Mostrando postagens com marcador Conhecimento de Àṣẹ. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Conhecimento de Àṣẹ. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Família Jì, Ìjì, Unjí, Kéréjègbé

 Texto escrito por Thonny Hawany


    A chamada Família Kéréjègbé, também conhecida, em algumas tradições, como Família Jì, Unjí ou Ìjì, reúne divindades associadas aos mistérios mais profundos da terra e da ancestralidade, bem como aos processos da vida e da morte, da doença e da cura, da transformação e da renovação.

Em diferentes terreiros de tradição yorùbá, essa família reúne Òrìṣà como Nàná, Ọbalúwáiyé ou Omolu, Òṣùmàrè, Yewá, Ọ̀sányìn e Ìrókò.

A composição dessa família, entretanto, pode variar de acordo com a nação, a linhagem e os fundamentos preservados em cada casa. Em algumas tradições, ela é constituída principalmente por Nàná, Ọbalúwáiyé, Òṣùmàrè e Yewá. Em outras, Ọ̀sányìn e Ìrókò também são integrados a esse núcleo, em razão de suas relações com a terra, as folhas, as árvores, a cura, o tempo e a ancestralidade.

Na tradição do Ojú Oòrùn, a Família Kéréjègbé é formada pelos seis Òrìṣà anteriormente mencionados: Nàná, Ọbalúwáiyé, Òṣùmàrè, Yewá, Ọ̀sányìn e Ìrókò.

Isso não significa, entretanto, que esses Òrìṣà não possam estabelecer relações com outras famílias ou outros agrupamentos sagrados. Ọ̀sányìn, por exemplo, pode aparecer ligado a Ògún e Ọ̀ṣọ́ọ̀sì, sobretudo por seus vínculos com as folhas, as matas, a caça, os caminhos e os conhecimentos relacionados à natureza. Do mesmo modo, Ìrókò pode ser associado a Ṣàngó em razão de determinadas narrativas, fundamentos e relações estabelecidas entre essas divindades.

No entendimento do Ojú Oòrùn, contudo, essas associações são consideradas secundárias e não alteram o pertencimento primordial de Ọ̀sányìn e Ìrókò à Família Kéréjègbé. Elas decorrem das múltiplas relações que os Òrìṣà estabelecem entre si, seja por parentesco mítico, afinidade de elementos e atribuições, compartilhamento de fundamentos ou pelos caminhos percorridos no Àiyé e no Ọ̀run.

Assim, pertencer a uma família sagrada não significa permanecer isolado em um núcleo fechado. Os Òrìṣà possuem histórias, caminhos e campos de atuação que se encontram e se entrelaçam. Essas aproximações ampliam a compreensão de suas trajetórias, mas não necessariamente modificam sua origem ou seu pertencimento familiar dentro dos fundamentos preservados em cada comunidade de Àṣẹ.

Por que são considerados uma família?

No Ojú Oòrùn, entende-se que a palavra “família”, nesse contexto, não deve ser compreendida somente em seu sentido biológico ou genealógico. Trata-se de uma família mítico-ritual, formada por divindades cujos poderes, histórias, elementos naturais, campos de atuação e funções sagradas se complementam.

Quando se fala em família, é natural que as pessoas procurem identificar relações diretas de parentesco entre os Òrìṣà. Entretanto, esse aspecto nem sempre é o mais importante. Há, por exemplo, narrativas que estabelecem uma genealogia mítica direta entre Nàná, Ọbalúwáiyé e Òṣùmàrè. O mesmo parentesco, porém, não aparece de maneira uniforme em todas as narrativas relativas a Yewá, Ọ̀sányìn e Ìrókò.

É preciso compreender, portanto, que o conceito de família, nesses casos, transcende as relações de consanguinidade e alcança uma dimensão mais ampla, que pode ser denominada de parentesco biomítico. Os Òrìṣà podem pertencer a uma mesma família em razão de laços de consanguinidade consaguíneo, mas também podem compô-la por compartilharem vínculos biomíticos, elementos da natureza, campos de atuação, fundamentos e agências sagradas.

Em determinadas narrativas afrodiaspóricas, Nàná é apresentada como a grande mãe de Ọbalúwáiyé e Òṣùmàrè. Algumas tradições narram que Ọbalúwáiyé formou par com Yewá; outras contam que foi Òṣùmàrè quem se uniu a ela, compartilhando os mistérios do firmamento. Há ainda narrativas segundo as quais Yewá seria irmã de Ọbalúwáiyé e Òṣùmàrè e, portanto, também filha de Nàná.

Mais importante do que determinar qual dessas narrativas estaria certa ou errada é reconhecer que elas expressam diferentes memórias, linhagens e fundamentos religiosos. As tradições afrodiaspóricas não estão organizadas a partir de uma narrativa única, imutável e universal. Cada comunidade de Àṣẹ guarda, interpreta e transmite os conhecimentos recebidos de seus antepassados.

Nas fontes orais e nos fundamentos preservados pelo Ojú Oòrùn, Nàná, Ọbalúwáiyé, Òṣùmàrè, Yewá, Ọ̀sányìn e Ìrókò são compreendidos como divindades pertencentes ao mesmo complexo mítico-ritual. Algumas são apresentadas como descendentes de Nàná; outras se integram à família por compartilharem os mistérios da terra, das águas, da vegetação, da cura, da ancestralidade, do tempo, da vida e da morte.

Para a tradição do Ojú Oòrùn, Ìrókò integra a Família Kéréjègbé por representar a árvore sagrada, o tempo ancestral e a ligação entre a terra e o mundo invisível. Suas raízes penetram profundamente o solo, enquanto seus galhos se elevam em direção ao céu. Ele estabelece, assim, uma comunicação simbólica entre o Àiyé e o Ọ̀run.

Cabe reforçar que a Família Kéréjègbé reúne forças e agências que participam de um mesmo universo biomítico: a terra que nos alimenta; as águas que geram e fecundam; as folhas que curam; o tempo que transforma; a doença que modifica o corpo; a morte que o devolve à terra; e a renovação que permite à vida recomeçar.

No Candomblé brasileiro e, particularmente, na tradição preservada pelo Ojú Oòrùn, os nomes Jì, Ìjì, Unjí e Kéréjègbé, empregados para denominar esse panteão de Òrìṣà, expressam conhecimentos herdados do encontro entre diferentes matrizes afrodiaspóricas, especialmente aquelas trazidas pelos povos yorùbá-nagô e jeje-fon.

Essas divindades, cultuadas nas casas de Kétu, guardam relações profundas com divindades originárias de diferentes territórios da África Ocidental, especialmente do antigo Daomé, atual República do Benim. Entre essas correspondências e aproximações, encontram-se Nàná Buruku, Ṣànpọ̀nná ou Sakpatá, Dan ou Bessém, Loko e Agué. Essas relações evidenciam os encontros, as reelaborações e as continuidades religiosas produzidas na diáspora africana (Lima, 2015).

O que une todas essas divindades?

A Família Kéréjègbé está unida por grandes fundamentos: a terra como origem, morada e destino; as águas antigas e a lama primordial; as folhas e os conhecimentos de cura; a doença como força de transformação; a cura como recomposição do equilíbrio; o tempo e a ancestralidade; a morte não como desaparecimento absoluto, mas como passagem; e a renovação permanente da existência.

Essa família também é conhecida como Família da Palha. A palha aparece especialmente nas vestes e insígnias de Ọbalúwáiyé, mas seu significado alcança toda a família. Ela nasce da terra, protege, encobre o mistério e marca a relação entre a vegetação, o corpo, a doença, a morte e a renovação. Consta-se também que a palha está nos símbolos e nas vestimentas dos demais Òrìsà ligados a essa família.

Em síntese, a Família Jì, Ìjì, Unjí, Kéréjègbé ou Família da Palha guarda os grandes mistérios do existir. Nàná oferece a matéria primordial; Ọbalúwáiyé governa as transformações do corpo; Ọ̀sányìn revela a cura por meio das folhas; Òṣùmàrè mantém o movimento e a continuidade; Yewá guarda as passagens, as transformações e os segredos; e Ìrókò sustenta o tempo e a memória ancestral.

Conforme entende o povo do Ojú Oòrùn, a Família Kéréjègbé, embora seja formada por divindades diferentes e nem sempre vinculadas pelo mesmo parentesco mítico, reúne poderes que atuam na construção de um ensinamento comum: tudo nasce da terra, tudo se transforma e tudo retorna a ela para que a vida possa novamente florescer.

São Òrìṣà que participam tanto da constituição singular dos seres quanto do retorno desses mesmos seres ao todo ancestral. Por isso, seus fundamentos atravessam o nascimento, o desenvolvimento, a saúde, a doença, o envelhecimento, a morte e a renovação da existência.

Por que Ọbalúwáiyé e sua família são celebrados no mês de agosto?

A associação de determinados Òrìṣà a meses específicos do calendário não ocorre apenas com Ọbalúwáiyé e sua família, celebrados em agosto. Em muitas comunidades de Candomblé, outros Òrìṣà também são festejados em períodos específicos do ano. É o caso de Ọya, celebrada em dezembro em razão de sua aproximação histórica com Santa Bárbara, cujo dia é comemorado em 4 de dezembro.

Essa organização do calendário religioso brasileiro foi influenciada pelo processo histórico de aproximação, assimilação e sincretismo entre os Òrìṣà e os santos católicos. Em diferentes regiões e tradições, Ọbalúwáiyé ou Omolu foi associado principalmente a São Lázaro e a São Roque. Como a celebração católica de São Roque ocorre em 16 de agosto, muitas casas passaram a dedicar esse mês a Ọbalúwáiyé e, por extensão, aos demais integrantes de sua família.

Essa correspondência não é uniforme. Dependendo da região, da nação e da linhagem religiosa, Ọbalúwáiyé pode ser relacionado mais diretamente a São Lázaro, a São Roque ou a ambos. Da mesma maneira, as datas e formas de celebração variam de uma comunidade para outra.

A permanência dessas celebrações em agosto pode ser compreendida como uma continuidade histórica das estratégias de preservação utilizadas pelas comunidades negras. Embora o sincretismo já não seja necessário como forma de ocultação do culto, suas marcas permanecem no calendário, nas festas, nas cantigas, nas imagens e na memória religiosa de muitas comunidades.

Durante a escravidão e em outros períodos de perseguição às religiões de matriz africana, a aproximação entre Òrìṣà e santos católicos funcionou como uma estratégia de proteção. Diante da violência colonial e da imposição do catolicismo, africanos e seus descendentes recorreram a linguagens, imagens e celebrações católicas para preservar, reorganizar e transmitir seus conhecimentos religiosos.

Isso não significa que os Òrìṣà sejam santos católicos ou que ambos possuam a mesma natureza. O sincretismo deve ser compreendido como um fenômeno histórico e cultural produzido em condições específicas de dominação, resistência e negociação. Por meio dessas estratégias, muitos conhecimentos sagrados trazidos por nossos ancestrais africanos e reconstruídos na diáspora conseguiram atravessar gerações e chegar até os dias atuais.

Assim, celebrar Ọbalúwáiyé e a Família Kéréjègbé no mês de agosto não constitui apenas uma permanência do calendário sincrético. Para o Ojú Oòrùn, é também uma oportunidade de reverenciar a terra, agradecer pela vida, pedir saúde e cura, honrar a ancestralidade e refletir sobre os mistérios da transformação e da renovação.

Referências

LIMA, Alexandre Mantovani de. Memórias e identidades de um terreiro de Candomblé: Ilé Ògún Anaeji Ìgbele Ni Oman – Àṣẹ Pantanal: a Nação Efon em Duque de Caxias – RJ. 2015. 232 f. Dissertação (Mestrado em Ciências da Religião) — Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2015. Disponível em: https://tede2.pucsp.br/handle/handle/1944. Acesso em: 7 ago. 2026.

PRESENDE, Marideise Silva. Kiuá: raízes da ancestralidade africana. 2024. 180 f. Dissertação (Mestrado Profissional em Ensino e Relações Étnico-Raciais) — Universidade Federal do Sul da Bahia, Campus Sosígenes Costa, Porto Seguro, 2024. Disponível em: https://sigconteudo.ufsb.edu.br/arquivos/2024091153d7fb10335097b353c102ec7/Dissertacao_de_mestrado_28_03_24_assinado.pdf. Acesso em: 7 ago. 2026.

Nota sobre o uso de inteligência artificial

O conteúdo deste texto parte dos conhecimentos religiosos, das experiências e dos fundamentos preservados pelo Ilé Àṣẹ Ojú Oòrùn, sob a orientação de Bàbá Thonny Hawany. A ferramenta ChatGPT, desenvolvida pela OpenAI, foi utilizada como recurso auxiliar na organização das ideias, na revisão linguística e no aprimoramento da redação. Todas as informações foram posteriormente examinadas, corrigidas e validadas pelo autor, que assume integral responsabilidade pela versão final.