quinta-feira, 10 de novembro de 2016

ÀDÚRÀ Ọ̀SÁNYÌN

Recolhido e organizado por Thonny Hawany


Saudação: Ewe Asa! Ewe Asa!

Meré-meré Ọ̀sányìn ewé o ẹ́ jin
Meré-meré Ọ̀sányìn ewé o ẹ́ jin
Meré-meré ewé o ẹ́ jin ngbẹ́ nọ́n
Meré-meré ewé o ẹ́ jin ngbẹ́ nọ́n
Ẹ jin meré-meré Ọ̀sányìn wa le

Habilmente, Ọ̀sányìn vos dá as folhas
Habilmente, Ọ̀sányìn vos dá as folhas
Habilmente vos destes as folhas secas no caminho
Habilmente vos destes as folhas secas no caminho
Habilmente, Ọ̀sányìn vos destes a magia

Link para a versão com áudio: https://youtu.be/_7Ngj9oG56s





quarta-feira, 9 de novembro de 2016

ÀDÚRÀ LOGUN EDÉ

Recolhido e organizado por Thonny Hawany



Saudação:  Loci Loci Logun!

Bábá ode ewé éjé,
Bábá ode ewé éjé,
Ní igbó ní bàbá Òrìsà
Ní igbó ni bábá Lògún ode
Bàbá yìí dakójá mi ojú ààrò, 
O ti kó là àse e tyìn ofà, 
Bàbá igbó ode ènyin.

Tradução:
Pai caçador há sangue nas folhas
Pai caçador há sangue nas folhas
O pai Orixá está nas florestas, está nas florestas o pai guerreiro caçador.
Este pai Me observa olha a minha cooperação, ele foi o primeiro a tornar-se rico
Com o poder do seu arco e flecha, pai das florestas e caçador és.

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

ÀDÙRÀ Ọ̀ṢỌ́Ọ̀SÌ

Recolhido e organizado por Thonny Hawany


Saudação: Oké Aro! Arolé!


Pakó tòri sa(n) gbo dìdé (aja in pa igbo)
Odẹ́ aróle o
Aróle o oni sa(n) gbo olówo
Odẹ́ aróle o nku lodẹ

Tradução:


Fisga, mata e arrasta ferozmente sua presa
(O cão morto na floresta)
Ele é caçador herdeiro
Hoje o herdeiro exibe sua riqueza
Ele é o caçador herdeiro que tem o pode de atrair a caça para a morte.

ÀDÙRÀ ÒGÚN

Recolhido e organizado por Thonny Hawany



Saudação: Jesi jesi patakori! Ògún e!

Ògún dá lẹ́ kọ́
Ẹni adé ran
Ògún dá lẹ́ kọ́
Ẹni adé ran
Ògún to wa dó
Ẹni adé ran
Ògún to wa dó
Ẹni adé ran

Tradução:


Ògún constrói casa sozinho
A mando do rei
Ògún constrói casa sozinho
A mando do rei
Basta Ògún na construção da aldeia
A mando do rei
Basta Ògún na construção da aldeia
A mando do rei

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

ÀDÚRÀ ÌYÁMI

Recolhido e organizado por Thonny Hawany


Saudação: Aiye Toto Akamara!


1. Àdúrà Ìyámi
Tradução
Ìyá kéré gbo ìyámi o
Ìyá kéré gbohùn mi
Ìyá kéré gbo ìyámi o
Ìyá kéré gbohùn mi
Gbogbo Ẹlẹ́yẹ mo Ìgbàtí
Ìgbàmú ilẹ
Ìyá kéré gbohùn mi
Gbogbo Ẹlẹ́yẹ mo Ìgbàtí
Ìgbàmú ilẹ
Ìyá kéré gbohùn mi
Pequeninas mães, ó idosas mães
Pequeninas mães, ouçam minha voz
Pequeninas mães, ó idosas mães
Pequeninas mães, ouçam minha voz
Todas as senhoras dos pássaros, ouçam-me 
Quando eu as chamo na terra
Pequeninas mães, ouçam minha voz
Todas as senhoras dos pássaros da noite
Todas as vezes que comprimo a terra
Pequeninas mães, ouçam minha voz

2. Àdúrà Ìyámi
Tradução
Mo júbà ènyin Ìyámi Òṣòròngá
O tònón ẹ̣̀ enun a
O tòokòn ẹ̣̀ èdọ̀
Mo júbà ènyin Ìyámi Òṣòròngá
O tònón ẹ̣̀ enun a
O tòokòn ẹ̣̀ èdọ̀
Ẹ̣̀ ó yè ní kálè o
Ó yíyè, yíyè, yèyé kòkò
Ó yíyè, yíyè, yèyé kòkò
Meus respeitos a vós, minha mãe Oxorongá
Vós que seguíeis os rastros do sangue interior
Vós que seguíeis os rastros do coração e do sangue do fígado.
Meus respeitos a vós, minha mãe Oxorongá
Vós que seguíeis os rastros do sangue interior
Vós que seguíeis os rastros do coração e do sangue do fígado.
O sangue vivo que é recolhido pela terra cobre-se de fungos,
E ele sobrevive, sobrevive, ó mãe muito velha.
O sangue vivo que é recolhido pela terra cobre-se de fungos,
E ele sobrevive, sobrevive, ó mãe muito velha


terça-feira, 1 de novembro de 2016

IYÌN FUN ÈṢÙ

Recolhido e organizado por Thonny Hawany



Saudação: Láaróyè! Èṣù láaróyè!

E akin olówó bọ́
Èṣù akin olówó bọ́
E akin olówó bọ́
Èṣù akin olówó bọ́
   Èṣù Yangi kisa sú
   Èṣù Agbá kisa sú
E akin olówó bọ́
Èṣù akin olówó bọ́
   Èṣù Onibode kisa sú
   Èṣù Igbá Ketá kisa sú
E akin olówó bọ́
Èṣù akin olówó bọ́
   Èṣù Òkòtó kisa sú
   Èṣù Obá kisa sú
E akin olówó bọ́
Èṣù akin olówó bọ́
   Èṣù Odàrà kisa sú
   Èṣù Ojiṣé kisa sú
E akin olówó bọ́
Èṣù akin olówó bọ́
   Èṣù Ẹlẹ́rú kisa sú
   Èṣù Enú Gbáríjọ kisa sú
E akin olówó bọ́
Èṣù akin olówó bọ́
   Èṣù Elebárà kisa sú
   Èṣù Bará kisa sú
E akin olówó bọ́
Èṣù akin olówó bọ́
   Èṣù Ọlọná kisa sú
   Èṣù Ọlọbé kisa sú
E akin olówó bọ́
Èṣù akin olówó bọ́
   Èṣù Elebọ́ kisa sú
   Èṣù Àlàfíà kisa sú
E akin olówó bọ́
Èṣù akin olówó bọ́
   Èṣù Odoso kisa sú
   Èṣù Oritá kisa sú
E akin olówó bọ́
Èṣù akin olówó bọ́
   Èsù Akesán kisa sú
   Èsù Ijelu kisa sú
E akin olówó bọ́
Èṣù akin olówó bó
   Èṣù Iná kisa sú
   Èṣù Oná kisa sú
E akin olówó bọ́
Èṣù akin olówó bọ́
   Èṣù Ajonán kisa sú
   Èṣù Lalú kisa sú
E akin olówó bọ́
Èṣù akin olówó bọ́
   Èṣù Igbàràbó kisa sú
   Èṣù Tìrírì kisa sú
E akin olówó bọ́
Èṣù akin olówó bọ́
   Èṣù Foki kisa sú
   Èṣù Lajiki kisa sú
E akin olówó bọ́
Èṣù akin olówó bọ́
   Èṣù Sijidi kisa sú
   Èṣù Langiri kisa sú
E akin olówó bọ́
Èṣù akin olówó bọ́
   Èṣù Alé kisa sú
   Èsù Alaketu kisa sú
E akin olówó bọ́
Èṣù akin olówó bọ́
    Èsù Oro kisa sú
    Èsù Topá kisa sú
E akin olówó bọ́
Èṣù akin olówó bọ́
   Èsù Aríjídì kisa sú
   Èsù Asaná(n) kisa sú
E akin olówó bọ́
Èṣù akin olówó bọ́
   Èsù Loke kisa sú
   Èsù Ijedé kisa sú
E akin olówó bọ́
Èṣù akin olówó bọ́
   Èsù Jiná(n) kisa sú
   Èsù Jiná(n) kisa sú
E akin olówó bọ́
Èṣù akin olówó bọ́
   Èsú Jeresúy kisa sú
   Èsù Igi Irókò kisa sú
E akin olówó bọ́
Èṣù akin olówó bọ́


Tradução:

Coro:
E akin olówó bọ́
Èṣù akin olówó bọ́
Adoramos Èsù que é bravo.
Èsù é braço e rico.

Chamadas:
Èṣù Yangi kisa sú
Èṣù Agbá kisa sú
Èsù (...) semeia prodígio.
Èsù (...) semeia prodígio.

ORIKI ÈṢÙ

Recolhido e organizado por Thonny Hawany




Saudação: Láaróyè ! Èṣù láaróyè!

Iyìn o, iyìn o Èṣù n má gbọ̀ o 
     Iyìn o, iyìn o Èṣù n má gbọ̀ o 
Iyìn o, iyìn o Èṣù n má gbọ̀ o 
     Iyìn o, iyìn o Èṣù n má gbọ̀ o 
Èṣù láaróyè, Èṣù láaróyè
     Iyìn o, iyìn o Èsù n má gbọ̀ o
Èṣù (falar o nome do Èṣù)
     Iyìn o, iyìn o Èṣù n má gbọ̀ o 
Èsù ọ̀ta òrìṣà
     Iyìn o, iyìn o Èṣù n má gbọ̀ o 
Oṣètùrá ni l’orukọ bàbá mọ́ ọ́
Alágogo ijà l’orukọ íyá npẹ́ o
     Iyìn o, iyìn o Èṣù n má gbọ̀ o 
Èṣù Ọ̀dàrà, ọmọkùnrin Idọ́lófin
O lé sónsó sóri ori esẹ̀ ẹlẹ́sẹ̀
     Iyìn o, iyìn o Èṣù n má gbọ̀ o
 Kọ̀ jẹ́ kọ́ jẹ́ ki ẹni njẹ́ gbẹ e mi
     Iyìn o, iyìn o Èṣù n má gbọ̀ o
A kìì lówó lái mu ti Èṣù kúrò
A kìì láyọ̀ lái mu ti Èṣù Kúrò
     Iyìn o, iyìn o Èṣù n má gbọ̀ o
Aṣòntún ṣe òsì làì ní ìtìjú
     Iyìn o, iyìn o Èṣù n má gbọ̀ o
Èsù ápáta somo olómo lénu
O fi okúta dipò iyó
     Iyìn o, iyìn o Èṣù n má gbọ̀ o
Lóògemo òrun a nla kálu
Pàápa-wàrá, a túká máṣe ṣà
     Iyìn o, iyìn o Èṣù n má gbọ̀ o
Èṣù máṣe mi, omo elómiran ni o sé
Èṣù máse, Èṣù máse, Èṣù máse
     Iyìn o, iyìn o Èṣù n má gbọ̀ o
Èṣù escute o meu louvor!
     Èṣù escute o meu louvor!
Èṣù escute o meu louvor!
     Èṣù escute o meu louvor!
Salve Èṣù! Salve Èṣù!
     Èṣù escute o meu louvor!
Èṣù (falar o nome do Èṣù)
     Èṣù escute o meu louvor!
Èṣù, o primeiro entre os orixás
     Èṣù escute o meu louvor!
Oṣètùrá é o nome pelo qual é chamado pelo pai
Alágogo é o nome pelo qual é chamado pela mãe
     Èṣù escute o meu louvor!
Èṣù bondoso, filho da cidade de Idólófin
De cabeça pontiaguda, está sempre na retaguarda
     Èṣù escute o meu louvor!
Não come e também não permite que comamos
     Èṣù escute o meu louvor!
Quem tem riqueza deve reservar a parte de Èṣù
Quem tem felicidade deve reservar a parte de Èṣù
     Èṣù escute o meu louvor!
Ele fica dos dois lados sem constrangimento
     Èṣù escute o meu louvor!
Montanha de pedra que faz o filho falar o que não quer
Aquele que usa pedra em lugar de sal
     Èṣù escute o meu louvor!
Filho do céu cuja grandeza está em todos os lugares
Aquele que fragmenta o que não se pode nuca mais unir
     Èṣù escute o meu louvor!
Èsù não me faça mal, faça ao filho do outro
Èsù não me faça mal, não me faça mão, não me faça mal
     Èṣù escute o meu louvou!

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

A REGIÃO NORTE DO BRASIL ELEGE SUA PRIMEIRA VEREADORA TRANSEXUAL: JORDANA FONSECA FERREIRA

Por Thonny Hawany

Nas eleições de 2016, no pequeno município de Pimenta Bueno, no Estado de Rondônia, foi eleita a primeira vereadora transexual da Região Norte do Brasil: Jordana Fonseca Ferreira, filiada ao Partido Social Democrático (PSD), Jordana concorreu com mais de 90 candidatos e, em face de sua campanha arrojada contra a corrupção e em favor dos menos favorecidos, chegou em quinto lugar com mais de 500 votos.

Para que o nosso leitor conheça mais sobre Jordana e sua mais recente conquista, abaixo transcrevemos, na integra, a entrevista que fizemos com ela. As palavras entre aspas representam a opinião pessoal e particular da vereadora.

Thonny Hawany: Jordana eu já a conheço há muito tempo e sei que você sempre foi uma mulher muito transparente, mesmo assim eu gostaria que você fizesse um resumo de sua trajetória de vida, ou seja: quem é Jordana Ferreira?

Jordana: “Sou uma pessoa que gosta de viver rodeada de amigos e que gosta de desafios. Procuro sempre algo que me faça. Gosto de testar meus limites, nasci em uma família pobre, desde muito cedo trabalho e pago minhas contas, com 10 anos de idade, comecei a minha vida de empreendedora. Focada nos meus objetivos, comprei a minha casa com apenas 13 anos de idade.”

Thonny Hawany: Jordana, fale-nos a respeito de como você está se sentindo agora que foi eleita vereadora, provavelmente, a primeira vereadora transexual do Estado de Rondônia.

Jordana: “Não venci essa eleição por ser transexual e nem deixei de vencer por ser... Eu sei entrar e sair de todos os lugares. Eu procuro fazer valer a pena. Não dá para fechar os olhos para as dificuldades morando em uma cidade do interior. No início, a minha sexualidade foi posta em destaque, mas a campanha cresceu e pude mostrar que a minha orientação sexual era só um detalhe. Sinto-me realizada... Estou feliz, a minha vitória representa a vitória dos menos favorecidos...”

Thonny Hawany: Jordana, ao que você atribui a sua vitória? Você considera que os eleitores lhe elegeram por voto de protesto ou por acreditarem que você será capaz de fazer algo que os políticos tradicionais não fizeram pela população de Pimenta Bueno?

Jordana: “Eu venho fazendo um trabalho social há muito tempo e acredito que isso influenciou bastante. Sou muito popular e também polêmica. Não creio que tenha tido algum voto de protesto, mas sim de esperança.”

Thonny Hawany: Jordana, quais foram as principais barreiras que você enfrentou nos dias em que se dedicou a sua campanha política para vereadora?

Jordana: “A primeira barreira foi fazer uma política ideologicamente limpa e sem compra de votos. Nos dias de hoje é difícil ser eleita sem usar desses subterfúgios visto que grande parte dos eleitores, especialmente os menos favorecidos, está acostumada com esse tipo de barganha. A segunda barreira foi visitar e pedir votos para pessoas que, em virtude do descaso de anos, estão desacreditadas na política e nos políticos de modo geral. Por fim, a minha sexualidade, no início, representou uma barreira que foi superada com inteligência e bom humor.”

Thonny Hawany: Jordana, considerando o plano que você fez para o seu mandato como vereadora, fale-nos quais serão as suas prioridades.

Jordana: “Procurarei focar na cultura e no esporte, visto que foram os pontos mais esquecidos pelos administradores de Pimenta Bueno nos últimos anos. Acredito que podemos educar nossas crianças para que possam, um dia, fazer a diferença nas urnas e intender o quanto é importante votar com sabedoria e consciência. De igual modo, acredito que a cultura e o esporte fecham as portas para a marginalidade. Assim sendo, minha prioridade é a transformação do futuro cidadão pimentense pela cultura e pelo esporte.”

Thonny Hawany: Jordana, você tem políticas especialmente destinadas a população LGBT?

Jordana: “Eu penso que o fato de ser proativo, empreendedor, alinhado com as questões sociais já fecha um pouco as portas para a homofobia. No tocante à minha cidade, porém, pretendo visitar grandes empresas para fechar acordos e convênios com o proposto de abrir portas para incluir a população LGBT no mundo do trabalho. Na minha visão, a população LGBT não precisa de cotas, mas sim de oportunidades. Nada como uma mãozinha amiga! (rs).”

Thonny Hawany: Jordana, quais serão os principais critérios para a formação da sua equipe de gabinete?

Jordana: “Honestidade, qualificação, transparência e pontualidade... Quero que a minha equipe tenha essas mesmas qualidades que também são minhas.”

Thonny Hawany: Depois do mandado de vereadora em Pimenta Bueno, você tem planos para alçar voos mais altos? Quais?

Jordana: “Não conheço a política internamente, porém, caso eu me sinta adaptada, pretendo ser, no futuro, candidata a deputada estadual... mas isso é só depois que fizer o meu dever de casa em Pimenta Bueno. Fui eleita para ser vereadora de Pimenta Bueno e quero exercer o meu mandado integralmente.”

Thonny Hawany: Jordana, as eleições de 2016 tiveram 82 candidatos trans- por todos o Brasil e poucos desses foram eleitos, que recadinho você manda para esses candidatos ou candidatas amigos que não conseguiram se eleger?

Jordana: “A politica está presente em todas as nossas atitudes, seja para atender aos nossos anseios individuais, seja para atender aos anseios da população em geral. Gostaria que todos os que não foram eleitos aprendessem que é preciso exercer a cidadania,  respeitar as pessoas e, mesmo no salto alto, ser humilde. Não se deve sentir eleita antes de abrir as urnas. Recado a Léo. Respeite as transexuais em geral sem superioridade e sem comentários desnecessários.”

Thonny Hawany: Jordana, muito obrigado pelo carinho com que sempre nos recebe em sua vida. Eu e minha família (Rafael Hawany e Jefferson Hawany) sentimo-nos representados por você.

Jordana: Eu é que agradeço a você e a sua família, meu amigo. Espero fazer um mandato ouvindo os de fora para corrigir os de dentro.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

FLEXÃO DE NÚMERO NA LÍNGUA YORUBÁ: SINGULAR E PLURAL

Por Thonny Hawany

Antes de falamos a respeito da flexão de número em língua yorubá, precisamos revisitar alguns conceitos gramaticais que julgamos importantes, são eles: flexão e número.

A flexão é segundo o dicionário Aurélio um “processo de aposição de uma desinência a um radical ou tema para a expressão de categorias gramaticais, como tempo, modo, aspecto, voz, caso, gênero, número”.

Em língua portuguesa, o [-s] que colocamos ao final de algumas palavras para mudar o sentido gramatical de singular para plural e também a terminação [-mos] na forma verbal para indicar o plural da primeira pessoa do plural constituem ótimos exemplos de flexão de número.

Por sua vez, número é a expressão de algo que pode ser mensurável ainda que de forma abstrata. Para a flexão de número gramatical há dois números mensuráveis: singular e plural.

Em língua yorubá, como veremos abaixo, a flexão de número se dá de forma bastante distinta da que esboçamos acima tomando o português como exemplo.

Em yorubá, não há uma desinência especial para a indicação do plural. Os verbos e os nomes dessa língua não são flexionados; no entanto, há quatro formas diferentes para que a ideia de plural seja denotada numa expressão.

Na primeira, devemos usar o pronome pessoal de terceira pessoa do plural [àwọn=eles], quando queremos pluralizar algo que estamos falando ou escrevendo em língua yorubá. Vejamos alguns exemplos:

Èmi ní ọmọ òrìṣà. (Eu tenho um filho de santo).Èmi ní àwọn ọmọ òrìṣà (Eu tenho filhos de santo.)Oromakinde ní ẹṣin. (Oromakinde tem um cavalo.)Oromakinde ní àwon ẹṣin. (Oromakinde tem cavalos.)Mo rí ènìyàn. (Eu vi uma pessoa.)Mo ri àwon ènìyàn. (Eu vi pessoas.)

Na segunda, podemos nos valer do uso dos adjetivos numéricos (pronome indefinido) para fazer a flexão de número, como por exemplo:

Adenikẹ ní arákùnrin ení. (Adenikẹ tem um irmão.)Adenikẹ ní rákùnrin ẹ̀rin. (Adenikẹ tem quatro irmãos.)Àwọn rí ilé éje. (Eles tem sete casas.)

Na terceira, o plural poderá ser feito usando as expressões púpọ̀ (que quer dizer muito) ou a expressão ọ̀pọ̀lọ́pọ̀ (que quer dizer numeroso, abundante). Vejamos alguns exemplos:

Bàbá mi ní ọmọ ọ̀pọ̀lọ́pọ̀. (Meu pai tem muitos filhos.)Èmi ní  ọ̀rẹ́ ọ̀pọ̀lọ́pọ̀. (Eu tenho muitos amigos.)Ènìà púpọ̀ ni ọ̀rẹ́ mi. (Muitas pessoas são minhas amigas.)

Na quarta, recomenda-se usar àwọn antes do primeiro no caso em que mais de um substantivo deverá ir para o plural. Vejamos alguns exemplos:

Bàbá mi ní ẹṣin, àgùtàn àti málúù. (Meu pai tem um cavalo, um carneiro e uma vaca.Bàbá mi ní àwọn ẹṣin, àgùtàn àti málúù. (Meu pai tem cavalos, carneiros e vacas.)

Observação: Recomenda-se usar as expressões wọ̀nnì ou ìwọ̀nni antes de palavras que denotam seres inanimados.

Ọba ní afin. (O rei tem um castelo.)Ọba ní wọ̀nnì ààfin. (O rei tem aqueles castelos.)Oba ní ìwọ̀nni ilé. (O rei tem aquelas casas.)

Como em todas as línguas do planeta, o yorubá possui regras que auxiliam na administração do seu sistema linguístico, e as que apresentamos acima podem nos ajudar a compreender melhor a flexão de número nessa língua tão enigmática.

Espero ter contribuído um pouco com o aprendizado daqueles que buscam por melhor compreensão dos orin, àdúrà, oríkì e de outros textos que servem como base da prática ritualística do Candomblé.

BENISTE, José. Dicionário yorubá protuguês. 2.ed., Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2014.
FONTE DA IMAGEM: http://www.juntosnocandomble.com.br/2008/11/blog-post_14.html.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

ÌKÓÒDÍDẸ: A PENA SAGRADA

Por Thonny Hawany

Introdução

Inicialmente, pretendíamos escrever apenas para falar sobre o conceito, a origem, as características, os significados e os usos da pena do papagaio cinzento africano, chamada de ìkóòdédẹ nos terreiros de Candomblé; no entanto, quando me deparei com o histórico biológico do odídẹ, nome pelo qual os africanos chamam essa ave, entendemos que não seria possível falar da pena, sem antes falar do pássaro de onde ela é proveniente.

A existência da pena como símbolo religioso está intimamente ligada à ave e as suas características e habilidades biofisiológicas. Assim sendo, sem conhecer a ave com toda a intimidade necessária, dificilmente, entenderíamos a importância de sua pena nos ritos de passagem do Candomblé.

O odídẹ

O papagaio cinzento ou papagaio-do-gongo, conhecido entre os africanos por odídẹ, pertencente à espécie psittacus erithacus, é uma ave de porte médio que mede aproximadamente 34 centímetros de comprimento, da ponta da cauda a ponta do bico, e que pode viver entre 50 e 75 anos.

Diferente do que imagina quem só conhece a pena ritualística, o odídẹ tem a cor cinza predominante em todo o seu corpo, exceto na cauda, onde se localizam as penas vermelhas, cujos segredos são guardados a sete chaves pela maioria dos bàbálòrìṣá(s) e ìyálòrìṣá(s).

Conforme nossas pesquisas, o odídẹ, apesar de viver em grandes bandos, é monogâmico e, por isso, é fiel ao seu parceiro/parceira a vida inteira. Segundo o site de um zoológico português (Zoo de Lagos), não é rara a morte de um dos membros do casal depois da morte ou de ausência acidental do parceiro. É característica dessa ave, por ocasião do acasalamento, o casal afastar-se do bando para se revezarem nos cuidados com os ovos e, a posteriori, com os filhotes.

ATENÇÃO! Observe que são características importantes do odídẹ: a longevidade (1), viver em sociedade (2), ser fiel ao parceiro ou parceira a vida inteira (3), dedicar-se aos descendentes (4) e também ser capaz de nutrir sentimentos quase humanos de saudade (5) que pode levá-lo a morte pela falta do parceiro.

O odídẹ é tido pela maioria das fontes que pesquisamos como sendo uma ave muito inteligente, capaz de nutrir sentimento de afeto, não só por seus pares, mas por humanos com os quais pode viver numa relação de cumplicidade.

A inteligência dessa ave faz com que ela se diferencie das demais que podem repetir vozes de outros animais, ou palavras e frases decoradas depois do convívio com humanos, a exemplo do papagaio doméstico brasileiro. Segundo importantes pesquisas, sua capacidade cognitiva e de fala vai muito além de meras repetições.

O odídẹ é capaz de aprender e de demonstrar conhecimento sobre o que aprende ao ponto de inferir uma ideia nova a partir da combinação de duas ideias colocadas, a priori, como premissas. O odídẹ está entre os animais mais inteligentes segundo os estudos de Irene Pepperberg, ilustre pesquisadora associada e professora da Universidade de Harvard em Cambridge (on line)[1].

ATENÇÃO! Nos três últimos parágrafos, apresentamos outras importantes características do odídẹ que merecem destaque, são elas: habilidades que denotam capacidade de inteligência (6), habilidade para sentir afeto e para se comunicar (7), competência para demonstrar que aprende e que é capaz de fazer algo com o que aprende, ao ponto de combinar saberes diferentes para criar algo novo (8).

Consideramos muito relevante prestar atenção aos itens, enumerados acima, a respeito das características do odídẹ para, mais tarde, compreender melhor a aplicação que faremos para justificar a importância do uso do ìkóòdédẹ nos ritos de passagem.

Antes de passarmos para o próximo assunto, queremos ainda apresentar e analisar, mesmo que superficialmente, um ìtàn que versa sobre a existência do odídẹ e a relação que ele tem com o sagrado.

Segundo relatos, certa feita, Olódùmarè promoveu uma competição para saber qual pássaro era o mais bonito entre todos. Sabendo do concurso, todos os pássaros existentes passaram a investir esforços para melhorar sua aparência e beleza. Naquele tempo odídẹ tinha suas penas todas brancas e reluzentes. Tanto era a beleza de odídẹ que todos os concorrentes ficaram preocupados e, para se certificarem que não perderiam em beleza para aquele impoluto papagaio; arquitetaram um plano que consistia em jogar cinzas sobre as alvas penas de odídẹ. Assim foi feito e o vendo se incumbiu de dispersar e espalhar as cinzas jogadas uniformemente tornando o odídẹ um pássaro acinzentado. Insatisfeitos, os pássaros então procuraram um feiticeiro que lhes deram um preparado mágico para tingir as penas da cauda de odídẹ de vermelho, fato que, certamente, o tiraria do concurso. A passarada ficou confiante que odídẹ não participaria do concurso. Para surpresa geral, ele não só participou como ganhou. Ao final do concurso, Olódùmarè o premiou como o pássaro mais belo entre todos, dizendo que odídẹ era o mais bonito visto que a verdadeira beleza é a que estava dentro dele. Desse dia em diante, passou odídẹ a ser um pássaro sagrado que representaria as belas qualidades internas de todos os seres.

ATENÇÃO! O que significa dizer que “a verdadeira beleza é a que está no interior do ser?” Isso quer dizer que o indivíduo pode não ter nenhuma beleza exterior conforme se exige o padrão e a cultura, mas é alguém íntegro, probo, benevolente, respeitoso, de coração puro, fraterno, entre outros. Em síntese, ser um indivíduo bom significa o que Olódùmarè chamou de beleza interior (9). Ser bom é ter em si a semente para ser sagrado (10).

O ìkóòdédẹ

Para justificar inicialmente o que vamos escrever a respeito do uso do ìkóòdédẹ nos cultos afrodescendentes, queremos afirmar que nós, de cultura africana, de modo geral, somos panteístas e animistas. Ao mesmo tempo em que somos monoteístas, porque acreditamos na existência de um único Deus criador, somos panteístas em face de acreditarmos que esse mesmo Deus (Òlódùmarè) é essência pura que se estende para tudo o que criou, cria e transforma; igualmente, somos membros de uma sociedade animista, porque acreditamos que tudo o que existe possui um tipo de vida, um sopro celestial, independente de ser animal, vegetal ou mineral.

Esse modo de crer no sagrado nos faz entender que todos os elementos utilizados, em nossos cultos, são dotados de poderes especiais de criação e transformação: o àṣẹ, a exemplo do ìkóòdéde.

Do ponto de vista semiótico, o ìkóòdédẹ é o ícone, o índice e o símbolo daquilo que representa para quem o utiliza como objeto sagrado. Trata-se de um importante signo de representação, visto que carrega em si, ainda que separada, a mesma energia primordial do ser a que representa: o odídẹ.

A pena do odídẹ é o signo revelador do sagrado, é o eco das características biofisiológicas do pássaro. O ìkóòdédẹ não é odídẹ, mas seu ícone por similaridade, haja vista que nele há, não só a genética e parte das características físicas do pássaro, mas também a personificação de tudo o que odídẹ é para ser considerado especial para o sagrado e para ciência.

O ìkóòdédẹ, ao ser usado sobre a cabeça de alguém, não pretende significar o pássaro em si, mas um poderoso índice remissivo às qualidades do pássaro. Não se trata de uma representação por semelhança, mas por contiguidade.

O ìkóòdédẹ tem o poder de nos fazer ser odídẹ em seus atributos; é, sobremaneira, nossa relação contígua com o sagrado. Quando no pássaro, a pena aponta para baixo, quando em nós, para cima mostrando o caminho para onde vão os que se comportam como odídẹ.
Como símbolo, o ìkóòdédẹ é um signo mental, uma proposta artificial de caráter arbitrário que representa o que está consignado no pensamento e na razão do coletivo.

O ìkóòdédẹ não representa o odídẹ fisicamente, mas tudo o que ele significa: longevidade, sociabilidade, afetuosidade, capacidade para nutrir bons sentimentos, responsabilidade, inteligência, poder de comunicação, destreza, bondade, responsabilidade, dedicação, sacralidade, ou seja: tudo o que se espera de alguém que nasce para o àṣẹ na sua mais profunda acepção.

A associação do ìkóòdédẹ às qualidade interiores do odídẹ está no campo das ideias e do sagrado e não na mera associação material. Assim sendo, quando usamos o ìkóòdédẹ na cabeça de um iniciado, quer seja em suas obrigações iniciais, quer seja nas de maior graduação, espera-se que haja uma troca de energias vitais entre o odídẹ e o humano a fim de que este adquira e represente tudo o que há de melhor naquele.

Os objetivos do ìkóòdédẹ são os mesmos nos ritos de passagem relacionados à morte. Em nossa cultura, a morte é meramente um portal pelo qual passamos para alcançar o òrun com o intuito de continuar a jornada iniciada aqui no àiyé. É prudente que sejamos lá, onde quer que seja, também um odídẹ para que, na forma de espíritos, não nos verguemos diante das dificuldades que podemos encontrar.

O ìkóòdédẹ, para nós povo de àṣẹ, funciona como uma espécie senha de acesso ao sagrado; nós o usamos em razão do pacto estabelecido por Òṣùn depois do episódio da visita de Òṣàlá ao seu reino e para ser reconhecidos pelos nossos ancestrais.

Conta-se um ìtàn que certa feita, por ocasião da visita de Òṣàlá, Òṣùn preparou um grande festa, convidou a todos os òrìṣà(s), mas não convidou as Àjẹ́(s) que para vingar, lançou um feitiço sobre o trono de Òsùn fazendo com que ela sangrasse ao se sentar. Todos sabem que Òsàlá tem aversão a sangue e ao vermelho. Isso causou, então, muitos constrangimentos. Para se livrar do constrangimento a que foi submetida por Ìyámi, Òṣùn transformou o pano sujo de sangue em odídẹ, pediu a Èṣù que espalhasse por todos os cantos que daria uma festa e que todos poderiam entrar, contanto que usassem uma pena vermelha da cauda do odídẹ. A festa aconteceu, todos os òrìṣà(s) compareceram e usaram a pena, inclusive Òṣàlá. Òṣùn reverteu, com isso, o constrangimento. De igual modo, contam os mais velhos que Òṣùn ao iniciar o primeiro ìyawo instituiu o uso do ìkóòdédẹ para que esse novo Ser fosse reconhecido por todos como sendo iniciado.


No mito em que Èṣù respeita o tabu para ser elevado a condição de mais velho entre os demais òrìsà, há elementos suficientes para justificar o uso do ìkóòdédẹ nos ritos de passagem como símbolo de submissão. Aquele que está com o ìkóòdédẹ colocado na altura da testa, não pode carregar nada mais sobre a cabeça. Èṣù fez o ebọ́ indicado pelo bàbáláwo com o propósito de conseguir respeito e consideração, usou o ìkóòdéde e, por isso, recebeu do próprio Olòdùmarè a prerrogativa de ser homenageado antes dos demais. Veja que no mito temos duas informações importantes: a primeira sobre o uso do ìkóòdéde e a segundo que nos fala porque  Èṣù é homenageado antes de todos os demais òrìṣà.

O ìkóòdédẹ é, entre as demais penas ritualísticas do Candomblé, a que representa a fecundação, a menstruação, a gestação e o nascimento. É ele quem representa o poder feminino. Conforme se sabe o ìkóòdédẹ é, para além de tudo o mais, símbolo de realeza e de nobreza. É a máxima representação da fidelidade. Usado no ìyawo e nas demais obrigações, pode significar, além de tudo o que já foi dito, mudança de status: de abian para ìyawo, de àbúrò para egbomi e assim por diante.

Considerações finais

Em face de todo o exposto, esperamos ter contribuído com o conhecimento dos irmãos que ainda estão trilhando os primeiros passos dentro das religiões de matriz africana, elucidando que o ìkóòdédẹ não constitui um mero adorno de cabeças, mas um objeto com significação que vai muito além daquilo que se vê apenas com os olhos.

De igual modo, esperamos ter despertado nos irmãos mais experientes a vocação para que também escrevam e publiquem os conhecimentos que têm a respeito da cultura religiosa africana para que tais saberes não se percam para sempre envoltos no manto fúnebre do egoísmo.

ATENÇÃO!

Depois das pesquisas e de conversas com irmãos versados no àṣẹ, chegamos à conclusão que o ìkóòdédẹ não poderia ser assunto de um único texto tendo em vista a exiguidade do tema.

Se imprimíssemos nesta proposta todas as informações colhidas, certamente, escreveríamos um trato e, por isso, inviabilizaríamos o nosso objetivo que, desde o início, era escrever um texto de fácil leitura e de compreensão imediata para os nossos leitores.

Assim sendo e como de costume, queremos consignar que este texto não está acabado e que o assunto, por ser extremamente amplo, deverá ser retomado depois de verificada a procedência das informações encontradas em nossa pesquisa. Há alguns ìtàn(s) e relatos orais que ainda não tiveram sua veracidade atestada. Assim que isso ocorrer, retomaremos o texto para agregar mais informação.

APELO: Pedimos a contribuição de todos que quiserem nos ajudar na construção deste texto.

REFERÊNCIAS

PASSAROS EXÓTICOS. Papagaio do Congo – Guia Completo de Criação Com Fotos. Disónível em: http://passarosexoticos.net/papagaio-do-congo/ Acesso em: 28 de junho de 2016.
ZOOLAGOS. Papagaio cinzento africano, Disponível em http://www.zoolagos.com/pdf/BIRDSPT/Info-A4-papagaio-cinz-african.pdf. Aceso em 28 de junho de 2016.


FONTE DA IMAGEM: http://orisadara.blogspot.com.br/2014_07_01_archive.htm

[1] . THE ALEX FONDATION. Disponível em: http://alexfoundation.org/about/dr-irene-pepperberg/. Acesso em: 28 de junho de 2016.