos mais um tópico deste trabalho, ao apresentarmos a visão de Barthes a respeito do signo.

2.4 O signo contextualizado de Borba:


“O signo lingüístico transmite (ou veicula) uma informação servindo-se de uma parte material e perceptível associada a uma parte imaterial e inteligível. A parte sensível é o significante e a parte não sensível é o significado.” (BORBA, 1998, p. 19).
Como podemos observar na citação anterior, para Borba o signo é um elemento de cunho primordial na veiculação do discurso lingüístico e também se apresenta de forma binomial, ou seja, divide-se em significante e significado. Assim: “o signo também é arbitrário na medida em que cada sistema lingüístico adota como pertinentes ou não determinadas características que constituirão as classes de significantes e significados que utiliza. (BORBA, 1998, p. 19)

Nesta questão da arbitrariedade do signo, Borba concorda com Saussure, mas acredita na indissolubilidade das formas lingüísticas, uma vez que “o significante sem o significado é apenas um objeto, que existe, mas não significa e o significante sem o significado é indizível, impensável e inexistente”. (BORBA, 1998, p. 19)

Enquanto Saussure trata do signo como um elemento em si mesmo sem apresentar suas características discursivas, Borba trata da sistematização do signo, ou seja, ele diz que nenhuma palavra em “estado de dicionário” apresenta valor discursivo, mesmo comportando as suas significações lingüísticas: significante e significado.

O signo analisado isoladamente é um elemento hermético, mas quando é aplicado dentro de um contexto, seu significante ganha, além de um significado, a competência de poder significar mais de um significado de acordo com as exigências discursivas:

(1) Fui à feira e comprei uma gigantesca manga-rosa.
(2) Ele conseguiu rasgar a manga da camisa.
(3) Os bois foram levados para a manga do alagadiço.
(4) Por sua natureza escarnecedora, André manga de todos os amigos.
(5) Marta usou uma grande manga para aguar o jardim.
(6) Não conseguiu passar o pavio na manga do lampião.
(7) Nenhum resíduo passou com o licor, graças à eficiência da manga.
(8) Ao longe, era possível ver uma manga de soldados.
(9) Mandaram-no trocar apenas a manga do eixo, mas nada fez o dia todo.
(10) Estava na estrada e foi surpreendido por uma manga de chuva que o acabou ensopando.

Se o nosso objetivo aqui fosse apresentar os diversos significados da palavra manga, certamente, encontraríamos muito mais que os apresentados acima. Mas analisando cada significante destacado nos enunciados acima, é possível perceber, com clareza, a existência de um significante para dez diferentes significados. No primeiro caso o significante manga refere-se ao fruto da mangueira; no segundo, tem referência direta com a parte do vestuário que cobre os braços; em (3), refere-se a uma roça de capim, onde bovinos, eqüinos, ovinos, asininos e caprinos pastam; em (4), trata-se da terceira pessoa do singular do verbo mangar; em (5), manga é o mesmo que mangueira; em (6), refere-se a uma peça do lampião por onde passa o pavio; em (07), trata-se de um filtro cônico para filtrar líquidos; em (8), pode significar grupo, ajuntamento, turma; em (9), significa peça do motor que se localiza na caixa de graxa e em (10) o significante tem como significado uma tromba d’água.

Com isso, é possível perceber que o valor do signo transcende as significações dicotômicas de Saussure. É perfeitamente perceptível o valor discursivo do signo, quando analisado além do significante e do significado. O signo, ao interagir com outros signos, dentro de um dado contexto, pode, na sua explosão máxima, emitir as mais diversas e surpreendentes significações, além de outras desejadas pelo emissor.

Por fim, vale ainda ressaltar que o signo pode ser analisado segundo três aspectos básicos. São eles: o sintático, o semântico e o pragmático.

O sintático responsabiliza-se pela relação diplomática dos signos dentro de um contexto, possibilitando, desta forma, ver que nenhum signo existe por si e em si mesmo. “Um signo só funciona quando ajuda o intérprete a explicar algo e isso só pode ser expresso com referência a outros signos” (BORBA, 1998, p. 21).

O valor semântico do signo dá-se pela relação sintática que ele exerce com outro signo dentro do contexto, e tal relação deve ser a mais harmônica possível. “A semântica focaliza a relação dos signos com os objetos que eles realmente denotam ou podem denotar” (BORBA, 1998, p. 21).

Para Borba (1998, p. 21), “a pragmática trata da relação dos signos com seus intérpretes”. O valor pragmático do signo está intimamente relacionado com a forma de interação que ele apresenta, ao ser proferido ou captado, com os interlocutores de um dado discurso.

Em síntese, o signo é o fio alimentador de uma teia chamada discurso. O signo deve ser organizado e relacionado sintaticamente com outros signos, com o intuito de comportar significações semânticas desejadas pelo discurso inicial; bem como ser permeado de intenções pragmáticas, objetivadas pelo discurso final, pleno e ideológico.

2.5 O signo tricotômico de Peirce, lido em Peirce e em Walther-Bense:

2.5.1 O signo e suas relações triádicas:

Para Peirce (2000, p. 46): “Um signo, ou representâmen, é aquilo que, sob certo aspecto ou modo, representa algo para alguém.”
A teoria do signo em Peirce é uma renovação de tudo o quanto já foi discutido e teorizado em relação ao assunto. A idéia do signo pelo signo e do significante que tem um certo significado fica obsoleta quando Peirce analisa o representâmen segundo as suas relações triádicas: o representâmen, o objeto e o interpretante.

Conforme Peirce (2000), o representâmen é o signo primeiro, pode-se dizer que é o signo como tal, o objeto é a representação do signo e o interpretante a consciência intérprete do signo, ou seja, o seu significado. Todo signo gera um outro signo fruto da mente e é isto que Peirce chama de interpretante.

Walther-Bense (2000, p. 4), ao discorrer sobre a teoria de base de Peirce, no capítulo “O signo como relação triádica”, em sua obra A Teoria Geral dos Signos, diz: “Um signo é, portanto, uma tríade de referências, ou uma relação triádica. Se esse algo não apresenta essas três referências, então não se trata de um signo completo.”

A fim de criarmos uma representação visual das relações triádicas do signo em Peirce, tomaremos as fórmulas de Max Bense e a interpretação de Walther-Bense, as quais se seguem respectivamente em (01) e (02).

(01) S = R (M, O, I)
(02) RS = [(M ==> O) ==> I] ou então
        RS = (M ==> O. ==> I)

Na representação (01) de Max Bense, a fórmula deve ser lida da seguinte maneira: o signo (S) é igual às relações do signo em si mesmo (M), em seu objeto (O) e em seu interpretante (I). Já para Walther-Bense, a fórmula deve ser lida: A relação sígnica (RS) é igual a (M), o signo como tal, que gera (O), a “referência ao objeto”, que gera (I), o interpretante.

Para justificar as relações anteriormente expostas e a máxima obediência à ordem seqüencial das fórmulas, Walther-Bense afirma: “Com essa escrita fica de pronto evidente que a relação sígnica deve ser concebida como uma “tríade ordenada” e que esse ordenamento não deve ser transgredido. Por outro lado, fica evidente que a referência ao meio representa uma primaridade, a referência ao objeto uma secundaridade, a referência ao interpretante uma terciaridade. Com base nisso também podemos dessumir: nenhum signo é independente de um interpretante, isto é de um intérprete, ou melhor, apenas um intérprete pode introduzir, propor uma signo ou explicar algo como signo. (2000, p.5)

2.5.2 A primeira tricotomia do signo:

Peirce divide o estudo dos signos em ramos diferentes para fins de análise: a primeira tricotomia trata do signo em si mesmo, a segunda refere-se às relações que o signo tem com o seu objeto e a terceira apresenta as relações entre o signo e o seu interpretante.

A primeira tricotomia é aquela em que o signo funciona com referência ao meio e está dividida seqüencialmente em três partes chamadas por Peirce de quali-signo, sin-signo e legi-signo.

2.5.2.1 O quali-signo (qualidade), segundo Peirce (2000), refere-se aos aspetos qualitativos do signo. Cada estado material do signo ou cada fenômeno, que nele tem a função de apresentar um caráter, é um quali-signo. Quando mudamos a dimensão, a cor, o volume de um dado signo, o quali-signo nunca é o mesmo, o que podemos deduzir: com a mudança de um quali-signo, o signo sofre alterações e passa a ser um signo novo, ou seja, semelhante ao primeiro e não ele mesmo. Para clarear, tomemos como exemplo as cores: o preto, na maioria das culturas ocidentais, indica luto, assim como o branco representa a paz. O quali-signo possui aspetos sensoriais, pois pode ser percebido gustativa, olfativa, tátil, auditiva e visualmente. Vejamos um outro exemplo: uma maçã vermelha e aparentemente cheia de viço é um fruto próprio para o consumo; já a mesma maçã murcha e de tonalidade escurecida não deixa de ser maçã, mas é uma maçã podre e imprópria para o consumo. Este fenômeno pode ser percebido olfativa e visualmente.

2.5.2.2 O sin-signo (singularidade) está, conforme Peirce (2000), relacionado com a permanência do signo no espaço e no tempo. Todo signo é particular, é autônomo, porque goza de leis próprias para a sua organização e potencial de significação. Veja o que afirma Walther-Bense: “o signo depende de determinados quali-signos implicados tanto no espaço quanto no tempo. Por exemplo, determinada palavra numa linha determinada de uma determinada página de um determinado livro é um sin-signo, ainda que existam 10.000 exemplares desse livro no qual ela apareça. (2000, p. 12).

2.5.2.3 O legi-signo (lei), em Peirce, é o signo empregado consoante as normas que o regem. Trata-se da convenção do signo num dado tempo e espaço. Para exemplificar o legi-signo, podemos tomar as palavras de Walther-Bense: “são signos usados segundo as normas, por exemplo, as letras do alfabeto de uma língua, as palavras de uma língua, os signos matemáticos, químicos, lógicos nas ciências, os sinais de trânsito, os signos meteorológicos, os da rosa dos ventos, os algarismos do relógio, os graus dos termômetros. (2000, p. 13).

2.5.3 A segunda tricotomia do signo:

Na sua segunda tricotomia, Peirce (2000, p. 52) apresenta o signo que pode ser denominado como ícone, índice ou símbolo.

2.5.3.1 O ícone segundo Peirce (2000, p. 52) “é um signo que se refere ao objeto que denota apenas em virtude de seus caracteres próprios, caracteres que ele igualmente possui quer um tal objeto realmente exista ou não”.A palavra ícone vem do grego e quer dizer imagem, por isso, quando representamos algo por meio de uma imagem (desenho), estamos utilizando um ícone. Como exemplo, podemos tomar certas placas de trânsito icônicas, ou seja, aquelas que representam travessia de pedestres (um homem estilizado dando um passo a frete), linha férrea (imagem dos dormentes cruzados por duas linhas paralelas). Conforme Walther-Bense (2000, p. 15), “são signos icônicos, por exemplo, os retratos, os padrões, as estruturas, os modelos, os esquemas, os diagramas, as metáforas, as comparações, as figuras, as formas (lógicas, poéticas etc)”.

2.5.3.2 O índice, conforme Peirce (2000, p. 52), “é um signo que se refere ao objeto que denota em virtude de ser realmente afetado por esse objeto”. O índice é, portanto, um signo de referência a um dado objeto e/ou objetivo. Um bom exemplo disso é o dedo indicador da mão que é usado para fazer uma referência direta a alguém ou a alguma coisa. Trata-se da indicação de um caminho no espaço e no tempo. O marcador de páginas de um livro é o indicativo da página em que você parou de ler ou marcou para encontrar algo importante, isto é um índice. Podemos ainda mencionar as placas de trânsito de indicação viária (setas), o pisca-pisca dos automóveis que são usados como indicativo do movimento escolhido pelo motorista para virar, se para a direita ou para a esquerda. O índice de uma dada obra é o indicativo dos conteúdos e as páginas em que estão. No tempo, como índices referenciais, podemos fazer menção à importância que têm as datas em relação aos acontecimentos: 22 de abril de 1500 é um índice em relação ao descobrimento do Brasil pelos portugueses.

2.5.3.3 O símbolo para Peirce (2000, p. 52) “é um signo que se refere ao objeto que denota em virtude de uma lei, normalmente uma associação de idéias gerais que opera no sentido de fazer com que o símbolo seja interpretado como se referindo àquele objeto”. Vezes e vezes, o objeto não parece com sua representação; a associação do signo ao objeto geralmente é instituída ao longo do tempo, por meio de uma assimilação cultural. Numa rodovia, o motorista, ao ler uma placa de indicação viária, está fazendo a leitura de um índice, mas se ao lado da placa for vista por ele uma cruz, estará fazendo a leitura de um símbolo. A cruz está simbolicamente relacionada à morte. O motorista poderá entender que naquele lugar ocorreu uma morte.

2.5.4 A terceira tricotomia do signo:

A terceira tricotomia de Peirce diz respeito ao interpretante. Todo signo está para um objeto, assim como todo objeto está interpretante para um intérprete. A última das três tricotomias está em Peirce dividida da seguinte forma: rema, dicente e argumento.

2.5.4.1 Em Peirce (2000, p. 43), um “rema (signo singular) é um signo que, para seu interpretante, é um signo de possibilidade qualitativa, ou seja, é entendido como representando esta e aquela espécie de objeto possível”. Como elemento clareador do rema, podemos dizer que na frase As rosas são vermelhas, o predicativo – são vermelhas – é um rema, pois trata-se da interpretação que o intérprete faz de uma qualidade singular do signo.

2.5.4.2 Ainda para Peirce (2000, p. 52), “um signo dicente é um signo que, para seu interpretante, é um signo de existência real”. Para esclarecer melhor a idéia do signo dicente, tomaremos as palavras de Walther-Bense (2000, p. 52): “Na arquitetura, a fachada de um prédio, que representa efetivamente uma unidade fechada e como tal pode ser julgada ou afirmada, é um dicente”. O dicente é uma proposição, trata-se de um signo que provoca e desperta uma reação crítica no intérprete. Por fim, pode-se dizer que é a interpretação particular do leitor de um signo, seja ela negativa, seja positiva. Com base nas afirmações anteriores, ainda podemos dizer que uma cerca é um signo dicente, pois ela indica que o transeunte não pode passar daquele ponto. Já uma porta aberta pode ser um convite, ou não – quiçá uma armadilha.

2.5.4.3 Por fim, Peirce (2000, p. 53) apresenta e define o último elemento de sua terceira tricotomia: “Argumento é um signo que, para seu interpretante é signo de lei”. O argumento é o juízo verdadeiro que o interpretante faz do signo, portanto se dissermos que um elemento “R” é igual a soma de um elemento “X” mais um elemento “Y”, ou seja, (R = X + Y), estamos construindo um signo argumento, porque podemos dizer que a soma de X mais Y é igual a R, ou seja, (X.+ Y = R). Com isso, é possível perceber que o argumento que expressa verdades, ou juízos verdadeiros. É possível construir o seguinte exemplo: Pedro está com uma doença “A”; Pedro morrerá porque a doença é mortal e não possui cura. De posse destas informações, podemos deduzir que todas as pessoas com a mesma doença “A” morrerão, porque ela é mortal. Peirce (2000, p. 57) ainda diz: “Um argumento é um signo cujo interpretante representa seu objeto como sendo um signo ulterior através de uma lei, a saber, a lei segundo a qual a passagem dessas premissas para essas conclusões tende a ser verdadeira”.

Poderíamos escrever muito mais sobre a teoria triádica de Peirce; contudo, aprofundar os estudos das teorias peircianas não é o nosso objetivo neste trabalho. Muito mais poderia ter sido dito, exemplificado e esclarecido, mas para isso seria necessário um trabalho de muito maior fôlego e amplitude que o proposto por nós ao elaborarmos o nosso plano de ação.

2.6 O signo em Pierre Guiraud:

Para Pierre Guiraud (1980, p. 15), “o signo é portanto um excitante – os psicólogos dizem um estímulo, cuja ação sobre o organismo provoca a imagem memorial de um outro estímulo; a nuvem evoca a imagem da chuva, a palavra evoca a imagem da coisa”. Ainda para Guiraud (1980), os signos podem ser naturais ou não-naturais. Os naturais são aqueles que têm relação direta com a natureza e seus fenômenos naturais, a exemplo das nuvens carregadas que denotam chuva. Os signos não-naturais (artificiais) são os criados pelo homem e/ou pelos animais de modo geral, a exemplo dos códigos e símbolos usados para denotarem coisas e fenômenos. Guiraud divide os signos em quatro grandes categorias, a saber: 1. os signos naturais identificados e classificados pela ciência; 2. os signos de representação ou imagem (quadros, fotografias etc); 3. os signos de comunicação ou símbolos que podem ser associados ao processo de comunicação (letras, números etc) e 4. os signos de comunicação icônico-simbólicos, tais como a moda, simbologias religiosas etc.

Conforme Guiraud (1980, p. 22), o signo é formado de duas partes, significante e significado, as quais possuem uma relação psíquica bastante estreita entre elas: “há portanto uma associação psíquica bipolar que compreende dois termos: a forma significante e o conceito significado; e duas fases: a evocação do nome pela coisa e a da coisa pelo nome; o processo é recíproco.

Por último, Guiraud não apresenta uma palavra para conceituar a relação entre o significante e o significado, todavia não descarta a existência de tal elemento gerador de uma associação recíproca entre os elementos da significação lingüística. Veja o que ele escreveu sobre o assunto em questão: “É o estado da língua que determina os valores da palavra, valores que são exatamente as possibilidades de relação que definem um campo de emprego no discurso”. (GUIRAUD, 1980, p. 26)

2.7 As significações semânticas de Greimas:

Em Greimas (1973), o signo não é definido como tal, ou seja, ele não apresenta nenhuma terminologia que possa representar o conjunto das significações, como fizeram Saussure, Hjelmslev, Peirce, Borba, Bakhtin entre outros. Mesmo não apresentando um rótulo para designar um ponto no qual residem o significante e o significado, Greimas coloca as duas terminologias dentro de um conjunto abstrato, quando pressupõe a inexistência de um sem o outro e do outro sem o um. Se o significado não é possível sem o significante, então eles se inter-relacionam, completam-se, referem-se e, por natureza semântica, devem ser semas de um semema. É lógico que o nosso objetivo aqui não é questionar por que Greimas deixou de lado a nomenclatura signo e firmou-se apenas nas significações: o significante e o significado, criados por Saussure e aperfeiçoados pelos semioticistas ulteriores a ele. Assim sendo, nesta parte do nosso trabalho, centraremos então na definição de significante, significado e significação.

2.7.1 Para Greimas (1973, p. 17), significantes são “os elementos ou grupos de elementos que possibilitam a aparição da significação ao nível da percepção”, e significados são o conjunto das “significações que são recobertas pelo significante e manifestadas graças à sua existência”.

Greimas (1973), além de definir, apresentou uma classificação para os significantes, conforme a ordem sensorial pela qual eles podem se apresentar. As classificações podem ser de ordem:

 Visual – É possível determinar algo por meio de um sinal indicado, como o polegar direito, um muxoxo produzido com leve ou brusca torção da face, por meio da própria língua escrita e seus padrões etc.

 Auditiva – A língua oral é, talvez, o exemplo mais indicado; todavia, outros significantes significativos podem ser aludidos, tais como: a música, as buzinas, sirenes etc.

 Tátil – O braile é o melhor dos exemplos do significante tátil-sensitivo; por outro lado, as carícias constituem também exemplos de fácil compreensão.

 Olfativa – Qualquer indivíduo em seu estado natural e sem quaisquer problemas no sistema olfativo pode diferenciar as rosas das angélicas sem vê-las.

 Gustativa – Neste caso, podemos citar os degustadores que ganham a vida experimentando e classificando alimentos com o auxílio do paladar apurado que têm. O gosto de uma maçã, por exemplo, é diferente do gosto de um morango.

Como ressaltamos anteriormente, Greimas não admite a classificação de nenhum significado sem um significante e, para clarear seu ponto de vista, ele apresenta um conjunto de três relações que abaixo interpretamos:

2.7.1.1 Significantes de uma mesma ordem sensorial – podem constituir um outro significante autônomo, ou seja, podem ser pequenos semas que compõem conjuntos de sememas que podem significar estruturas ((mais) ou menos) complexas e diferentes. Por exemplo: cada nota musical é um sema, o conjunto das notas forma um semema, o semema organizado forma o sistema de uma música, e a música, pelos elementos de um dado discurso, pode ser reconhecida e diferenciada de outra música, exatamente pelo conjunto de semas que a compõem.

2.7.1.2 Significantes de natureza sensorial diferentes – podem referir e indicar uma mesma significação. É o caso da língua oral e da língua escrita. Veja: O significante oral /meza/ e o significante gráfico “mesa”, este percebido pelo sistema sensorial visual e aquele pelo sentido auditivo dentro de um dado contexto, podem possuir a mesma significação.

2.7.1.3 Significantes de várias procedências sensoriais – podem ser interferentes num dado processo de construção de significações discursivas. Como exemplo, podemos tomar a comunicação humana que, geralmente, é constituída de significantes orais, escritos e demonstrações gestuais. Pode-se assim dizer que esta incidência é a habilidade humana em certificar-se da perfeita interpretação da mensagem pelo interlocutor-receptor.

Com o conteúdo acima exposto, procuramos apresentar a visão de Greimas sobre as significações e as relações que elas têm ao interagirem na formação dos significados discursivos. Estudar Greimas não é apenas apresentar a sua visão de significações, mas mergulhar nas suas profundas definições semântico-analíticas, propósito que deverá constituir um novo projeto de estudos. Por enquanto, ficaremos apenas nas considerações que apresentamos, isto porque o nosso propósito era realmente apresentar de modo sucinto a visão de significações do autor em contraste com outras visões emanadas de autores diferentes e que comportam pontos de vista outros.

2. 8 As significações à luz da psicologia: palavras de Vigotsky:


Ao desenvolver a teoria de análise das relações multifaces entre o pensamento e a linguagem, Vigotsky (2000) fala com propriedade de dois elementos lingüísticos – som e significado – que para ele convergem-se num só elemento chamado “palavra”.

Não queremos aqui, de modo algum, fazer análises e/ou apresentar o signo segundo a óptica da psicologia na sua plenitude, mas sim apresentar mais uma maneira de ver o signo e suas significações aplicados como instrumentos de decodificação do espírito humano.

Em referência ao signo, Vigotsky fala de um tipo especial de análise a que ele chama análise em unidades.

A unidade é, para Vigotsky, o que o signo é para os lingüistas, ou seja, uma unidade que representa o todo e que pode ser subdivida em partes. Para melhor elucidar, tomaremos a reflexão do próprio Vigotsky (2000, p. 5): “a chave para a compreensão das propriedades da água são as suas moléculas e seu comportamento, e não seus elementos químicos. A verdadeira unidade da análise biológica é a célula viva, que possui as propriedades básicas do organismo vivo”.

Assim como a molécula representa um microcosmo para a água, a célula para a análise biológica, o significado da palavra é o microcosmo em relação ao pensamento verbal, que deve ser, por sua natureza, o macrocosmo.

Por último, Vigotsky (1998) considera que o significado é um ato desencadeado pelo pensamento e que uma palavra sem o seu devido significado é algo vazio que quase nada, ou nada importa como elemento de fala.

2.9 O signo ideológico de Bakhtin: uma visão filosófica:

O signo para Bakhtin é um elemento de natureza ideológica. Ele chega a afirmar que todo signo é ideológico por natureza. “Tudo que é ideológico possui um significado e remete a algo situado fora de si mesmo, [...], tudo que é ideológico é signo. Sem signos não existe ideologia”. (BAKHTIN, 2002, 31). Desta forma é viável dizer que o signo é carregado de significações ideológicas. Se tomarmos as expressões sígnicas de Hjelmslev e suas significações contextuais para construirmos um signo perfeito, inevitavelmente chegaríamos ao signo ideológico de Bakhtin. Nenhum signo isolado possui valor em si mesmo. Todo signo deve ser contextualizado para ganhar significação. Se um elemento sígnico não contiver em si uma carga de pura ideologia emanada pelo contexto a que pertença, não poderá ser considerado um signo perfeito. Assim sendo, Bakhtin (2002, p. 33) ressalta: “cada signo ideológico é não apenas um reflexo, uma sombra da realidade, mas também um fragmento material dessa realidade. Todo fenômeno que funciona como signo ideológico tem uma encarnação material, seja como som, como massa física, como cor, como movimento do corpo ou como outra coisa qualquer”.

O signo embevecido de significação ideológica pode estar sujeito a critérios de avaliação do meio ideológico e, naturalmente, ser entendido conforme a necessidade contextual dos interlocutores. Quando o signo é contextualizado, o campo de domínio do signo converge com o campo de domínio do fator ideológico que ele representa. Um signo à margem é um signo sem valor significativo, mas um signo que refrata o seu valor sígnico por meio da inter-relação que adquire no contexto com outros signos é um signo repleto de significações. No lugar em que estiver um signo carregado de sentido, ali também estará o ideológico; e tudo o quanto puder ser considerado ideológico, por sua natureza representativa e significativa, deve ser considerado de valor semiótico, conforme Bakhtin.

O homem vive ladeado de signos, cria signos para representar tudo o que quer, interpreta os signos naturais para entender os fenômenos da natureza e, acima de tudo, convenciona-os com a finalidade de perpetuar a consciência humana. Há até mesmo signos extra-naturais para leitura, indagação e tentativa de compreensão do sobrenatural. Mas é bom ressaltar que a consciência só pode, segundo Bakhtin, ser entendida como tal quando se enche de conteúdo ideológico e interage com outras consciências. Isto quer dizer que nenhum signo tem valor absoluto fora da interação social, ou seja, à margem do contexto, seja ele o contexto do próprio signo ou o contexto dos interlocutores que o utilizam como elemento de implementação, reflexão e transformação do ideológico, analisado segundo limites de espaço e tempo.

Em síntese, pode-se dizer que o signo bakhtiniano é ideológico por natureza, não porque não signifique algo vazio de sentido, de idéia; mas porque significa, acima de tudo, algo que pode ser assimilado pelo ideológico ou que pode personificar o próprio ideológico.

2.10 Considerações finais:

Todas as teorias estudadas neste trabalho possuem uma propriedade em comum: referem-se às significações que podem emanar de todas as coisas naturais, artificiais e sobre-naturais – signos naturais, signos não-naturais e signos artificiais. Porém, vale ressaltar que foi dada importância maior ao signo lingüístico em detrimento dos demais, tendo em vista a sua meta-natureza, fato que o torna mais valoroso em relação a outros. Todo signo não-lingüístico só pode ser traduzido por um signo lingüístico, nunca por si mesmo. Diz Lopes (2000, p. 45): “o que precisamente aparta, de modo definitivo, os signos verbais das demais espécies de signos artificiais é o fato de que estes últimos serão sempre traduzidos pelos primeiros, meta-signos universais; e estes, os signos verbais, só são traduzíveis com adequabilidade por outros signos lingüístico-verbais. Eles não se baseiam em significações de outra modalidade qualquer de linguagem e, fora deles, não há inteligibilidade possível para o homem”.

O signo é para o homem a mola propulsora que o induz às transformações sócio-culturais, tendo em vista a sua natureza ideológica, conforme Bakhtin (2002).

Saber se o signo foi melhor definido por Saussure, por Peirce, Hjelmslev, Guiraud, por Greimas, Barthes, Borba, Bakhtin, Lopes, Vigotsky ou por qualquer outro teórico não é relevante para este trabalho; muito menos foi critério definir se o signo é melhor teorizado pela semântica ou pela semiótica. Vale dizer então que a principal reflexão deste artigo foi a apresentação das diversas teorias do signo e suas significações para que fosse possível verificar a importância que têm o signo e suas emanações no estudo e na compreensão da linguagem como elemento implementador das aspirações lingüísticas e sócio-psico-ideológicas do homem.

2.10 Referências:

BAKHTIN, Mikhail (Volochinov). Marxismo e filosofia da linguagem. 9. ed. São Paulo: HUCITEC, 2002.
BARTHES, Roland. Elementos de Semiologia. São Paulo: Cultrix, 1972.
BORBA, Francisco da Silva. Introdução aos estudos lingüísticos. 13. Ed. São Paulo: Pontes, 1998.
DUBOIS, Jean et al. Dicionário de lingüística. São Paulo: Cultrix, 1998.
GREIMAS, Algirdas Julien. Semântica estrutural : pesquisa de método. Traduzido por Haquira Osakabe.São Paulo: Cultrix, 1973.
GUIRAUD, Pierre. A semântica. 3.ed. Rio de Janeiro: DIFEL, 1980.
HJELMSLEV, Louis. Prolegômenos a uma teoria da linguagem. São Paulo: Perspectiva, 1975.
LOPES, Edward. Fundamentos da lingüística contemporânea. São Paulo: Cultrix, 2000.
PEIRCE, Charles S. Semiótica. 3. ed. São Paulo: Perspectiva, 2000.
PEIRCE, Charles S. Semiótica e Filosofia. 9. ed. São Paulo: Cultrix, 1993.
SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de lingüística geral. 30. ed. São Paulo: Cultrix. 2001.
VIGOTSKY, Lev Semenovitch. Pensamento e Linguagem. São Paulo: Martins fontes, 1998.
WALTHER-BENSE, Elisabeth. A teria geral dos signos. São Paulo: Perspectiva, 2000.

Atenção: Este artigo foi publicado originalmente na Revista Literarius do Curso de Letras das Faculdades Integradas de Cacoal - UNESC-RO, Ano I, Número 01 - jul./dez.2004.

Outras Publicações on-line:
www.partes.com.br/.../teoriasignosreflexaoed39.htm
www.unescnet.br/revistaeletronica2/ARTIGOS/TEXTO5.asp

Citações:
http://www.ead.fea.usp.br/semead/10semead/sistema/resultado/trabalhosPDF/438.pdf

OBSERVAÇÃO 1: A(s) imagem(ns) postada(s) nesta matéria pertece(m) ao arquivo de imagens do Google Imagens e os direitos autorais ficam reservados na sua totalidade ao autor originário caso o tenha.


OBSERVAÇÃO 2: Em virtude da falta de recursos técnicos e metodológicos do Blogspot, as citações diretas com mais de três linhas foram feitas dentro do corpo do texto sem o recuo de quatro centímetros orientado pelas normas da ABNT.

OBSERVAÇÃO 3: Este artigo foi bublicado originalmente na Revista Literarius - Publicação do Curso de Letras das Faculdades Integradas de Cacoal - Rondônia. Vide Referências abaixo:

SILVA, Antônio Carlos da. As teorias do signo e as significações linguísticas. Revista Literarius. Cacoal/RO: UNESC, vol. 1, n. 1, p. 27-51, 2004.

terça-feira, 27 de abril de 2010

FIGURAS DE ESTILO OU VÍCIOS DE LINGUAGEM?

Por Thonny Hawany

RESUMO: O presente trabalho que tem como tema “Figuras de estilo  ou Vícios de Linguagem?” pretendeu discorrer, de forma sucinta, a respeito de algumas expressões que, de acordo com a situação de uso, podem ser classificadas como figura de linguagem, constituindo assim valiosos elementos de estilística usados pela literatura e pela música, ou como vício de linguagem e, portanto, não recomendados pela gramática normativa. O objetivo foi, além de elencar as principais expressões, também mostrar situações de uso em que a mesma expressão pode ser, ora um elemento de uso padrão, ora de uso não-padrão. A pesquisa, como se poderá ver, foi bibliográfica e documental, esta, porque se fez necessária a comparação entre gramáticas normativas e aquela, por conta dos fundamentos necessários para sustentação do tema em tela. Em face de todo o exposto, tornou-se evidente que para se estabelecer ou separar estilo literário de vício de linguagem, não se pode fazê-lo sem considerar o contexto, ou seja, a situação real de uso da língua, sob pena de incorrer no mais crasso de todos os erros de análise linguística.
PALAVRAS-CHAVES: estilo literário. Vícios de linguagem. Língua.

ABSTRACT - This paper which has as theme " Style or non-standard language?" intended to briefly discuss about some expressions which, according to the usage, can be classified as figure of speech, thus providing valuable stylistics evidence used in literature and music, or as non-standard language and therefore not recommended by normative grammar. The objective was to list the main expressions and also to show the usage situations where the same expression can be either a formal pattern element or a non-standard one. As it will be seen, this was a bibliographic and documental research; the last one was necessary due to the comparison among normative grammars and the first, on account of the foundations needed to support the topic on screen. In face of all above, it became evident that to establish or to separate the literary style from non-standard language cannot be done without considering the context, i.e. the real situation of language usage, under the penalty of making the crassest error of linguistic analysis.
KEY-WORDS: literary style, non-standard language, language

INTRODUÇÃO:

O presente trabalho discorrerá sucintamente sobre os principais vícios de linguagem pesquisados em gramáticas normativas da língua portuguesa e, sempre que possível, serão comparados às figuras de estilo presentes na linguagem verbal escrita e oral com o objetivo de verificar o quão tênue é a distância entre o que se pode chamar de vício e o que se entende por estilo individual do falante.

As possibilidades de usos e modos da fala e da escrita são, geralmente, determinadas pelo que chamamos de estilo, quer seja individual, quer seja coletivo. O estilo pode se caracterizar pelo uso consciente desta ou daquela forma linguística, com este ou aquele propósito, seja ele qual for, como também pode se manifestar pelo uso e escolhas involuntárias do material linguístico. E é exatamente nesta escolha involuntária que o falante pode optar por um estilo pouco ou nada adequado ao padrão linguístico, fato que o leva a usar, inevitavelmente, uma forma denominada, então de vício de linguagem.

Embora existam muitas definições para estilo, neste trabalho, entenderemos como tal o resultado linguístico de uma escolha consciente (ou não) entre os elementos constitutivos de uma língua que um dado falante ou escritor o faz numa determinada circunstância de uso ou ato de fala e escrita.

O estilo é produto de linguagem em situação real de uso, daí aquele não prescindir desta para a sua efetivação no campo da fala e da escrita. Para Marouzeau apud Martins (2000, p. 2), “estilo é a qualidade do enunciado, resultante de uma escolha que faz, entre os elementos constitutivos de uma dada língua, aquela que a emprega em uma circunstância determinada de uso”. Quando Marouzeau fala em escolha e circunstância, ele nos leva a ver que não há distância entre estilo e contexto, esta é, sobremaneira, o agente deflagrador daquele. O estilo de um indivíduo é determinado no momento em que este, o enunciatário, produz um enunciado em meio a uma atmosfera que lhe é favorável e nessa mistura entre os elementos do enunciado com outros externos, ou seja, pertencentes ao contexto, ao extratextual, a enunciação embevece-se de certas influências a que se podem chamar de estilo ou de vício a depender das próprias intenções do enunciatário e das condições de uso e de cuidados que ele teve com o material linguístico.

Neste trabalho, assim como o estilo, a linguagem faz-se importante e representa o segundo pilar de nossas discussões por ser nela o lugar comum onde figuram o estilo e o vício de linguagem.

Como se sabe, a linguagem é todo e qualquer meio que serve para a comunicação humana e, assim como todos os mecanismos de relação social, está sujeita às transformações, às individualizações e às vicissitudes que são próprias do homem como indivíduo e como sociedade.

A linguagem divide-se em verbal e não-verbal, mas, para este estudo, restringir-nos-emos à primeira, tão somente, porque é nela onde gravitam os fatos a que chamamos de vícios de linguagem.

Outro ponto fundamental em nossas discussões iniciais é a língua que, segundo Faraco e Tezza (2001, p. 09), “é uma das realidades mais fantásticas da nossa vida”, trata-se de um conjunto de signos linguísticos organizados por normas gramaticais. Para Cunha e Cintra (2007, p. 01), é “um sistema gramatical pertencente a um grupo de indivíduos. Expressão da consciência de uma coletividade, [...]”. A língua, além de ser o mecanismo pelo qual o homem percebe a si e ao outro, ainda é o instrumento de sua intervenção direta nas relações intersubjetivas e na condução do mundo em que vive e atua. “A língua [...] é a linguagem que utiliza a palavra como sinal de comunicação” (TERRA, 1997, p. 13). É no uso diuturno da língua que o falante imprime sua forma, sua maneira de falar e escrever e, nesta forma, vai sua visão de mundo e também seu entendimento de língua, quer seja padrão, quer seja não-padrão.

A língua é, sobremaneira, numa analogia com o átomo, a eletrosfera onde gravitam, por excelência, os fenômenos da individualização da linguagem e, nesse ato de particularização, o homem se mostra como homem e como palavra. E nesse se mostrar como homem e como palavra, ele se aproxima ou se afasta do rígido e implacável padrão linguístico, fazendo com que seus atos de fala e de escrita sejam classificados, ora como erudito, como clássico, como normativo, ora como chulos ou vícios de linguagem.

Depois dessas introdutórias noções conceituais de língua, linguagem e de estilo, cabe-nos, doravante, para dar impulsão ao tema, perguntar: o que é vício de linguagem? O que se pode chamar de vício de linguagem? Antes de falar de vício de linguagem é preciso caracterizar a própria palavra vício. O vício, cujo antônimo é a virtude, tem origem no latim vitium e significa falha ou defeito. Trata-se de um ato repetitivo que pode causar danos físicos e/ou psicológicos ao indivíduo viciado, a exemplo das drogas.

Em se tratando dos vícios de linguagem, muito embora não devassem o organismo humano, causando-lhe dependências físicas e/ou neurológicas, podem causar prejuízos irreparáveis nas relações sociais em que o indivíduo falante e/ou escritor necessite usar, de maneira competente, o dialeto culto da língua.

Neste sentido, o que entender como vício de linguagem? Segundo os mecanismos de controle do idioma, os vícios de linguagem constituem um aglomerado de usos indevidos à língua nomeadamente padrão. Tais desvios são geralmente empregados por falantes que conhecem pouco a norma culta do idioma, isso quando involuntariamente. De outro modo, os vícios de linguagem são como pérolas para a produção literária e, especialmente, para a composição musical na geração de duplo sentido, de ironia, de sarcasmo e de outros, a exemplo.

É sempre importante primarmos pela forma escorreita da língua ao falar e, principalmente, ao escrever. Embora a língua seja um elemento vivo que flui de acordo com os seus usos, “há, portanto, em toda sociedade humana a necessidade de uma linguagem normal, pela qual todos se pautem” (CAMARA JR, 1986, p. 92). Contudo, o falante e/ou o escritor, sobre tudo, o revisor não deve se enrijecer por demais no tocante aos usos da língua sob pena de atentar contra fatores que são decorrentes de usos voluntários ou de influências geográficas e sócio-culturais.

Como se vê, é necessário que a língua de um povo possua um padrão linguístico normativo a fim de garantir a comunicabilidade ampla e irrestrita de seus falantes onde quer que estejam e se encontrem. O padrão linguístico e a relação entre a língua, o texto e o contexto são os divisores de água para se determinar os limites entre o vício de linguagem e o estilo literário.

Os dialetos da língua não podem se distanciar ao ponto de inviabilizarem a comunicabilidade de um povo. Devem, pois, manter certo padrão. Para Camara Jr. (1986, p. 92), “a correção é a obediência a esse padrão linguístico. Se ele fosse uno e perfeitamente estável, não haveria maior problema. Acontece, porém, que a sua unidade e estabilidade só existe como um ideal, que em nenhuma sociedade humana se realiza espontaneamente.” Para as teorias mais conservadoras, qualquer uso que fuja ao ideal estabelecido para a língua atenta contra sua normatividade e, por isso afeta todo o sistema de comunicação. Dessas discussões decorre a noção de certo e de errado. Se o uso linguístico está de acordo com a norma padrão, está certo, se não, errado. “A língua, criada para meio de expressão do espírito humano [...] não pode, em todo o seu âmbito, ser um conjunto de regras fixas à maneira de um jogo de xadrez. Oferece uma tal ou qual diversidade intrínseca, com alternativas de solução em vários casos. Não se trata, então de erros e sim de discordâncias de uso”. (CAMARA JR., 1986, p. 92).

Veja que para Mattoso Câmara Júnior, a velha noção de erro não existe, no máximo o que há são desvios de uma gramática em relação à outra, visto que cada falante possui a sua própria gramática que, nem sempre, se coaduna com aquela denominada de normativa. Decorre daí o que os estudiosos chamam de gramática internalizada, ou seja, a minha, a sua gramática, a nossa forma de reger os nossos modos de falar e escrever. Mas este será outro trabalho a ser perseguido por nós a posteriori. Neste momento, ainda temos que dar conta do que chamamos de vícios de linguagem, mas que também podem ser estilo literário.

No sentido de tratar com especificidade do tema em questão, a seguir, passaremos a apresentar um rol dos principais vícios de linguagem, suas definições, subclassificações e, na medida do possível, exemplos baseados em situações reais de uso. Começaremos então pelo:

I. PLEONASMO:

O pleonasmo é uma figura de estilo que, mal empregada, pode levar o falante ou escritor a repetições desnecessárias da mesma ideia. Quem ainda não falou ou ouviu expressões como: subir para cima, descer para baixo, taquicardia do coração, hepatite do fígado, hemorragia de sangue e outras? Isso é o que chamamos de pleonasmo vicioso. No entanto, como figura de estilo, o pleonasmo é usado para reforçar uma ideia já expressa no texto. Vinícius de Morais no Soneto da Felicidade usou um dos mais belos empregos do pleonasmo que se tem notícias. Exemplo: “[...] Quero vivê-lo em cada vão momento / E em seu louvor hei de espalhar meu canto / E rir meu riso e derramar meu pranto / Ao seu pesar ou seu contentamento. [...]”

Para Cunha e Cintra (2001, p. 625), “cumpre, no entanto, distinguir dessas redundâncias viciosas o emprego do adjetivo como epíteto de natureza em expressões do tipo céu azul, fria neve, prado verde, mar salgado, noite escura e quivalentes” (grifos do autor). Emenda ainda o autor dizendo que, “[...] não se trata de inútil reiteração da ideia que já se continha no substantivo. O adjetivo insiste sobre o caráter intrínseco, normal ou dominante do objeto. É uma forma de ênfase, um recurso literário” (ibidem). Cabe ainda dizer que há tautologia permitida pela gramática além das que gentilmente nos ensinou Celso Cunha e Lindley Cintra, a exemplo da expressão “ambos os dois” que é recomendada por alguns autores quando vem acompanhada de um complemento. Veja a frase: Ambos os dois mais bravos soldados lutaram até a morte. E dentre estes gramáticos que, não só admitem, mas recomendam, está o Pasquale Cipro Neto. No entanto, há o grupo dos que classificam a expressão no rol dos pleonasmos viciosos.

II. CACOFONIA:

Os autores mais tradicionais definem cacofonia como sendo o som desagradável provocado pelo encontro de duas ou mais palavras num encadeamento fraseológico. Contudo, é bom lembrar que a cacofonia tem sido utilizada, modernamente, para produzir outros sons que nem sempre são desagradáveis, a exemplo daqueles de natureza cômica entranhados nas estrofes de músicas de duplo sentido e nos textos de anedotas. Os cacófatos ocorrem nas diversas manifestações e usos da fala e quando ocorrem empobrecem-na, se forem despretensiosos. São exemplos de cacofonia: “Beijei a boca dela e quero me casar com uma mulher como ela“.

III. ECO:

O eco ocorre quando usamos palavras com terminações iguais ou semelhantes, de modo a provocar um fenômeno semelhante ao da reflexão do som que chega ao ouvinte depois da chegada do som direto. Exemplo: “Zé Felicidade acreditava desde a mocidade que era sempre preciso buscar a maturidade política de sua cidade”. Quando um indivíduo tem uma boa lista de palavras em seu vocabulário, ele pode evitar o eco trocando uma expressão por outra de terminação diferente. O eco na classificação vícios de linguagem está para as rimas internas estudadas no bojo da Estilística. No poema “Vilões que Choram” de Cruz e Souza há um bom exemplo de rima interna: “Ah! Plangentes vilões, dormentes, mornos...”. A diferença entre uma rima interna e o eco (vício de linguagem) também recai naquela velha questão de uso. Se é literário, temos eco como rima interna, se é por descuido e falta de apuro linguístico, temos eco como vício de linguagem.

IV. HIATO:

O hiato é a sequência de vogais empregadas muito próximas e que provocam dissonância na frase. Não se deve confundir hiato com a figura de estilo assonância. Embora ambas tenham a ver com o emprego das vogais, esta é “a repetição de sons vocálicos, em sílabas tônicas de palavras distintas ou na mesma frase para obter certos efeitos de estilo” (RECANTO DAS LETRAS, online) e aquela é a repetição desordenada e irresponsável de vogais sem considerar nenhuma regra de estilo. É exemplo de assonância: “É um pássaro, é uma rosa, / É o mar que me acorda?” do poeta português Eugênio de Andrade. São exemplos de hiato: “Eu o ouvirei amanhã”, “Ou eu ou o outro faz o serviço”, “Eu ouço o amigo”.

V. COLISÃO:

A colisão ocorre quando há dissonância provocada pela repetição de consoantes iguais ou semelhantes. Não se deve confundir colisão com aliteração, enquanto aquela é o uso irresponsável de consoantes numa frase, esta consiste no uso responsável e estilístico de sons consonantais para valorizar o teor da mensagem. Para Martins (2000, p. 38), a “aliteração é a repetição insistente dos mesmos sons consonantais, podendo ser eles iniciais, ou integrantes da sílaba tônica, ou mais distribuídos irregularmente em vocábulos próximos”. São exemplos de aliteração: “Boi bem bravo, bate baixo, bota baba, boi berrando” (GUIMARÃES ROSA), “Vozes veladas, veludosas vozes, / Volúpias dos violões, vozes veladas, / Vagam nos velhos vórtices velozes / Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas” (CRUZ E SOUZA). São exemplos de colisão: “Minha mamãe me mandou mudar os meus modos”, “Saia sua sonsa de Salvador e sofra de saudade”. É bom lembrar que a colisão e a aliteração são praticamente idênticas, a diferença está, basicamente, no uso: se o escritor usa a repetição voluntária como função poética da linguagem é aliteração, se o faz por falta de acuidade linguística, é colisão. 

VI. AMBIGUIDADE OU ANFIBOLOGIA:

A ambiguidade ocorre quando o enunciador, ao criar uma frase, produz nela duplo sentido que pode ser por má colocação do adjunto adverbial, por uso incorreto dos pronomes relativos ou ainda por má colocação de pronomes, termos e expressões, frase e orações. Exemplo 1: “Pessoas apaixonadas frequentemente são mais felizes”. As pessoas são felizes porque se apaixonam frequentemente ou são frequentemente mais felizes porque se apaixonam? Veja que, neste caso, temos uma típica má colocação do advérbio que, se colocado depois do verbo, acabaria com o duplo sentido: “Pessoas apaixonadas são frequentemente mais felizes”. Exemplo 2: João Pedro pegou a caixa vazia do videogame que estava sobre a mesa. O que estava sobre a mesa? A caixa vazia ou o videogame? Neste caso, como os substantivos são de gêneros diferentes, podemos retirar a ambigüidade usando outro pronome relativo correspondes, veja: João Pedro pegou a caixa vazia do videogame a qual estava sobre a mesa. Se os substantivos usados na frase fossem do mesmo gênero, requereria, lógico, outra reconstrução para eliminar a ambiguidade. Exemplo 3: O professor falou ao aluno de óculos. Há três sentidos: o aluno usava óculos, o professor usava óculos ou o assunto eram óculos. Redefinir essa frase não é muito fácil, mas vejamos: a) O professor que usava óculos falou ao aluno / Ao aluno que usava óculos, falou-lhe o professor / o professor falou ao aluno sobre óculos. Em síntese, nas questões de ambiguidade, cada caso é um caso, é preciso, portanto, habilidade do escritor ou revisor para evitar tais armadilhas da língua. Para isso, é importante dominar sempre mais de uma forma para enunciar algo.

VII. SOLECISMO:

O solecismo ocorre quando, no enunciado, há desvios de sintaxe de concordância, de regência ou de colocação pronominal.

7.1 No solecismo de concordância, a frase é construída sem a devida harmonia entre o verbo e o sujeito, ou entre os adjuntos adnominais e predicativos com os termos a que eles se relacionam, salvo casos especiais de concordâncias, a exemplo do verbo ser que obedece a regras especiais. Exemplos: “Faltou muitos alunos no dia do jogo da Seleção do Brasil” / “Há menas água no pote”. Na primeira frase, o verbo faltar deveria concordar no plural com a expressão muitos alunos. Já no segundo exemplo, a concordância é nominal e a expressão menos deverá sempre concordar no masculino visto que não há para ela forma feminina.

Ainda sobre o solecismo de concordância, há o que chamamos de concordância ideológica, silepse. No entanto, em virtude de ser a silepse um caso especial e que vem ganhando destaque nos usos cultos, especialmente a de pessoa, preferimos tratar dela num tópico especial a seguir.

7.2. No solecismo de regência, o enunciador inviabiliza o real sentido da frase quando usa uma regência em lugar de outra. A regência é o processo sintático que regula a relação entre termos regidos e termos regentes, ou seja: entre verbos e complementos verbais e entre nomes e complementos nominais. A relação sintática entre os verbos e os nomes e entre esses e seus complementos dá-se por meio do emprego de uma preposição (ou não). O uso de uma preposição em lugar de outra muda o sentido causando prejuízos ao enunciado. Com isso, o enunciador pode induzir o enunciatário a erro. Exemplo de solecismo de regência verbal: “O policial que assiste em Cacoal, assistiu ao acidente e, em seguida, de modo ágil, assistiu o acidentado salvando-lhe a vida”. Veja que, na primeira incidência, o verbo assistir é sinônimo dos verbos morar, residir e é intransitivo, requerendo apenas um adjunto adverbial de lugar e, por isso, rege a preposição “em”. Quem é residente, “reside” em algum lugar. Na segunda incidência, o verbo é transitivo indireto e tem o sentido de ver, por isso rege a preposição “a” e na terceira, é transitivo direto e, tanto por isso, não pede obrigatoriamente nenhuma preposição, diz-se nestes casos que a regência é transitiva direta. Exemplo de regência nominal: “O Estado deve trabalhar mais na recuperação para os rios brasileiros”. Neste caso, a regência é entre o substantivo recuperação e seu complemento rios brasileiros que deveria se dar por meio do conectivo oracional “de” e não como foi feito usando o “para”.

7.3 No solecismo de colocação, o falante ou escritor antepõe ou pospõe a expressão antes ou depois de outra expressão de forma equivocada sintático-gramaticalmente. Na linguagem coloquial oral a próclise do pronome é regra geral como se vê na forma: “Me empresta o livro.” Outros exemplos: “Não emprestar-te-ei o dinheiro que precisas.” / “Jamais empresto-te a luz que brilha em mim”. As formas corretas segundo o padrão, respectivamente, são: Empresta-me o livro, Não te emprestarei o dinheiro e Jamais te empresto a luz que brilha em mim.

7.4 SILEPSE (Caso especial de solecismo de concordância): A silepse é, segundo Cunha e Cintra (2007, p. 645), “a concordância que se faz não com a forma gramatical das palavras, mas com o seu sentido, com a ideia que elas expressam”. A silépse é, portanto, uma concordância ideológica que concorda com o sentido expresso na palavra e não com a palavra propriamente dita. Em língua portuguesa, a silepse divide-se em três: de número, de gênero e de pessoa.

7.4.1 A silepse de número ocorre, nos casos mais comuns, quando o verbo concorda no plural com um sujeito coletivo que requer, por natureza, a concordância verbal no singular, a exemplo de: “O professor começou a aula, quando chegaram todo o pessoal”. Vejam que a expressão “todo o pessoal” é sujeito de chegaram. O autor da frase concordou com o número de pessoas que chegou e não com o termo coletivo como sugere a gramática. A silepse de número pode ocorrer também nos casos em que os adjetivos e particípios concordam no singular com os sujeitos da oração representados pelos pronomes nós ou vós. Exemplo: “Estivemos o tempo todo nos preparando para a apresentação do trabalho, no entanto, quando chegamos no dia marcado, falamos tímido a plateia que nos olha atenta e duvidosa”.

7.4.2 A silepse de gênero acontece na concordância ideológica entre as expressões de tratamento e o adjetivo com função predicativa. Como sabemos, os pronomes de tratamento exigem sempre concordância com adjetivo no feminino. Assim o sendo, o que deveria ser: Lula, Vossa Excelência é sempre muito bondosa, acaba, por vezes, sendo: “Lula, Vossa Excelência é sempre muito bondoso.” Como se vê, o predicativo concordou com o gênero do presidente Lula e não com o sujeito da frase, Vossa Excelência.

7.4.3 A silepse de pessoa vem se tornando bastante recorrente na língua portuguesa e acontece de três maneiras: A) quando a pessoa que fala ou escreve se insere num sujeito previamente anunciado na terceira pessoa. Exemplo: “Os brasileiros somos um povo feliz” (eles e eu = nós). B) quando num sujeito de terceira pessoa, inserimos a pessoa a que dirigimos. Exemplo: “Neste final de semana, os mestres estais em vigília pelos enfermos”. Observe que estarão reunidos os mestres e também a pessoa para a qual se dirige o enunciado (eles e tu = vós) e C) no português coloquial é muito comum ouvirmos dizer: “A gente sempre sai tarde do trabalho, precisamos relaxar um pouco tomando uma gelada”. “A gente” pede verbo na terceira pessoa do singular; nos casos em que há silepse, o falante emprega a expressão com o verbo na primeira pessoa do plural. Embora Celso Cunha e Lindley Cintra classifiquem tal ocorrência como sendo silepse de pessoa, sou partidário também dos que a classificam como sendo de número, tendo em vista que “a gente” é uma expressão singular que representa mais de um e, tanto por isso, é possível que a concordância seja feita pelo falante com o número plural representado ideologicamente no termo.

Em suma, a silepse que já foi dita como uma das vilãs da concordância, graças ao seu uso na produção literária por autores consagrados, a exemplo de Machado de Assis, Camilo Castelo Branco e outros, acabou por ganhar status de figura de estilo e hoje já se vê aceita até mesmo fora dos textos literários. Veja que primor de silepse de pessoa: “Só os quatro velhos – o desembargador com os três – fazíamos planos futuros.” (Machado de Assis). “Estava designada a noite dum baile em casa de Rita Emília, quando os convidados recebemos aviso da súbita doença de Francisco José de Souza.” (Camilo Castelo Branco). “Vossa Excelência parece magoado [...]. (Carlos Drummond de Andrade). E desse modo, é que a silepse se consagra como estilo, no entanto, o seu uso desregrado pode, conforme já supramencionado, constituir vício de linguagem, por isso, é sempre bom mensurar o momento exato de uso e de não uso da silepse para não incorrer em erro.

VIII. BARBARISMO:

O barbarismo é um tipo de vício de linguagem bastante comum em que o falante comete desvios em relação à norma cultua quando se escrevem ou quando se pronunciam algumas palavras. É chamado de cocoépia o desvio que ocorre na esfera do som e de cacografia o que ocorre na escrita. É barbarismo também quando o falante ou escritor dá a palavra ou a expressão significados diferentes daquele solicitados pelo contexto. Assim sendo, o barbarismo é, geralmente, dividido pelos gramáticos da seguinte maneira: barbarismo no som, na grafia, na morfologia e na semântica.

O barbarismo no som ocorre quando o falante pronuncia uma palavra mudando-lhe a sílaba tônica. São exemplos de barbarismo na pronúncia: /’rubrika/ em lugar de /ru’brika”, /inte’rim/ em lugar de /’interim/, /’nobel/ em lugar de /no’bel/.

O barbarismo na grafia, possivelmente o mais comum, ocorre quando o usuário da língua escreve algumas palavras ou expressões ortograficamente incorretas com relação à norma padrão. Vejam os exemplos: “Ele pesquisou a etmologia da palavra.” / “Nós advinhamos o resultado do jogo.” / “Todos os seguimentos da sociedade sofreram com a infração”. Respectivamente as palavras nos exemplos anteriores, em obediência à norma culta, deveriam ser: etimologia, adivinhamos, segmentos e inflação.

O barbarismo na morfologia acontece ao ser usada uma forma em lugar de outra, geralmente cunhada pelo senso popular. Exemplos: “Quando ela pôr o vestido, saberei se engordou.” / “Quando eu ir aí, explicarei a situação. / “É certamente a mais maior em tamanho.” / “Ele ponhou o livro sobre a mesa e lá o deixou.” Para corrigir as frases-exemplos, bastaria escrevê-las respectivamente com: puser, for e pôr.

Por último, o barbarismo na semântica dar-se quando o falante ou escritor faz uso de uma forma parônima em lugar de outra. Veja: Assim que chegaram à metrópole, absolveram a poluição. Aos amigos, os comprimentos, aos inimigos, o desprezo. O aluno soou muito durante a prova. Veja que, no primeiro exemplo, foi usado “absolver” que tem o sentido de livrar/liberar em lugar de absorver que significaria cheirar/sorver; no segundo, a forma correta seria cumprimentos que significa o ato ou efeito de cumprimentar e não comprimentos que significa a extensão longitudinal entre dois pontos extremos; no terceiro e último exemplo, usou-se a forma soou (emitir som de sino), em lugar de suou (transpirar).

Embora no barbarismo seja mais difícil distinquir estilo de vício, mesmo assim ainda entendemos que, por estilo, um autor pode usar um desvio de semântica, trocando um parônimo por outro para dar um efeito humorístico ou usando uma forma em lugar de outra para peculiarizar falas de personagens, a exemplo de usar “ponhar” em lugar de pôr e assim por diante; ou mesmo para chocar, criar novos padrões ou rupturas.

IX. PALAVRAS EVOCATIVAS:

A partir deste ponto, passaremos a apresentar as palavras evocativas (BALLY apud MARTINS, 2000), que constituem a base da evolução de uma dada língua, a nosso ver. As palavras nascem nas relações entre os sujeitos sociais e somente depois ganham o status de dicionário e até que isso ocorra, elas sofrem discriminação que acaba por refletir não nelas, mas no indivíduo que as usam. Para Martins (2000, p. 80), “a totalidade emotiva de um grande número de palavras se deve a associações provocadas pela sua origem ou pela variedade linguística a que pertecem [...]”. As palavras evocativas “são os estrangeirismos, os arcaísmos, os termos dialetais, os neologismos, as expressões de gíria, os quais não só transmitem um significado, mas também nos remetem a uma época, a um meio social ou cultural” (MARTINS, 2000, p. 80). Usar uma palavra evocativa é cometer desvios de norma padrão, por tanto um vício de linguagem para a maioria dos gramáticos; todavia, essas palavras funcionam como molas propulsoras da evolução e desenvolvimento da língua. E por assim o ser, entendemos que é um paradoxo considerar como desprezível (vício de linguagem), expressões tão importante para a existência, evolução e, consequente, manutenção da língua.

Para ilustrar as palavras evocativas, abaixo trataremos das que julgamos importantes para este trabalho, a saber: estrangeirismo, plebismo ou gíria

9.1 ARCAÍSMO:

O arcaísmo é o emprego de palavras ou expressões desusadas, antigas e que já não pertencem ao idioma em seu estágio atual. Exemplos: “Dona Ana, vos mercê é fremosa e mais parece co’a lua.” / “Esqueçam essas cousas e vamos comemorar o dous de julho.” As expressões “vos mercê”, “fremosa”, “co’a”, “cousas” e “dous” existem modernamente como você, formosa, com a, coisas e dois. Assim como os neologismos, os arcaísmos não são facilmente detectados haja vista que nem todos eles possuem certidão de nascimento e/ou atestado de óbito. Nesses casos, para evitar o arcaísmo como vício de linguagem, recomenda-se não usar palavras que não se veem escritas ou faladas com frequência. No entanto, os arcaísmos constituem excelentes recursos na reconstrução do passado histórico. Segundo Martins (2000, p. 85), “os arcaísmos favorecem a evocação do passado, a recriação de uma atmosfera solene ou pitoresca”. Reconstruir uma época sem sua moda, sua linguagem, sua tecnologia é fazê-lo em parte. Sendo assim, os arcaísmos só constituem vícios de linguagem nos usos cotidianos e corriqueiros, mas na (re) construção literária de época são figuras primorosas.

9.2 GÍRIAS:

As gírias são as expressões triviais de um povo; elas são o que chamaremos, neste trabalho, de embriões linguísticos. A manifestação desse fenômeno lingüístico comprova que a língua é um sistema que nasce nas relações intersubjetivas, ou seja, no embate popular entre as pessoas de um mesmo grupo e entre os grupos diferentes. Martins (2000, p. 88), afirma que: “entre as linguagens especiais, que evocam determinadas classes sociais ou grupos profissionais, é a gíria a que oferece maiores possibilidades expressivas, traços afetivos mais intensos”.

A gíria deveria ter um status melhor na língua, no entanto, os puristas insistem em relegá-la à condição de vício de linguagem. “Pode-se dizer; em essência, que o purismo consiste em imaginar a língua como uma espécie de água cristalina e pura, que não deve ser contaminada. Perde-se a noção de que ela é o meio de comunicação social por excelência, ou, para mantermos o símile, á água de uma turbina em incessante atividade e mais ou menos turva pela própria necessidade da função” (CAMÂRA JR, 2003, p. 131). A partir desse pensamento, os gramáticos puristas consideram a gírias e novas expressões como sendo elementos alienígenas à língua. A língua é um organismo vivo e por assim o ser é inevitável a comparação entre ela é o homem: as palavras em estado de dicionário são homens adultos, as gírias e neologismos são embriões e crianças. Segregar essas palavras e expressões à margem da língua é o mesmo que praticar um aborto humano, só que contra embriões-palavras.

Em síntese, entendemos que é preciso ter cautela com relação às novas palavras. Se o nosso exercício como falante ou escritor requer o dialeto padrão, então não podemos usar nada que dele não faça parte. No entanto, o uso do modelo padrão como o dialeto privilegiado e exigido pelas situações de fala e de escrita acadêmicas, não nos dá o aval para dizer que as expressões gírias não são importantes para a língua. Exemplos: ”E aí, mano, legal? Pô meu! Qual é cara? Fiquei de boca aberta com aquela mina!. / E aí, véio! Tipo assim... Estou de boa....”

9.3. NEOLOGISMO:

Os neologismos são empregos de palavras que apesar de formadas de acordo com o sistema da língua, ainda não foram incorporadas pelo idioma. Entre os neologismos estão os estrangeirismos, a autonomia de alguns prefixos, a lexicalização de siglas e o uso de prefixos e de sufixos para se criar novas palavras a partir de radicais já existentes na língua. Os neologismos são melhores vistos pelos gramáticos puristas tendo em vista que ganharam um título próprio dentro do conteúdo que estuda os processos de formação de palavras. São exemplos de neologismos: “As esposas dos policiais fizeram um panelaço em frente ao quartel reivindicando melhores salários.” / “Era uma saição danada da aula que ninguém suportava.” / “Ninguém dormiu com aquele buzinaço todo”. “Os petistas chegaram ao poder apoiados pelos pmdebistas contra os psdbistas”.

9.4. ESTRANGEIRISMO:

Alguns autores consideram o estrangeirismo como vício de linguagem, outros não. Em virtude do avançado processo de globalização cultural, devemos discutir o uso de palavras estrangeiras como sendo necessárias (ou não) ao idioma. Elas são úteis e essenciais quando não possuem correspondentes com igual teor semântico na língua, ou quando constituem terminologias técnicas de certas profissões, a exemplo das palavras marketing, impeachment, superávit, déficit e outras. São necessárias também todas as palavras que dão nomes a sistemas eletrônicos e outros produtos de criação e registro de patente no estrangeiro. Para Martins (2000, p. 80-81), os estrangeirismos “podem ser empregados por força do relacionamento entre povos, quando os nomes das coisas importadas as acompanham (verba sequuntur rem). Em suma, cabe então definir o que é estrangeirismo como vício de linguagem. As palavras e expressões que possuem correspondentes em língua portuguesa e que seu uso não se justifica por nenhuma forma são as consideradas vícios de linguagem, a exemplo de work shop = oficina / breakfast = lanche, café da manhã, desjejum / cofee break = cafezinho, parada para o café, chá da tarde, lanche.

10 OBSCURIDADE:

O trabalho intelectual de fala e de escrita depende de um fator muito importante que é a organização das ideias e a relação que há entre essas ideias e os mecanismos utilizados para externá-las.

Como obscuridade, entendemos todas aquelas frases difíceis de serem compreendidas por defeitos crassos de construção e adequação. A obscuridade acontece por diversos fatores, a saber: uso inadequado da pontuação, colocação dos termos na frase e das frases no período, escolha de palavras inadequadas para o contexto, além de outros frutos da escolha mental inconsequente do falante.

Para Mattoso Jr. (2003, p.93), “cada um de nós faz um trabalho mental espontâneo no material linguístico, depositado na memória, e dele tira conclusões aberrantes. É preciso um esforço consciente contínuo para manter-nos dentro do que está normalmente estabelecido. É preciso, ainda, uma contínua ampliação e sedimentação do nosso material linguístico, para melhor resistir ao trabalho que assim se processa, espontaneamente, em nosso cérebro e nos leva a soluções anômalas”. No sentido de nos orientar, Mattoso orienta-nos para uma produção consciente e, especialmente, para as escolhas criteriosas do material linguístico a ser utilizado no trabalho de produção oral e escrito. Não basta dominar as idéias, é preciso saber como codificá-las e, para isso, o falante necessita desenvolver competências e habilidades que vão além do mero saber. Quanto maior for o conhecimento de técnicas de produção oral e escrita de um indivíduo e quanto maior for seu material linguístico, maior será sua capacidade em transmitir suas ideias. São exemplos de obscuridade: “A experiência de clone que antes não tinha sido aprovada, foi feito com ovelhas que só confirmou o já previsto.” / “A relação de ir além do que se possa imaginar e denotar e conotar ao mesmo tempo, e a relação de união.” / “Um fazendeiro tinha um bezerro e a mãe do fazendeiro também era o pai do bezerro.” / Num porto brasileiro, um navio inglês entrava um navio francês.”. Nos dois primeiros exemplos, temos o que se pode chamar de inadequação absoluta, a ideia foi colocada pelo escritor no papel sem o mínimo critério de organização, nestes casos, fica difícil pensar uma ideia de correção que seja eficaz. No terceiro exemplo, tudo se resolveria com a colocação de uma vírgula depois da palavra mãe e no quarto é último caso a troca da forma “entrava”, que é do verbo entravar e não do verbo entrar, por outra forma resolveria a falta de sentido.

Em síntese, entendemos que a obscuridade é o vício de linguagem mais difícil para ser dirimido pelo revisor, haja vista que suas características permeiam muito mais no campo das ideias, das relações mentais e do psicológico que do linguisticamente observável. A obscuridade está mais para os desvios no campo das ideias e dos sentidos que para o das normas gramaticais propriamente ditas, salvo aqueles que são de ordem da pontuação ou da escolha de palavras que podem ser facilmente substituídas pelo revisor.

CONSIDERAÇÕES FINAIS:

Geralmente não é de bom tom concluir um tema citando, sabemos, mas como não pretendemos esgotá-lo, mesmo que quiséssemos, dadas as suas infinitas possibilidades, não poderíamos. Assim o sendo, para tecer algumas considerações finais sobre vícios de linguagem e estilo, seríamos egoístas se não o fizéssemos com o auxílio de autores do calibre dos que chamaremos doravante para o diálogo. Não poderíamos impedir que Pretti (2003, p. 61), nos agraciasse com a rica lição que se segue “[...] a sociolinguística se preocupa, em especial, com as variações de linguagem e sua correspondência com as variações sociológicas, por outro lado cremos que os sociolinguísticas não podem, nem devem ignorar o papel da língua escrita e, particularmente, da língua literária sobre os hábitos linguísticos, modificando-os e contribuindo pra a sua natural evolução.” O que hoje é vício de linguagem, amanhã poderá ser o mais rico dos estilos literários, em outras palavras.

Para Calvet (2002, p. 146), “há dois tipos de plurilinguísmo: um que procede das práticas sociais e outro da intervenção sobre essas práticas. [...] Nos dois casos a comunicação está assegurada graças a “criação” de uma língua, e essa criação não deve nada a uma decisão oficial, a um decreto ou a uma lei; ela é simplesmente o produto de uma prática”. Neste sentido, Calvet (2002) reforça que não podemos ser taxativos quanto falamos dos vícios de linguagem como formas esdrúxulas, ou seja, alienígenas à forma padrão. Aquilo que é para uma dissertação científica ou técnica um vício, pode representar uma pérola para a literatura e/ou para a música.

Como se sabe, a língua possui muitas variedades e dessas variedades decorrem, igualmente, muitas possibilidades de uso. O falante deve fazer, quando puder ou for capaz, as melhores escolhas para se comunicar “bem”. E essas escolhas são, geralmente, livres a tal ponto que chegam a ser, na maioria dos casos, involuntárias.

O segredo para usar essa ou aquela forma linguística está no contexto: se a situação pede o dialeto padrão, use-o e o explore em todo o seu potencial erudito e clássico, mas se a informalidade ou um dado exercício literário ou musical permitem ao falante alçar voos linguísticos, então que o faça fazendo decorrer daí possibilidades significativas que, mesmo desviadas do padrão, constituam formas dignas de apreço. Todo o mais será por acréscimo e, sem qualquer “preconceito linguístico” (BAGNO, 2000), vício de linguagem.

REFERÊNCIAS:

BAGNO, Marcos. Preconceito linguístico: o que é, como se faz. 4.ed. São Paulo: Loyola, 2000.

CALVET, Luis-Jean. Sociolinguística: uma introdução crítica. São Paulo: Parábola, 2002.
CAMARA JR., Joaquim Mattoso. Manual de expressão oral e escrita. 22.ed. Petrópolis/RJ: Vozes, 1986.
CRUZ E SOUSA. Disponível em: http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/ cruz-de-souza/violoes-que-choram.php. Acesso: 28/04/2010, às 8h22min.
CUNHA, Celso e CINTRA, LIndley. Nova gramática do português contemporâneo. 4.ed. Rio de Janeiro: Lexikon, 2007.
FARACO, Carlos Alberto e TEZZA, Cristovão. Práticas de texto: para estudantes universitários. 8. ed. Petrópolis/RJ: Vozes, 1992.
MARTINS, Nilce Sant’Anna. Introdução à estilística. 3. ed. São Paulo: T. A. Queiroz: 2000.
MORAIS, Vicícius de. Soneto de Felicidade. Disponível em: http://www.releituras.com/viniciusm_fidelidade.asp. Acesso: 28/04/2020, às 8h14.
PRETTI, Dino. Sociolinguística: os níveis da fala. 9.ed. São Paulo: Universiade de São Paulo: 2003.
RECANTO DAS LETRAS. Disponível em: http://recantodasletras.uol.com.br/
gramatica/1192161. Acesso em: 25/03/2010, às 11h02min.
ROSA, João Guimarães. Disponível em: http://www.scielo.br/ scielo.php?pid=S0103-40142006000300007&script=sci_arttext. Acesso: 28/04/2010, às 8h35min.
TERRA, Ernani. Linguagem, língua e fala. São Paulo: Scipione, 1997.