Texto escrito por Thonny Hawany
Em diferentes
terreiros de tradição yorùbá, essa família reúne Òrìṣà como Nàná, Ọbalúwáiyé ou
Omolu, Òṣùmàrè, Yewá, Ọ̀sányìn e Ìrókò.
A composição
dessa família, entretanto, pode variar de acordo com a nação, a linhagem e os
fundamentos preservados em cada casa. Em algumas tradições, ela é constituída
principalmente por Nàná, Ọbalúwáiyé, Òṣùmàrè e Yewá. Em outras, Ọ̀sányìn e
Ìrókò também são integrados a esse núcleo, em razão de suas relações com a
terra, as folhas, as árvores, a cura, o tempo e a ancestralidade.
Na tradição do
Ojú Oòrùn, a Família Kéréjègbé é formada pelos seis Òrìṣà anteriormente
mencionados: Nàná, Ọbalúwáiyé, Òṣùmàrè, Yewá, Ọ̀sányìn e Ìrókò.
Isso não
significa, entretanto, que esses Òrìṣà não possam estabelecer relações com
outras famílias ou outros agrupamentos sagrados. Ọ̀sányìn, por exemplo, pode
aparecer ligado a Ògún e Ọ̀ṣọ́ọ̀sì, sobretudo por seus vínculos com as folhas,
as matas, a caça, os caminhos e os conhecimentos relacionados à natureza. Do
mesmo modo, Ìrókò pode ser associado a Ṣàngó em razão de determinadas
narrativas, fundamentos e relações estabelecidas entre essas divindades.
No
entendimento do Ojú Oòrùn, contudo, essas associações são consideradas
secundárias e não alteram o pertencimento primordial de Ọ̀sányìn e Ìrókò à
Família Kéréjègbé. Elas decorrem das múltiplas relações que os Òrìṣà
estabelecem entre si, seja por parentesco mítico, afinidade de elementos e
atribuições, compartilhamento de fundamentos ou pelos caminhos percorridos no
Àiyé e no Ọ̀run.
Assim,
pertencer a uma família sagrada não significa permanecer isolado em um núcleo
fechado. Os Òrìṣà possuem histórias, caminhos e campos de atuação que se
encontram e se entrelaçam. Essas aproximações ampliam a compreensão de suas
trajetórias, mas não necessariamente modificam sua origem ou seu pertencimento
familiar dentro dos fundamentos preservados em cada comunidade de Àṣẹ.
Por que são considerados uma
família?
No Ojú Oòrùn,
entende-se que a palavra “família”, nesse contexto, não deve ser compreendida
somente em seu sentido biológico ou genealógico. Trata-se de uma família
mítico-ritual, formada por divindades cujos poderes, histórias, elementos
naturais, campos de atuação e funções sagradas se complementam.
Quando se fala em família, é natural que as pessoas procurem identificar relações diretas de parentesco entre os Òrìṣà. Entretanto, esse aspecto nem sempre é o mais importante. Há, por exemplo, narrativas que estabelecem uma genealogia mítica direta entre Nàná, Ọbalúwáiyé e Òṣùmàrè. O mesmo parentesco, porém, não aparece de maneira uniforme em todas as narrativas relativas a Yewá, Ọ̀sányìn e Ìrókò.
É preciso compreender, portanto, que o conceito de família, nesses casos, transcende as relações de consanguinidade e alcança uma dimensão mais ampla, que pode ser denominada de parentesco biomítico. Os Òrìṣà podem pertencer a uma mesma família em razão de laços de consanguinidade consaguíneo, mas também podem compô-la por compartilharem vínculos biomíticos, elementos da natureza, campos de atuação, fundamentos e agências sagradas.
Em
determinadas narrativas afrodiaspóricas, Nàná é apresentada como a grande mãe
de Ọbalúwáiyé e Òṣùmàrè. Algumas tradições narram que Ọbalúwáiyé formou par com
Yewá; outras contam que foi Òṣùmàrè quem se uniu a ela, compartilhando os
mistérios do firmamento. Há ainda narrativas segundo as quais Yewá seria irmã
de Ọbalúwáiyé e Òṣùmàrè e, portanto, também filha de Nàná.
Mais
importante do que determinar qual dessas narrativas estaria certa ou errada é
reconhecer que elas expressam diferentes memórias, linhagens e fundamentos
religiosos. As tradições afrodiaspóricas não estão organizadas a partir de uma
narrativa única, imutável e universal. Cada comunidade de Àṣẹ guarda,
interpreta e transmite os conhecimentos recebidos de seus antepassados.
Nas fontes
orais e nos fundamentos preservados pelo Ojú Oòrùn, Nàná, Ọbalúwáiyé, Òṣùmàrè,
Yewá, Ọ̀sányìn e Ìrókò são compreendidos como divindades pertencentes ao mesmo
complexo mítico-ritual. Algumas são apresentadas como descendentes de Nàná;
outras se integram à família por compartilharem os mistérios da terra, das
águas, da vegetação, da cura, da ancestralidade, do tempo, da vida e da morte.
Para a
tradição do Ojú Oòrùn, Ìrókò integra a Família Kéréjègbé por representar a
árvore sagrada, o tempo ancestral e a ligação entre a terra e o mundo
invisível. Suas raízes penetram profundamente o solo, enquanto seus galhos se
elevam em direção ao céu. Ele estabelece, assim, uma comunicação simbólica
entre o Àiyé e o Ọ̀run.
Cabe reforçar
que a Família Kéréjègbé reúne forças e agências que participam de um mesmo
universo biomítico: a terra que nos alimenta; as águas que geram e fecundam; as
folhas que curam; o tempo que transforma; a doença que modifica o corpo; a
morte que o devolve à terra; e a renovação que permite à vida recomeçar.
No Candomblé
brasileiro e, particularmente, na tradição preservada pelo Ojú Oòrùn, os nomes Jì,
Ìjì, Unjí e Kéréjègbé, empregados para denominar esse panteão de Òrìṣà,
expressam conhecimentos herdados do encontro entre diferentes matrizes
afrodiaspóricas, especialmente aquelas trazidas pelos povos yorùbá-nagô e
jeje-fon.
Essas
divindades, cultuadas nas casas de Kétu, guardam relações profundas com
divindades originárias de diferentes territórios da África Ocidental,
especialmente do antigo Daomé, atual República do Benim. Entre essas
correspondências e aproximações, encontram-se Nàná Buruku, Ṣànpọ̀nná ou
Sakpatá, Dan ou Bessém, Loko e Agué. Essas relações evidenciam os encontros, as
reelaborações e as continuidades religiosas produzidas na diáspora africana
(Lima, 2015).
O que une todas essas
divindades?
A Família
Kéréjègbé está unida por grandes fundamentos: a terra como origem, morada e
destino; as águas antigas e a lama primordial; as folhas e os conhecimentos de
cura; a doença como força de transformação; a cura como recomposição do
equilíbrio; o tempo e a ancestralidade; a morte não como desaparecimento
absoluto, mas como passagem; e a renovação permanente da existência.
Essa família
também é conhecida como Família da Palha. A palha aparece especialmente nas
vestes e insígnias de Ọbalúwáiyé, mas seu significado alcança toda a família.
Ela nasce da terra, protege, encobre o mistério e marca a relação entre a
vegetação, o corpo, a doença, a morte e a renovação. Consta-se também que a
palha está nos símbolos e nas vestimentas dos demais Òrìsà ligados a essa
família.
Em síntese, a
Família Jì, Ìjì, Unjí, Kéréjègbé ou Família da Palha guarda os grandes
mistérios do existir. Nàná oferece a matéria primordial; Ọbalúwáiyé governa as
transformações do corpo; Ọ̀sányìn revela a cura por meio das folhas; Òṣùmàrè
mantém o movimento e a continuidade; Yewá guarda as passagens, as
transformações e os segredos; e Ìrókò sustenta o tempo e a memória ancestral.
Conforme
entende o povo do Ojú Oòrùn, a Família Kéréjègbé, embora seja formada por
divindades diferentes e nem sempre vinculadas pelo mesmo parentesco mítico,
reúne poderes que atuam na construção de um ensinamento comum: tudo nasce da
terra, tudo se transforma e tudo retorna a ela para que a vida possa novamente
florescer.
São Òrìṣà que
participam tanto da constituição singular dos seres quanto do retorno desses
mesmos seres ao todo ancestral. Por isso, seus fundamentos atravessam o
nascimento, o desenvolvimento, a saúde, a doença, o envelhecimento, a morte e a
renovação da existência.
Por que Ọbalúwáiyé e sua
família são celebrados no mês de agosto?
A associação
de determinados Òrìṣà a meses específicos do calendário não ocorre apenas com Ọbalúwáiyé
e sua família, celebrados em agosto. Em muitas comunidades de Candomblé, outros
Òrìṣà também são festejados em períodos específicos do ano. É o caso de Ọya,
celebrada em dezembro em razão de sua aproximação histórica com Santa Bárbara,
cujo dia é comemorado em 4 de dezembro.
Essa
organização do calendário religioso brasileiro foi influenciada pelo processo
histórico de aproximação, assimilação e sincretismo entre os Òrìṣà e os santos
católicos. Em diferentes regiões e tradições, Ọbalúwáiyé ou Omolu foi associado
principalmente a São Lázaro e a São Roque. Como a celebração católica de São
Roque ocorre em 16 de agosto, muitas casas passaram a dedicar esse mês a Ọbalúwáiyé
e, por extensão, aos demais integrantes de sua família.
Essa
correspondência não é uniforme. Dependendo da região, da nação e da linhagem
religiosa, Ọbalúwáiyé pode ser relacionado mais diretamente a São Lázaro, a São
Roque ou a ambos. Da mesma maneira, as datas e formas de celebração variam de
uma comunidade para outra.
A permanência
dessas celebrações em agosto pode ser compreendida como uma continuidade
histórica das estratégias de preservação utilizadas pelas comunidades negras.
Embora o sincretismo já não seja necessário como forma de ocultação do culto,
suas marcas permanecem no calendário, nas festas, nas cantigas, nas imagens e
na memória religiosa de muitas comunidades.
Durante a
escravidão e em outros períodos de perseguição às religiões de matriz africana,
a aproximação entre Òrìṣà e santos católicos funcionou como uma estratégia de
proteção. Diante da violência colonial e da imposição do catolicismo,
africanos e seus descendentes recorreram a linguagens, imagens e celebrações
católicas para preservar, reorganizar e transmitir seus conhecimentos
religiosos.
Isso não
significa que os Òrìṣà sejam santos católicos ou que ambos possuam a mesma
natureza. O sincretismo deve ser compreendido como um fenômeno histórico e
cultural produzido em condições específicas de dominação, resistência e
negociação. Por meio dessas estratégias, muitos conhecimentos sagrados trazidos
por nossos ancestrais africanos e reconstruídos na diáspora conseguiram
atravessar gerações e chegar até os dias atuais.
Assim,
celebrar Ọbalúwáiyé e a Família Kéréjègbé no mês de agosto não constitui apenas
uma permanência do calendário sincrético. Para o Ojú Oòrùn, é também uma
oportunidade de reverenciar a terra, agradecer pela vida, pedir saúde e cura,
honrar a ancestralidade e refletir sobre os mistérios da transformação e da
renovação.
Referências
LIMA, Alexandre Mantovani de. Memórias
e identidades de um terreiro de Candomblé: Ilé Ògún Anaeji Ìgbele Ni Oman – Àṣẹ
Pantanal: a Nação Efon em Duque de Caxias – RJ. 2015. 232 f. Dissertação
(Mestrado em Ciências da Religião) — Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo, São Paulo, 2015. Disponível em: https://tede2.pucsp.br/handle/handle/1944.
Acesso em: 7 ago. 2026.
PRESENDE, Marideise Silva. Kiuá:
raízes da ancestralidade africana. 2024. 180 f. Dissertação (Mestrado
Profissional em Ensino e Relações Étnico-Raciais) — Universidade Federal do Sul
da Bahia, Campus Sosígenes Costa, Porto Seguro, 2024. Disponível em: https://sigconteudo.ufsb.edu.br/arquivos/2024091153d7fb10335097b353c102ec7/Dissertacao_de_mestrado_28_03_24_assinado.pdf.
Acesso em: 7 ago. 2026.
Nota sobre o uso de
inteligência artificial
O conteúdo deste texto parte dos
conhecimentos religiosos, das experiências e dos fundamentos preservados pelo
Ilé Àṣẹ Ojú Oòrùn, sob a orientação de Bàbá Thonny Hawany. A ferramenta
ChatGPT, desenvolvida pela OpenAI, foi utilizada como recurso auxiliar na
organização das ideias, na revisão linguística e no aprimoramento da redação.
Todas as informações foram posteriormente examinadas, corrigidas e validadas
pelo autor, que assume integral responsabilidade pela versão final.
